PÉ DE PITANGA – por Sosígenes Bittencourt.

Debruçado sobre o muro aqui de casa, um pé de pitanga vigia a rua. Mulheres que vêm de bairros distantes passam, de braços dados, a admirá-lo.

Êi, Maria, vê quanta pitanga!
As pitangas, suspensas no ar, parecem se balançar de vaidade, olhando para lá e para cá.

Menina, e tem de toda cor!
Alguns pinguços também já as admiraram, lambendo os beiços, ébrios de desejo.
Isso dá um tira-gosto arretado!

Sinto-me contente com tamanha dádiva. A eugenia uniflora, que dá em quintais, empertigada no canto do muro do meu terraço. Sei que a drupa globosa é comum na Mata Atlântica brasileira e na Ilha da Madeira em Portugal. Ao sol vesperal, parecem mimos caídos do céu, esses novelos de cálcio coloridos d’aquém e d’além mar.

Bem sei que alguns a futucam com um pau, no intuito de fazer um ponche, chupar minhas pitangas. Nem por isso vou “chorar as pitangas”, me aperrear, ficar me lamuriando. Aliás, lembra-me a célebre reflexão do revolucionário francês Babeuf: Os frutos da terra pertencem a todos, e a terra, a ninguém.

Sou um homem feliz, porque, em meio à struggle for life (luta pela vida), tenho tempo de parar para observar minhas pitangas e produzir esta crônica.
Mimoso abraço!

Sosígenes Bittencourt

O TEMPLO E O TEMPO – por Sosígenes Bittencourt.

Dá a impressão de que é um dia de Domingo. A igreja está sozinha, imponente, erguida para o alto. Impossível contemplar o templo sem sentir o tempo. Foi por trás desta Domus Dei que fiz o meu Curso Primário. Lembro-me até do meu corte de cabelo, camisa engomada e gravatinha pendurada no pescoço. A professora dava aula de tudo, até de boas maneiras. Qualquer erro era denunciado à genitora, qualquer desvio da cartilha moral era um pecado. Era proibido pensar nas tentações da carne por trás da Igreja. Profa. Luzinete Macedo ensinava o verbo amar, com todo amor do fundo da alma. Era o mais regular dos verbos, o verbo dos verbos, o mais conjugado. Profa. Luzinete Macedo era bonita, bem fardada, impecável. Falava explicado, com ênfase, uma lição de ser humano. Saíamos com sua aula na epiderme, na respiração, embalados pelo seu tom, seu gosto. Cheirávamos as páginas do livro, passávamos a mão na pele das páginas.

Impossível contemplar este templo sem pensar no tempo, sem pensar na vida, no vulto iconográfico de Padre Pita. Impossível não pensar no destino, nos meus idos e vindas de menino. Meu corpo era maneiro, meu sangue fino, desengordurado, desintoxicado, a morte estava longe. Minha infância evolou-se por trás deste templo, para além dos coqueiros, na penumbra da Hora do Ângelus. Ah! minha vida, nossas vidas, nossos templos, na correnteza fugaz do tempo. Lembra-me a palavra desesperada de Horácio, angustiado com a brevidade da vida: Eheu! fugaces labuntur anni! (Ai de nós! os anos passam ligeiro!)
Transitório abraço!

Sosígenes Bittencourt

RELÓGIO RELÍQUIA – por Sosigenes Bittencourt.

Relógio que pulsou, anos a fio, no pulso esquerdo do meu pai, Simônides da Silva Bittencourt, repassado, depois de sua passagem, pela minha genitora e geratriz, professora Damariz. Relógio relíquia, cujo tempo é que diz.

Envelhecido, mas jamais vencido, eis que, de espelho trincado, ponteiro parado, vai a Saulo Relojoeiro.

Ajustado e submetido a polimento, volta a reluzir, à sombra e à luz, o horário do momento.

E o evento ocorre, embalado por discurso de saudade, de pulsar o coração, na avenida
Mariana Amália, em Vitória de Santo Antão.

Pontual abraço!

Sosigenes Bittencourt

FINAL DE SEMANA – por Sosígenes Bittencourt.

