
Na cidade pernambucana de Gravatá, situada à margem do Ipojuca, rio sertanejo, nasceu, em 1890, no lar de Inácio e de Maria Francisca de Barros Machado, uma criança do sexo masculino. Recebeu, à pia batismal, o nome de Manuel. E aos 5 anos começou, esse menino travesso, e inteligente, a ouvir as lições se sua genitora, que pertencia, nobremente, magistério púbico. Mãe e professora, Maria Francisca dirigiu, com segurança, os primeiros passos do filho amado, nos caminhos da vida.
Aos 13 ou 14 anos, Manuel, ex-aluno do Ginásio Pernambucano, onde deixou fama de trocista e de vadio, ingressou no seminário de olindense. Ordenou-se, em 1913. Foi D. Luiz de Brito, o grande arcebispo de Olinda e Recife, quem o abençoou, à hora em que ele iniciou sua marcha pelo sacerdócio. Cantada a primeira missa, confiou-lhe, D. Luiz, a paróquia da Ilha de Itamaracá.
E naquela terra cheia de histórias e de lendas, onde enamorado de Sancha Coutinho, viveu Antônio de Albuquerque, que se transformou no padre Aires; onde viu a luz do dia padre Antônio Gomes Pacheco, escritor e poeta; e onde o vigário Peixoto pregou as ideias da República, o jovem padre Machado, de 23 anos de idade, traçou as diretrizes abençoadas do seu apostolado. Oito anos viveu na ilha das mangas doces, ombreando-se com os humildes e socorrendo os pobres e os desgraçados.
Em 1923, assumiu a vigararia de São Pedro Gonsalves do Recife. Não modificou, padre Machado, o plano do combate apostólico, que o assinalara, entre os intimoratos lutadores da ação social, na ilha de Itamaracá. Alargando-o, dando-lhe novos aspectos, aconselhado pela experiência, retocando-o, dia a dia, prosseguiu n batalha, confiante na vitória. As posições destacadas, na alta sociedade, não o seduziram. Não o conquistou, a politica. Partiu, porém, sem perda de tempo, para os arraiais habitados pelas crianças paupérrimas. E foi dizendo, a sorrir, nas suas longas, caminhadas: – Deixai vir a mim as criancinhas! E, os meninos, maltrapilhos, de pão minguado e analfabetos, foram ao encontro daquele padre, bem moreno, de olhos vivos, e risonho, que levara, no coração, e nos lábios, a doçura do mel de abelha.
Fundou, padre Marchado, a Liga Protetora da Infância Desvalida do Recife. E em poucos anos, era gigantesca a obra do missionário. Os meninos tinha roupa, pão e tecto. Aprendiam a ler e a escrever. Encadernavam e fazia móveis. Germinara a semente. Deus a lançara pela mão daquele vigário do Recife.
E marchava, contente, o D. Bosco do Nordeste, à frente das crianças pobres e felizes, quando, no dia 10 de maio de 1932, a morte o arrebatou.
Levou a morte, nesse dia, o padre de coração angélico. Deus o chamou para ocupar a cadeira de santo que ele deixara vazia, desde 1890, há 42 anos, no azul da Eternidade.
Célio Meira – escritor e jornalista.
LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.
Setembro de 1939 – Célio Meira

A fotografia da Ponte de Gaiola lembra-me a Vila dos Ferroviários e o arruado de Dr. Alvinho. Arruado, aqui, não é “à beira da estrada”, mas, à margem do Rio Tapacurá. Das enchentes, dos porcos, das galinhas e vira-latas. Da pobreza, dos panos estendidos no arame e das meninas bonitinhas, cheirosinhas a Seiva de Alfazema. Das moçoilas semivirgens debruçadas nas janelinhas de vaso com flor.


























