DE REPENTE, A RIMA – por Sosígenes Bittencourt.


Contam que, um dia, perguntaram a Louro do Pajeú por que ele bebia, e Dona Helena, a maior beneficiária de sua poesia, nunca reclamava.
Aí, Louro respondeu, em versos, ao atrevimento da pergunta:
Quando chego embriagado,
ainda encontro a porta aberta.
Aí, digo pra Helena:
Pode dormir descoberta.
Hoje, fica zero a zero,
amanhã, a gente acerta.

Sertanejo abraço!

Sosígenes Bittencourt

EU E MEU MENINO NO TEMPO DELE MENINO – por Sosígenes Bittencourt.


Filhos são relógios que temos.
Quanto mais jovens, mais envelhecemos.
O menino: – Pai, estou com medo.
Eu: – Começaste a sentir a dor da alma.
O menino: – O que é alma?
Eu: Para ter alma, não precisa explicação.
O menino: – Pai, eu penso que, quando o senhor era menino, o mundo era preto e branco.
Eu: – Cometeste o teu primeiro poema.
O menino: – Pai, eu estava com saudade.
Eu: – Saudade é um sentimento que não morre quando se mata. É a gente matando saudade e morrendo de saudade.
O menino: – Pai, uma menina me beijou.
Eu: – Cuidado, meu filho, eu ainda não estou na idade de ser avô.

Sosígenes Bittencourt

NO TEMPO DE EU MENINO Ponte de Gaiola – por Sosígenes Bittencourt.

A fotografia da Ponte de Gaiola lembra-me a Vila dos Ferroviários e o arruado de Dr. Alvinho. Arruado, aqui, não é “à beira da estrada”, mas, à margem do Rio Tapacurá. Das enchentes, dos porcos, das galinhas e vira-latas. Da pobreza, dos panos estendidos no arame e das meninas bonitinhas, cheirosinhas a Seiva de Alfazema. Das moçoilas semivirgens debruçadas nas janelinhas de vaso com flor.

Quando menino, eu tinha medo de cair desta ponte; hoje, eu tenho medo de que me empurrem da ponte. Saudade de um tempo de paz. Contava, minha mãe, que atravessou esta ponte, de mãos dadas com meu pai, conduzindo-me a bordo do seu ventre. Sou do tempo em que havia tempo de acompanhar a réstia do sol e contar estrelas. Sou do tempo em que o coral dos grilos executava a sonoplastia das estrelas.

Sosígenes Bittencourt

RECÍFILIS – A Venérea Brasileira – por Sosígenes Bittencourt.

Antigamente, corria a década de 60, nenhum namorado podia manter concurso carnal ou congresso sexual com a namorada.
O namoro era na calçada da casa, 3 vezes por semana, das 19 às 21 horas, empertigados e, impecavelmente, vestidos.
E, não raro, com um irmãozinho pidão, chupando caramelo ao lado.
Quando o pai da donzela arrastava os pés na sala, ou pigarreava, era hora do mancebo se mancar.
Se o adolescente quisesse treinar a cópula, teria de ir à Zona de Baixo Metetrício, fazê-lo com uma mulher da vida fácil.
Quando contraía doença venérea, fuxicava ao pai, para ir à Farmácia, comprar antibiótico.
Porém, quando apanhava chato- um minúsculo inseto – no jardim pubiano – ia comprar mercúrio em pó, ou Detefon, para expulsar o intruso.
Se demorasse, ia lidar com o cricri e o goli-goli, que apareciam pendurados no chato, promovendo uma chateação danada.
Chateado abraço!

Sosígenes Bittencourt

 

INSCRIÇÕES TUMULARES – Sosígenes Bittencourt.


Bebarrão de whisky: Envelhecido em caixão de carvalho.
Médico: Eu sabia que a morte era um caso sem remédio.
Espírita: Volto já!
Ecologista: Entrei em extinção.
Funcionário público: É no túmulo ao lado.
Garanhão: Rígido, como sempre.
Drogado: Enfim, pó.
Hipocondríaco: Eu não disse que estava doente?!
Humorista: Isso não tem a menor graça.
Jangadeiro diabético: Foi doce morrer no mar.
Arqueólogo: Enfim, fóssil.
Judeu: Quem ficou na loja?
Brother: Fui!
Delegado: Circulando! Circulando!
Pessimista: Aposto que está fazendo o maior frio.
Alcoólatra: Enfim, sóbrio.
Internauta: www.aquijaz.com.br
Funerário abraço!

