VIAGEM AO SERTÃO DO PAJEÚ – por Sosígenes Bittencourt.

Nunca viajei tanto na minha vida.
De Vitória de Santo Antão a Caruaru, custou 1 hora de carro de passeio. Motorista calado, as duas mãos na direção, música evangélica, tudo por 25 contos de réis.
De Caruaru a Tabira, ônibus do tamanho de um bonde, refrigerado, voando por uma estrada estreita, medo danado.
Uma parada em Sertânia, de 25 minutinhos, para almoçar.
– Moça, me dê uma cerveja!
– Aqui, num vende bebida, não. – E o cheiro de carne assada implorando uma lapada de cachaça.
Nas cidades, havia mais carro estacionado na BR, do que gente andando.
Agoniado com a demora, perguntei a uma idosa: – A senhora vem de onde, madame!
E a idosa: – De Pé de Jaca!
Parecia que a morte era mais pertin, para destacar um sotaque em “in”, do povo do Pajeú.

Sosígenes Bittencourt

Vida Passada… – Barão de Vassouras – por Célio Meira.

O mineiro Francisco Teixeira Leite nasceu na terra natal de Tiradentes, de Silva Alvarenga e do marquês de Baependi. Nasceu, em 1864, em São João del-Rei, onde, 29 anos mais tarde, Bernardo de Vasconcelos, vice-presidente da província de Minas, estabeleceu a sede do governo, oferecendo, conta o ilustrado historiador Almeida Magalhães, aos “caramurus” e aos “exaltados” de Ouro Preto, famosa resistência.

Não ambicionando carta de doutor, nem batina de sacerdote, o que era tão comum aos moços de seu tempo, mostrou-se fascinado, Teixeira Leite, desde os primeiros anos da mocidade, pela vida do campo, laboriosa e livre ao sol e à chuva. E seguiu, sem vacilações, as linhas do destino.

Atravessou as fronteiras de sua província e fixou-se no município de Vassouras, na terra fluminense. Homem inteligente, conhecendo, sem erros, os problemas da lavoura, pertenceu, Teixeira Leite, à família poderosa dos lavradores e fazendeiros, vinculando seu nome, por essa razão, ao progresso, à grandeza econômica e à história da gleba vassourense.

Rico e independente, ingressou nas lutas partidárias alcançando grande prestígio dentro e fora das fronteiras daquele município, que ele acolhera para o centro de suas atividades agrícolas e políticas. Exerceu poderosa influência na sociedade fluminense do segundo império, pela austeridade do caráter e pela fidalguia de seus antepassados. “Filho do primeiro barão de També, sobrinho do barão de Aiuruoca” é esse ilustre mineiro, informa o biógrafo do “Galeria Nacional”, o “tronco de tradicional família Teixeira Leite”.

Relevantes serviços prestou à Nação, servindo à monarquia. “ O barão de Vassouras, escreve esse paciente biógrafo, e seus irmãos foram precursores da construção da Estrada de Ferro de D. Pedro II, e do chamado Movimento Vassouras”. Grande do Império, mereceu comendas e títulos de barão, por decreto, em 1871. E aos 70 anos de idade, o de barão, com grandezas. Dez anos viveu, ainda, depois dessa graça do derradeiro governo da Casa de Brangança.

Morreu o barão de Vassouras aos 80 anos, no dia 02 de maio de 1884. Na viu, o grande nobre fazendeiro, a libertação dos escravos. Desceu à sepultura, na riqueza. Era dono de terras e possuía negros.

Célio Meira – escritor e jornalista. 

LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.

Setembro de 1939 – Célio Meira

Cascatinha da Matriz – por Sosígenes Bittencourt.

(A Cascatinha da Matriz e Manoelzinho de Horácio)

Papai me contava e mamãe assevera que quem construiu essa praça, chamada Dom Luis de Brito, foi Horácio de Barros, pai de Manoelzinho Rangel. Depois, diz que Horácio de Barros não foi à inauguração da obra, porque estava acometido de Tifo. Assistiu ao evento, debruçado na janela de sua casa, na Rua Imperial, popularmente conhecida como Rua do Meio.

