FALECIMENTO DE PROFESSORA DAMARIZ (Há um ano) – por Sosígenes Bittencourt

Convivi com minha mãe durante 65 anos, sem jamais haver morado noutro lugar. Onde convivemos sempre foi o nosso lar. O seu falecimento não cabe numa crônica, não se resumiria num compêndio. Por isto, guardei uma oração, a vida inteira, para espelhar o que sinto neste instante: Eu sei que a morte é bem maior do que a vida, mas é preciso entender que o amor é bem maior do que a morte.
A vida é feita de tempo e daquilo que fazemos com o tempo que temos. Ademais, morreremos. Contudo, uma vez vivos no mundo, não tem mais jeito, o jeito que tem é viver.
Agora, minha mãe, amiga e mestra, Damariz Pereira Bittencourt, és detentora de um segredo só a ti revelado. Um dia, fostes como nós somos; um dia, seremos como tu és. E segue-se um mistério profundo, nunca mais retornaremos a este mundo
Até breve! Requiescat in pace!
Sosígenes Bittencourt

PÁTIO DA MATRIZ – por Sosígenes Bittencourt.

Para o meu gosto, minha memória, este é o cartão postal de Vitória de Santo Antão, berço da catolicidade, no tempo de medo de pecado e fé na salvação da alma. Aqui, aprendi a conjugar o verbo Amar, no Presente do Indicativo, no quintal da Domus Dei, recitado pela professora Luzinete Macedo – impecavelmente fardada e explicativa, um alumbramento pedagógico na Escola Paroquial.
Aqui, experimentei meu primeiro frisson, na aurora da puberdade, a cabeça tombada no colo da namorada, para sarjar espinha com a confluência das unhas. Doce japonês, algodão-de-açúcar, cavaquinho, as cocadas de dona Isabel, cachorro-quente, com hífen e carne de boi de verdade.
Aqui, bebi cerveja, quebrando caranguejo a martelo de pau em Festa de Natal. Enfilerei-me nas esquinas das calçadas, para assistir ao desfile dominical das meninas.
Hoje, inventei de nomear A Corriola, sem lenço nem documento, em meio a uma patota de saudosistas sexa-septu-octogenária da Mátria de Mariana Amália.
Sosígenes Bittencourt

NO TEMPO DE EU MENINO – por Sosígenes Bittencourt.


Isso foi no tempo da lancheira. Se levássemos pão com banana e uma garrafinha d’água, o pão era de trigo sem bromato de potássio, a banana sem agrotóxico, e a água, potável. Manteiga Turvo era comida de luxo. Ovo de galinha séria e leite de vaca decente. Nunca mais eu vi um maracujá-açu nem uma laranja-de-umbigo.

Antigamente, um pão com manteiga satisfazia; hoje, come-se um boi, e a barriga vazia.
Havia paz, havia digestão, as horas eram silenciosas, as tardes calmas. e o corpo nutria-se da alma.

A minha memória olfativa pode reproduzir o cheiro dessa lancheira. A lancheira não tinha pilha, não falava nem acendia uma luzinha. Nós é que a iluminávamos com nossa poesia. Isso foi no tempo que menino brincava com o brinquedo, não via o brinquedo brincar.

Sosígenes Bittencourt

COMUNISMO, SOCIALISMO E CAPITALISMO – por Sosígenes Bittencourt.

A diferença entre Comunismo e Socialismo é que Comunismo se escreve com C, e Socialismo se escreve com S. Comunismo e Capitalismo não foram feitos para o povo entender, foram feitos para o povo obedecer. O comunista quer que você compre sua ideia sem contestar opinião, e o capitalista quer que você compre sua mercadoria sem discutir preço.

Sosígenes Bittencourt

SOBRE GALHA PERPETRADA COM MENDIGO – por Sosígenes Bittencourt.


O cineasta norte-americano Andy Warhol disse que, no futuro, toda a gente será famosa durante 15 minutos. Desta vez, foram 3 de uma vez. Mulher flagrada, transando com um mendigo, deve achar seu marido um lixo. Além de receber um chapéu de bode, o enfeitado deveria ser preso por tentativa de homicídio, posto que deu um pau desgraçado no pobre do mendigo.

O personal trainer parecia um treinador de luta livre, mas despreparado para lidar com a “indigníssima” esposa e preconceituoso com morador de rua.
Já existe internauta, carente de sexo e fama, disfarçado de pedinte, empacotado no chão, esperando sua vez. Mas, pobre é uma tristeza. O ator principal da peça, depois do cacete que tomou, ainda corre o risco de ser acusado de estupro. Pior ainda, por motivo de inveja, ser estuprado na masmorra.

No tripé passional, ninguém quis saber de Pandemia, nem Terceira Guerra Mundial, desperdiçados na ingresia imoral. Enfim, difícil saber quem é mais desmiolado dos três: A mulher que é uma sujeira; o mendigo, um trágico sonhador, ou o traído, um doido varrido.

