
Nasceu, o pernambucano José Bento da Cunha Figueiredo, no dia 29 de abril de 1808, na vida da Barra do Rio São Francisco. E estudava a língua latina na terra natal, conta o padre Galanti, quando D. Tomaz Noronha, bispo de Pernambuco, o trouxe para o Seminário da terra olindense. Matriculou-se, aos 21 anos de idade, no Curso Jurídico de Olinda, e em 1833, recebeu a carta de bacharel, ao lado Paula Batista e do poeta Álvaro Teixeira de Macedo.
Iniciou-se na advocacia, defendendo tese, em 1835. Um ano mais tarde, alcançou a cátedra de direito eclesiástico. E nessa cadeira de mestre foi, na verdade, figura inconfundível, pela austeridade e pela sabedoria.
Político, obteve, em 1844, a deputação provincial. Foi, a esse tempo, narram biógrafos, batalhador incansável na organização da Companhia de Beberibe, que fornecia água potável à cidade do Recife. Elegeu-se, em 47, deputado à Câmara Geral e, fiel à sua ideologia política, bateu-se, ardorosamente, na revolução Praieira, ao lado do poder constituído. Governou, em 49, a província de Alagoas. Realizou obras notáveis, nessa administração. Prendeu o célebre bandido Vicente de Paula, e restabeleceu a ordem pública. Debelou, nessa época, a febre amarela, conquistando a gratidão do povo.
Assumiu, 23 de abril de 1853, o poder, na província de Pernambuco. Trabalhador, e honesto, deu, à terra natal, as melhores energias de seu espírito e de seu coração.
Deve-se-lhe a fundação do Ginásio Pernambucano , a conclusão do prédio da Casa de Detenção, e o contrato de iluminação a gaz, na capital pernambucana. Outras obras, todas de vultos, encheram, ainda, o período abençoado de seu governo, que se prolongou até 28 de maio de 1857. Dirigia os destinos do povo paraense, em 1861, e, em 68, mereceu distinção de governar a província do Pará. Entregou-lhe o povo pernambucano, nas urnas livres, em 1869, a poltrona vitalícia de senador, o mais alto e mais ambicioso dos postos políticos, no regime monárquico. E em 1875, quando o futuro Duque de Caxias organizou o gabinete de 25 de Junho, coube, a esse eminente pernambucano, a honra de ser o ministro do Império.
Sentou-se, mais tarde, na cadeira de Conselheiro de Estado. E aos 80 anos de idade, recebeu a graça imperial de um título de nobreza. Fê-lo, o Imperador, barão de Bom Consêlho.
Morreu esse preclaro estadista pernambucano, em 1891, ao alvorecer da República. Deve orgulhar-se Pernambuco de seu ilustrado filho. Foi barão de Bom Consêlho, um dos maiores brasileiros, e um dos mais esclarecidos estadistas do velho e derradeiro Império dos Braganças.
Célio Meira – escritor e jornalista.
LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.
Setembro de 1939 – Célio Meira







Amanheço morto na cidade. Tomo conhecimento de que morri logo cedo. Sou um morto muito especial, porque posso negar a minha morte, abrir a porta e sair andando, respirando o ar, rever as ruas, os lugares antigos por onde passei quando criança e que o tempo foi modelando, ora para melhor, ora para pior. Posso perceber, agora, que alguns lugares é que morreram. Caminho com um ar importante pelas ruas, porque posso descrever o que desapareceu. O cheiro do Café São Miguel, as meninas do Colégio Municipal, picolé de mangaba, disco de vinil com o retrato de Carlos Gonzaga, sessões dominicais de cinema, com sabor de ping-pong, Rock Lane a cavalo. Sou um morto que pode contemplar o nojo, a paixão e o tédio dos que me rodeiam e me julgam. Tenho direito a mais um dia, um jantar, telefonar para marcar um encontro. Principalmente, ir ao encontro e praticar, meticulosamente, a arte de dar e receber amor, como na milenar receita de Vatsyayana, o Kama Sutra de todo dia. Sinto-me vaidoso de minha morte. Sem esquife, castiçal, lampejo de vela, coro lúgubre de carpideiras e meu derradeiro desfile, horizontal, pela cidade.




