Era nessa Cascatinha que Manoelzinho de Horácio tomava cachaça com caramelo de menta, contava piada, soltava lorota e empulhava o mundo. Manoelzinho de Horácio partiu para a Eternidade aos 73 anos, já faz algum tempo. Ele contava que o médico que lhe tirou o baço e garantiu-lhe um ano de existência morreu primeiro.

Certa vez, Manoelzinho de Horácio me contou que fez um frio tão grande em Vitória de Santo Antão que o Leão Coroado, na frente da Estação Ferroviária, saiu do monumento e foi se esconder dentro de uma barbearia do outro lado da Praça. Manoelzinho de Horácio era jogador de futebol. Diz que, um dia, ele foi bater um pênalti, quando o adversário Tenente Índio o ameaçou: – Se fizer o gol, me apanha! Manoelzinho não teve dúvida, furou o gol e saiu correndo do estádio José da Costa, solto na buraqueira, pelo Dique afora.

Sosígenes Bittencourt

Um amigo para a vida toda……….

Segue, abaixo, um artigo que escrevi em 2018. Encontrei-o ocasionalmente. Pesquisava outro conteúdo e essa postagem apareceu. Resolvi postar novamente. 

Semana passada, em um blog, li um artigo que me fez refletir bastante. Falava de uma realidade comum (morte), mas com um requinte de ineditismo, pelo menos pra mim e para nossa cultura. Aliás, dizem alguns entendidos  que em função do avanço da ciência nos últimos dois séculos, cada dia que passa estamos “desnaturalizando” a morte.

O artigo tratava de um telefonema sui generis entre dois homens maduros que se conheciam desde os bancos escolares. Separados pelas questões naturais da vida adulta, até a última sexta (02) em definitivo, os dois se falaram pela última vez alguns dias antes de um deles comunicar  sua morte programada, lá,  do outro lado do mundo (Holanda). O papo foi  exatamente assim:

– “Como vai?, Zé Paulo”.
– “Tudo bem, rapaz, o que há de novo?”.
– “Estou ligando para me despedir.
– “Como???”
– “É que vou fazer eutanásia na próxima sexta” (hoje, dia de finados).

Após o primeiro impacto da notícia, como se fosse um murro na barriga, narrou o Zé Paulo, o Agnaldo elencou  os motivos pelos quais havia tomado a decisão. Entre outras coisas, em função de um câncer, estava apenas com 51kg e a cada cinco dias perdia mais um.

Quando questionado sobre a legalidade do ato, o Agnaldo disse que na Holanda era permitido e que já havia tomado todas providencias legais. Aliás,  até descreveu como seria:

“Até quarta, iria se despedir de amigos e parentes. Quinta, mulher e filhos. Sexta pela manhã, só a mulher. No começo da tarde, chegariam juiz, tabelião, o médico da família e  enfermeiro. E às 16 horas, em sua cama, tomaria uma injeção. Não sentiria dor, assim lhe prometeram”.

Em função da diferença de horário –Brasil/Holanda – sua viagem sem volta ocorreria exatamente às 12h da sexta (02). Confesso que antes de ler o aludido  artigo nunca havia falado no senhor Agnaldo, no entanto, de certa forma, fiquei sensibilizado com o seu calvário e com a sua leveza na decisão, até porque ele também pediu ao Zé Paulo para  que fosse transmitido aos amigos em comum sobre o  seu falecimento programado – dia de finados.

Desde a leitura do artigo, aqui e acolá, fiquei a lembrar do senhor Agnaldo (sem nunca haver antes tomado ciência da sua existência). Na sexta (02), já por volta das 11h – lá na Holanda 15h – já estava eu  ligado em pensamento (eita!…… Falta apenas uma  hora para Agnaldo morrer). Às 12h em ponto,  fiquei totalmente ligado. Parecia que eu  estava lá……..