Chegou mais um final de semana. Alegremo-nos a nós mesmos. Afinal, a única pessoa que conviverá com você por toda sua vida é você mesmo. Portanto, relembremos a máxima do Rei Salomão: O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido seca até os ossos.
A felicidade não tem hora marcada. Ninguém trabalha durante a semana para ser feliz no domingo. Portanto, não coloque a felicidade fora de si mesmo, a felicidade é agora!
Contudo, se tiveres alguma aflição, relembrai o que o apóstolo João disse que Jesus havia dito: No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.
Cordial abraço!

Sosígenes Bittencourt

ANOITECERES – por Sosígenes Bittencourt.

Anoitece em Vitória. Anoiteço em Vitória. Sou figura noturnal, viajante do ocaso, sonhador como o crepúsculo vespertino, morto de saudade como o final. De olhos vendados, conheço o cheiro dos bairros, dos becos, do meio do mato de minha cidade natal. O cheiro de fumaça, de mingau, de chuva. Sou todo olfato e lembrança. Conheço os trejeitos do meu lugar, os cabelos perfumados, os enxerimentos, o flerte e o gozo. Minha cidade é todinha uma mulher. Chamar-se-ia Vitória das Marias, Maria das Vitórias, tal como é.

Anoitece em Vitória. Anoiteço em Vitória. Saio para passear, impregnado dos prazeres noturnos, das eras do meu tempo, que me viciam e me saciam. Minha cidade muda todo dia, mas não muda o meu sentimento, o fascínio elaborado pela memória, como quem ama o que odeia e odeia o que ama, num jogo de perde e ganha.

Anoitece em Vitória. Sobretudo, anoiteço em Vitória. Enlouqueço em Vitória. Porque ninguém entende o que em nós nem conseguimos explicar. Vitória, meu berço e minha tumba. Minha alma noctívaga vai enredando sua história. O acaso me espreita, a surpresa me seduz, sua bruma, sua luz. Alucinações e desejos, rimas em ‘ina’, adrenalina, serotonina, dopamina. Ah! Vitória, dos meus idos e vindas de menino, minha menina!

Obs: Quando fiz a poesia, o gentílico antonense ainda não havia.

Sosígenes Bittencourt

MARCO AURÉLIO SOBRE A DESONESTIDADE DOS HOMENS – por Sosígenes Bittencourt.

“Se você se surpreende com a existência de homens desonestos, você é um tolo. A desonestidade é uma erva daninha que cresce onde há homens. O milagre é você permanecer reto em meio ao matagal.” – Marco Aurélio

Por isso, reafirmo, ad aeternum: A mulher é um animal melhor do que o homem. Tanto que, quando não presta, é um homem escritinho.

Sosígenes Bittencourt

BRASIL, PAÍS DO FUTURO – por Sosígenes Bittencourt.

Brasil, País do Futuro é um livro, de 1941, do autor austríaco Stefan Zweig, que retrata o Brasil como uma nação promissora e pacífica, apavorado com o nazismo alemão. A decepção foi tão grande que se suicidou com a esposa, um ano depois, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Outrossim, se quebra o cimento do túmulo e anda pela noite, se mata outra vez.

Sosígenes Bittencourt

INVENÇÃO EM TORNO DA MINHA MORTE OU O VERBO MORRER-ME – por Sosígenes Bittencourt.

É tanta invenção em torno da minha morte, que inventei o verbo “Morrer-me”. Verbo que não pode ser conjugado em todas as pessoas.
É assim: tu me morres, ele me morre, vós me morreis, eles me morrem. Por quê? Porque nem eu morro nem ninguém tem coragem de me matar. Então, eu não sou morto, sou morrido.
Bom frisar que morrer de mentira faz mais sucesso do que morrer de verdade, não é todo dia que se é um morto andando pela cidade.
Portanto, todo mundo morre, mas, comigo, é diferente, todo mundo “me morre”.
– Sosígenes, você andou morrendo?
– Não, meu nobre, andaram “me morrendo”.
Ressuscitado abraço!

Sosígenes Bittencourt

PARA O DIA INTERNACIONAL DA MULHER – por Sosígenes Bittencourt.


Dizia Orson Wells que ” Se não fossem as mulheres, o homem ainda estaria acocorado em caverna, comendo carne crua. Nós só construímos a civilização, com a finalidade de impressionar nossas namoradas.”

Eu diria: Se desaparecessem todas as mulheres do mundo,
eu mandaria dar baixa na minha Carteira Profissional,
não iria trabalhar para sustentar um solitário como eu.
Apaixonado abraço!

Sosígenes Bittencourt