Cauteloso abraço!

Sosígenes Bittencourt

 

CRACOSOFIA – por Sosígenes Bittencourt.

 


*Uma droga nunca foi um BARATO, sai muito caro.
*Quem se alucina para FUGIR da realidade, encontra mais dura realidade.
*BOCA DE FUMO nem boceja, sofre de insônia.
*AVIÃO DE TRÁFICO não aterriza, dá voo rasante e provoca acidente.
*Da maconha para a pedra de crack, é UMA VIAGEM.
*Não é legal punir drogado por TENTATIVA DE SUICÍDIO.
*A Droga é um NEGÓCIO entre uma grande emoção e um longo arrependimento.
Sosígenes Bittencourt

EU E CONJUNTO DE FORRÓ – por Sosígenes Bittencourt.

Palco: Avenida Mariana Amália. Fotógrafo: Robô, o menino de dona Cleonice e finado José Padre. Conjunto de Forró: Improvisado, reunindo sanfona, zabumba e triângulo.
Execução: Pout-pourri de baião, xote e xaxado. Frase de Dr. Aloísio de Melo Xavier “in memoriam”: Comecei a entender, desde menino, o imenso valor da alegria, contrapondo-se aos problemas e às misérias da vida humana.
Palmas e muito obrigado!

Sosígenes Bittencourt

PRIMEIRO ATO – por Sosígenes Bittencourt.

Manhã cedinho, ponho-me a lidar com as palavras. Leio desde quando não sabia ler e escrevo desde quando não sabia escrever. Ver é natural, ler é intelectual. Penso, logo escrevo. Escrevo, logo sou lido. Sou lido, logo existo. Ensinar, para mim, é uma forma de conviver, minha escola é o mundo. Eu não faço poesia de propósito, faço poesia quando a beleza passa. Eu não sou egoísta, por isso conto a poesia pra todo mundo.

Sosígenes Bittencourt

 

DITADURA JURÍDICA – por Sosígenes Bittencourt.

O Supremo Tribunal Federal ensaia uma Ditadura estranha, a Ditadura Jurídica, ou seja, sem Representatividade Eleitoral. Deve ser a primeira no Submundo das Ditaduras. O que poderia sarjar este tumor legisferante seria mesmo um Golpe Militar, com base na preservação da Soberania Nacional, que está sendo solapada sem o aval do povo.

A mecânica é democrática e respaldada no Direito. As Forças Armadas não só defendem a Soberania perante fronteiras, mas também a Soberania intestina, dentro do seu território.

Quem está enxergando desta forma é um humilde brasileiro que nunca defendeu Golpe Militar e que não é interesse das Forças Armadas no atual momento nacional.
Os Militares me parecem portadores de mais juízo do que os juízes do STF.

SOSÍGENES BITTENCOURT

QUADRO DE FRASES – por Sosígenes Bittencourt.

QUADRO DE FRASES

A pobreza é indispensável à riqueza, e a riqueza é necessária à pobreza. Esses dois males engendram-se um ao outro e sustentam-se um ao outro. Portanto, não é preciso melhorar a condição dos pobres, mas acabar com ela.

Anatole France
Escritor francês (1844 – 1924)

(in Revista Fragmentos – Sosígenes Bittencourt)

FALECIMENTO DE OLAVO DE CARVALHO – Sosígenes Bittencourt.

O Brasil perdeu seu maior pensador, e o mundo jamais esquecerá um dos seus maiores profetas. Só nos resta, agora, constatar o que ele profetizou. Aqueles que creem no Apocalipse jamais o esquecerão.

Alguns intelectualóides enxeridos, enamorados de ditadura, confundiam sua lucidez com loucura, o que me exumava o espírito irreverente de Machado de Assis: Toda cidade tem de ter um louco para chamar as pessoas à razão.

O terror é o mundo não encontrar um vivente que dê continuidade a sua obra, fazendo leitura do mundo, como ele o fez. Porque Olavo Luiz Pimentel de Carvalho passou parte de sua vida, dedicada a estudar, para dizer ao mundo o rumo que o mundo não deveria tomar. Como não o escutaram, suas previsões viraram profecias, concretizadas no dia a dia e ainda a se concretizar.

Como bem o disse, ninguém morre tão completamente, fica sempre, do morto, o vivo como sempre foi, na memória da gente. Não obstante, o mundo se acabe para o morto, só lhe restando Jesus.

Até breve, mestre Olavo de Carvalho!
Requiescat in pace!

Sosígenes Bittencourt

NO TEMPO DE EU MENINO – Ponte de Gaiola – Vitória de Santo Antão – PE – por Sosígenes Bittencourt.

A fotografia da Ponte de Gaiola lembra-me a Vila dos Ferroviários e o arruado de Dr. Alvinho. Arruado, aqui, não é “à beira da estrada”, mas “à margem do Rio Tapacurá”. Das enchentes, dos porcos, das galinhas e vira-latas. Da pobreza, dos panos estendidos no arame e das meninas bonitinhas, cheirosinhas a Seiva de Alfazema. Das moçoilas semivirgens debruçadas nas janelinhas de vaso com flor.