Bom! O senhor Agnaldo nem foi o primeiro nem será o último sujeito a programar sua morte,  mas desde a leitura do artigo realçado, passei a admirar esse camarada,  que ligou para o amigo para pedir-lhe que avisasse a outros amigos que ele iriam morrer……….Esse sim! Foi um amigo para toda vida e para a vida toda…….Feliz quem gozou da sua amizade!!!

 

Mudar é preciso……

Não esqueçamos nunca o pensamento filosófico que diz: “uma imagem vale mais que mil palavras”. Também é verdade que não existe apenas uma linha de pensamento diante de uma imagem que corresponde a um milheiro de palavras.

Dizem alguns que o homem “desenhou” as palavras para poder mentir, até porque,  na chamada linguagem corporal, se bem analisadas, não há espaços para dúvidas.

Portanto, no transcorrer da vida,  procure não estacionar  sua imaginação numa caixinha qualquer. A maior fortaleza reside justamente na capacidade de adaptação.  Atualizar pensamentos e conceitos, antes de tudo,  é construção de  saúde mental.

Todos contra Marília Arraes…….

Compreender a dinâmica do ambiente político não é uma tarefa das mais fáceis. Não existe faculdade ou formação intelectual que garanta sabedoria e perspicácia nessa atividade.  Ser enganado nesse xadrez de interesses é a regra maior.  E é nesse contexto que se aprende um pouco mais.

Espaço  insalubre por natureza,  na política, não existe amizade, lealdade ou mesmo respeito a quem quer que seja: só interesse e conveniência.

Lembremos, também, que no jogo político não existe fato isolado.  Tudo e todos estão interligados pelo fio condutor – quase sempre – da vantagem e da  vingança. Do adversário de sempre, da vez ou mesmo daqueles que caminham ao seu lado: aquilo que a imprensa costuma chamar  de “fogo amigo”.

Pois bem, na qualidade de observador da cena política tupiniquim estou desconfiado que em 2026, em Pernambuco,  existe uma marcha rumo a um  “terreno pantanoso” que circunda os passos da candidata ao senado Marília Arraes.

Não obstante a mesma ser a líder isolada nas pesquisas de opinião para o senado, divulgadas  até aqui, já é possível sentir o mau cheiro  (covardia) que ainda está por vir.

Imagino que praticamente todos os  “atores graduados” da política pernambucana estão “jogando contra” a neta do Doutor  Arraes.

A política Marília Arraes não é mais uma na “fila do pão”. Com sobrenome de peso, sua iniciação na atividade política vem das bases. Sua trajetória é um atestado inequívoco da sua vocação.

Antes, porém, para alicerçar essa “desconfiança”,  vale lembrar, aqui,  alguns episódios envolvendo esses mesmos atores.

No meu modesto entendimento, seu primeiro movimento fora da curva se materializou quando seu primo governava o estado.  Enquanto a expressiva maioria dos  grupos políticos pernambucanos atravessaram a “avenida do adesismo”,   para ficar do lado do então poderoso governador Eduardo Campos, ela fez o movimento no sentido contrário. Resumo dessa equação:  se firmou como liderança.  Com luz própria. Na luta, na raça…

Então filiada ao Partido dos Trabalhadores, não teve vida fácil. Na sua eleição para prefeitura do Recife teve que jogar contra o PSB e a cúpula do seu próprio partido que, sem nenhuma vergonha na cara, se abraçou com o projeto e os espaços oferecidos pelo adversário, antes mesmo do dia da eleição.

No segundo turno da última eleição ao Palácio do Campo das Princesas (2022) os lideres do latifúndio das esquerdas pernambucanas, pelas circunstâncias impostas pelas  urnas, foram obrigados  a “levantaram a bandeira branca” na sua direção  para os devidos registros fotógrafos, mas,  concomitantemente,  jogaram gasolina  na fogueira da traição eleitoral. Os grupos aliados foram liberados. Cruzaram os brações geral e se regozijaram com o calvário da candidata. Nas coxias: diziam seus falsos aliados: “melhor assim, voltaremos mais adiante…”.