Sosígenes Bittencourt

A MULHER DE DUZENTOS ORGASMOS – por Sosígenes Bittencourt.

Se sua mulher é fria, desanimada pra sexo, aguada, que tal tomar conhecimento da existência da britânica Sarah Karmen?
Aos 24 aninhos, Sarah experimenta, em média, 200 orgasmos por dia.
E não é gozação. Ela pode experimentar uma frescurite genital com o zumbido de um secador de cabelo, o rosto abolachado de um morto ou uma tapa no focinho.
Poder-se-ia dizer que tem o “privilégio” de sofrer da Síndrome da Excitação Sexual Persistente.
Somente durante os 40 minutos de uma entrevista ao jornal News of The World, ela teve 5 orgasmos. E é porque ninguém lhe tocou com um dedo, e o microfone estava apontando para sua boca.
Ela conta que, às vezes, mantém muitas relações sexuais, na tentativa de se acalmar. Como não tem um animal que consiga acompanhar tamanha garanhagem, deve referir-se a um boneco inflável.

Ninfomaníaco abraço!

Sosígenes Bittencourt

ESTUDANDO GRAMÁTICA – por Sosígenes Bittencourt.

Este esclarecimento serve, sobretudo, para os que lidam com a locução e a redação. Locutores, advogados, redatores, professores.
É referente a Maués, que o vitoriense diz DO Maués. Questão Sintática de Regência Verbal.
Ninguém vem DO Maués, nem mora NO Maués. Todavia, vem DE Maués e mora EM Maués.
A palavra caboclinha não admite o artigo O, ela é nua.

(De, ou do Maués?)
Gramatical abraço!

Sosígenes Bittencourt

UM CERTO DOMINGO – por Sosígenes Bittencourt.

Um certo domingo, corria o ano de 2010, eu assistia a uma reprise do Conexão Internacional, quando apareceu o jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony, sendo entrevistado por Roberto D’Ávila.

Engraçado, disse simpatizar os cínicos, desde Sócrates a Machado de Assis e Jean-Paul Sartre. Disse que há uma diferença entre o escritor e o cronista. O escritor vive no fundo do mar, e o cronista, no aquário. O escritor tem de traçar seu caminho para ser notado, o cronista vive na vitrine. E acabou citando uma frase de Rabelais: “Não tenho nada, devo muito, o resto dou pros pobres.”

Ainda vi, neste programa, o físico Marcelo Gleiser dizer que “A terra pode ficar perfeitamente feliz sem a gente, mas a gente não vive sem a terra.”
Dominical abraço!

Sosígenes Bittencourt

SOBRE A BREVIDADE DA VIDA – por Sosígenes Bittencourt.


O ser humano é um animal sem solução. Ele tem sempre a impressão de que há algo de errado consigo mesmo. Sobretudo quando submetido à angústia de que a morte é o horizonte da vida.
Todo ser humano tem um livro escrito na memória que vai folheando, folheando… Às vezes, desprende um aroma. É o passado intrometendo-se na vida da gente, o passado sempre presente. O passado que se alonga, e o futuro que vai se tornando cada vez mais curto.
A brevidade da vida relembra o poeta romano Horácio (65 – 8 a.C.), agoniado com a fugacidade do tempo: Eheu! fugaces labuntur anni!: Ai de nós! os anos correm céleres.
Tudo que nos mantém vivos, nos mata. Sem o oxigênio, morreríamos; por causa do oxigênio, morreremos. Sem colesterol, morreríamos; por causa do colesterol, morreremos. Se não comêssemos, morreríamos; porque comemos, morreremos. Tudo que nos faz viver corrói a vida. Tudo que auxilia na vida, auxilia na morte.
O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) referiu-se ao tempo de vida: Um minuto de vida é idade suficiente para morrer.
Efêmero abraço!

Sosígenes Bittencourt

Augusto do Galeto – por Sosígenes Bittencourt.

Submetido a cirurgia do coração, não resistiu à intervenção. Oriundo de Feira Nova, Augusto do Galeto, veio negociar em Vitória de Santo Antão, sendo muito bem abraçado pela população da terra da heroína Mariana Amália e o escritor Osman Lins.
A vida é feita de tempo e daquilo que fazemos com o tempo que temos. Ademais, morreremos.
Agora, Augusto, és detentor de um segredo só a ti revelado. Um dia, foste como nós somos; um dia, seremos como tu és.
Requiescat in Pace!
Sosígenes Bittencourt