Quando menino, eu tinha medo de cair desta ponte; hoje, eu tenho medo de que me empurrem da ponte. Saudade de um tempo de paz. Contava, minha mãe, que atravessou esta ponte, de mãos dadas com meu pai, conduzindo-me a bordo do seu ventre. Sou do tempo em que havia tempo de acompanhar a réstia do sol e contar estrelas. Sou do tempo em que o coral dos grilos executava a sonoplastia das estrelas.

Sosígenes Bittencourt

EU, IMUNIDADE E A CHINA – por Sosígenes Bittencourt.

Eu tive bursite em 2019, COVID-19 em 2020 e Chicungunha em 2021. A Chicungunha ganhou para as outras duas. Porém, não estou sentindo nada mais que mazelas de velhice, o vestibular da morte. Agora, eu não vou passar a vida inteira tomando vacina pra agradar a China. Todo ano é uma Variante nova e uma variedade de “vachina”. Eu sou imunizado por amor de mulher. Vivi debaixo da saia de minha mãe permaneço sob o manto de suas orações. Imunizado abraço!

Sosígenes Bittencourt 

UM POUCO DE OLAVO DE CARVALHO – por Sosígenes Bittencourt.

Olavo de Carvalho não foi para a Faculdade se formar em Filosofia, ele foi ensinar Filosofia, depois que estudou consigo mesmo. Por isso, dado o sucesso do seu autodidatismo, autoproclamou-se filósofo. Quer dizer, alcançou a maturidade e, por isso, foi condenado. Olavo de Carvalho usou a inteligência para alcançar a sabedoria, organizando o saber. Daí, o seu célebre conselho: A condição mais óbvia para o desenvolvimento da inteligência é a organização do saber.
Sosígenes Bittencourt

A palavra é ABUFELADO – por Sosígenes Bittencourt.

No tempo de eu menino, a palavra ABUFELADO significava “irritado”, o que, hoje, chamar-se-ia “arretado”, “puto da vida” etc Porém, a palavra significa “amigado” “vivendo junto”. Ou seja, sem ser casado no civil ou no religioso, sem comunhão de bens ou de males. Exemplos: Fulano está abufelado com Sicrana (amigado). Fulano ficou tão abufelado com Sicrana, que plantou-lhe a mão na fisionomia. (arretado)

Sosígenes Bittencourt

 

A EMBRIAGUEZ NÃO É CULPA DO VINHO – por Sosígenes Bittencourt.

A embriaguez não é culpa do vinho, é culpa do homem. O álcool não é um problema, o álcool é remédio para um problema não diagnosticado. Cada um torna-se alcoólico por motivos pessoais. O mau do álcool é a dosagem. A diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem. Álcool moderado é gari para as coronárias, exagerado é cortejo para caixão. Ninguém deixa de beber por identificação de causa, e, sim, por avaliação de consequência. Por exemplo, ninguém abandona o álcool ao saber que bebe porque perdeu a mulher. Ele abandona o álcool se sentir medo de perdê-la. Ninguém deixa de beber se souber que bebe porque perdeu a perna, ele deixará de beber se temer perder a outra perna. E se ele não deixar de beber por avaliação de consequência, será consequência, entornando álcool para século sem fim, amém!

Sosígenes Bittencourt

 

FALECIMENTO DE SAMIR ABOU HANA – por SOSÍGENES BITTENCOURT.

Samir não era um comunicador que tenha escolhido a profissão, era um profissional que nasceu para se comunicar. Um homem sério à moda antiga, sem afetação, quando ser sério não era uma exceção. Filho de palestino com uma paraense, e dado à luz em Recife, tornou-se um cidadão “cosmopolita”, do nordeste brasileiro, com cosmovisão ou mundividência de galgar ampla audiência em comunicação.

O seu amor ao próximo expressava-se de forma tão simples e espontânea, que logo conquistou audiência e credibilidade suficientes para escalar o pódio da televisão. E, para tanto, contou com o simpático convite de outro pernambucano que nasceu para fazer sucesso, Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha, menino de Surubim, o Velho Guerreiro da distração.

Afetado no coração pelas calamidades das enchentes periódicas da capital pernambucana, recebeu a comenda de Secretário da Cidade – Samir Abou Hana. Samir era versátil, com relativo domínio de todos os assuntos, sabendo entrevistar, expondo seus pontos de vista sem ofender, sem maltratar. Sua polêmica terminava por abrir novo ângulo de visão sobre o tema, enriquecendo a explanação.

O falecimento de Samir deixa um indelével vazio nos sobreviventes de sua geração. Lembra-me o versículo de João, revelando um exemplo, pela palavra, no evangelho de Cristo: “No mundo, tereis aflições, mas tende bom ânimo. Eu venci o mundo”.

SOSÍGENES BITTENCOURT