Quatro anos se passaram, e mais uma vez os que se arvoram donos das esquerdas da terra dos altos coqueiros, não queriam ver Marília candidata à Casa Alta. Tiveram que engoli-la.  Em articulação nacional, a mesma  viabilizou um partido e anunciou: “serei candidata avulsa”.

Efetivada na chapa da Frente Popular, Marília Arraes vem comendo o pão que o diabo amassou. Seu “companheiro” de chapa – talvez o seu maior inimigo – vem compondo com “deus e o diabo” para tentar suplanta-la.

Seu primo, líder do grupo, não gostaria de vê-la senadora em nenhuma das situações: se for governador, não suportaria ver  sombras. Se naufragar, não gostaria de ser liderado pela prima do seu pai que, inevitavelmente,  seria  alçada a líder maior das esquerdas pernambucanas .

Raquel Lyra, Eduardo da Fonte, Mendonça Filho e Túlio Gadêlha, naturalmente, são  contra Marilia Arraes. Junta-se: Humberto Costa e João Campos. Ou seja: todos contra a Marília Arraes.

Até o dia da eleição, financiada, parte da imprensa também deverá tocar o terror para dizer que sua candidatura não é “cavalo de chegada”. Se resistirá? Só a dinâmica da campanha  irá dizer……

Alcoólicos Anônimos da Vitória – um breve relato…

“A primeira mulher a fazer parte do AA em Vitória foi Noêmia Barnabé como participante honorífica. Foi entitulado madrinha do AA. Ela não era alcoolista mas pediu para fazer parte dessa associação para ajudar os dependentes químicos e muito o fez . Sua participação dentro do AA foi bastante frutífera com vários depoimentos . Atuando por mais de 25 anos”

Marie Cavalcanti. 

Vida Passada… – Barão do Bom Consêlho – por Célio Meira.

Nasceu, o pernambucano José Bento da Cunha Figueiredo, no dia 29 de abril de 1808, na vida da Barra do Rio São Francisco. E estudava a língua latina na terra natal, conta o padre Galanti, quando D. Tomaz Noronha, bispo de Pernambuco, o trouxe para o Seminário da terra olindense. Matriculou-se, aos 21 anos de idade, no Curso Jurídico de Olinda, e em 1833, recebeu a carta de bacharel, ao lado Paula Batista e do poeta Álvaro Teixeira de Macedo.

Iniciou-se na advocacia, defendendo tese, em 1835. Um ano mais tarde, alcançou a cátedra de direito eclesiástico. E nessa cadeira de mestre foi, na verdade, figura inconfundível, pela austeridade e pela sabedoria.

Político, obteve, em 1844, a deputação provincial. Foi, a esse tempo, narram biógrafos, batalhador incansável na organização da Companhia de Beberibe, que fornecia água potável à cidade do Recife. Elegeu-se, em 47, deputado à Câmara Geral e, fiel à sua ideologia política, bateu-se, ardorosamente, na revolução Praieira, ao lado do poder constituído. Governou, em 49, a província de Alagoas. Realizou obras notáveis, nessa administração. Prendeu o célebre bandido Vicente de Paula, e restabeleceu a ordem pública. Debelou, nessa época, a febre amarela, conquistando a gratidão do povo.

Assumiu, 23 de abril de 1853, o poder, na província de Pernambuco. Trabalhador, e honesto, deu, à terra natal, as melhores energias de seu espírito e de seu coração.

Deve-se-lhe  a fundação do Ginásio Pernambucano , a conclusão do prédio da Casa de Detenção, e o contrato de iluminação a gaz, na capital pernambucana. Outras obras, todas de vultos, encheram, ainda, o período abençoado de seu governo, que se prolongou até 28 de maio de 1857. Dirigia os destinos do povo paraense, em 1861, e, em 68, mereceu distinção de governar a província do Pará. Entregou-lhe o povo pernambucano, nas urnas livres, em 1869, a poltrona vitalícia de senador, o mais alto e mais ambicioso dos postos políticos, no regime monárquico. E em 1875, quando o futuro Duque de Caxias organizou o gabinete de 25 de Junho, coube, a esse eminente pernambucano, a honra de ser o ministro do Império.

Sentou-se, mais tarde, na cadeira de Conselheiro de Estado. E aos 80 anos de idade, recebeu a graça imperial de um título de nobreza. Fê-lo, o Imperador, barão de Bom Consêlho.

Morreu esse preclaro estadista pernambucano, em 1891, ao alvorecer da República. Deve orgulhar-se Pernambuco de seu ilustrado filho. Foi barão de Bom Consêlho, um dos maiores brasileiros, e um dos mais esclarecidos estadistas do velho e derradeiro Império dos Braganças.

Célio Meira – escritor e jornalista. 

LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.

Setembro de 1939 – Célio Meira

Eleições 2026: aberta oficialmente a “temporada da fantasia”….

Oficialmente iniciada no último domingo (16), a campanha para as eleições gerais brasileiras  (2026) deverá, gradativamente, tomar conta das discursões,  nos mais variados espaços, pelos próximos 70 dias – levando-se em conta o processo do 2º turno.

Para o cargo de presidente da república, levando-se em conta às duas últimas eleições (2018/2022), podemos dizer que estamos empobrecidos – na forma e, sobretudo, no  conteúdo. Ninguém aguenta mais o conjunto de besteirol entre Lula e Bolsonaro. Esses dois projetos dividiram o País com pautas que não resolvem a vida de ninguém. Não soma em nada para o que realmente interessa. Infelizmente, seremos intoxicados, mais uma vez, por esses dois  “pesticidas eleitorais”  de péssima qualidade….

Já para o cargo mais elevado do executivo pernambucano, poderíamos dizer que a disputa ganhou status de clássico. Sem chance para uma terceira via vingar, em 2026, João e Raquel estarão  protagonizando uma disputa que promete fortes emoções. Até o momento, no meu modesto entendimento, a eleição continua aberta.

Em  terras antonenses, até o momento, ainda não assistimos qualquer movimento que mereça algum tipo de registro, por parte do conjunto das candidaturas. Isto é: nada de novo.

Há quem diga que por aqui que  haverá muita tensão, isto porque mandatos de grupos consolidados, em função dos arranjos eleitorais partidários,  estão ameaçado enquanto candidaturas, antes vistas sem musculatura, estão demonstrando algum tipo de viabilidade eleitoral.

Portanto, segue o jogo. Aliás, vale lembrar: essa etapa está apenas começando…..

UM MORTO ANDANDO PELA CIDADE – por Sosígenes Bittencourt.

Amanheço morto na cidade. Tomo conhecimento de que morri logo cedo. Sou um morto muito especial, porque posso negar a minha morte, abrir a porta e sair andando, respirando o ar, rever as ruas, os lugares antigos por onde passei quando criança e que o tempo foi modelando, ora para melhor, ora para pior. Posso perceber, agora, que alguns lugares é que morreram. Caminho com um ar importante pelas ruas, porque posso descrever o que desapareceu. O cheiro do Café São Miguel, as meninas do Colégio Municipal, picolé de mangaba, disco de vinil com o retrato de Carlos Gonzaga, sessões dominicais de cinema, com sabor de ping-pong, Rock Lane a cavalo. Sou um morto que pode contemplar o nojo, a paixão e o tédio dos que me rodeiam e me julgam. Tenho direito a mais um dia, um jantar, telefonar para marcar um encontro. Principalmente, ir ao encontro e praticar, meticulosamente, a arte de dar e receber amor, como na milenar receita de Vatsyayana, o Kama Sutra de todo dia. Sinto-me vaidoso de minha morte. Sem esquife, castiçal, lampejo de vela, coro lúgubre de carpideiras e meu derradeiro desfile, horizontal, pela cidade.
Respondo a alguém que me telefona para saber a verdade: Morrer na boca do povo faz mais sucesso do que morrer de verdade. Não é todo dia que se é um morto andando pela cidade.

Sosígenes Bittencourt