NO TEMPO DE EU MENINO – Ponte de Gaiola – Vitória de Santo Antão – PE – por Sosígenes Bittencourt.

A fotografia da Ponte de Gaiola lembra-me a Vila dos Ferroviários e o arruado de Dr. Alvinho. Arruado, aqui, não é “à beira da estrada”, mas “à margem do Rio Tapacurá”. Das enchentes, dos porcos, das galinhas e vira-latas. Da pobreza, dos panos estendidos no arame e das meninas bonitinhas, cheirosinhas a Seiva de Alfazema. Das moçoilas semivirgens debruçadas nas janelinhas de vaso com flor.

Quando menino, eu tinha medo de cair desta ponte; hoje, eu tenho medo de que me empurrem da ponte. Saudade de um tempo de paz. Contava, minha mãe, que atravessou esta ponte, de mãos dadas com meu pai, conduzindo-me a bordo do seu ventre. Sou do tempo em que havia tempo de acompanhar a réstia do sol e contar estrelas. Sou do tempo em que o coral dos grilos executava a sonoplastia das estrelas.

Sosígenes Bittencourt

EU, IMUNIDADE E A CHINA – por Sosígenes Bittencourt.

Eu tive bursite em 2019, COVID-19 em 2020 e Chicungunha em 2021. A Chicungunha ganhou para as outras duas. Porém, não estou sentindo nada mais que mazelas de velhice, o vestibular da morte. Agora, eu não vou passar a vida inteira tomando vacina pra agradar a China. Todo ano é uma Variante nova e uma variedade de “vachina”. Eu sou imunizado por amor de mulher. Vivi debaixo da saia de minha mãe permaneço sob o manto de suas orações. Imunizado abraço!

Sosígenes Bittencourt 

UM POUCO DE OLAVO DE CARVALHO – por Sosígenes Bittencourt.

Olavo de Carvalho não foi para a Faculdade se formar em Filosofia, ele foi ensinar Filosofia, depois que estudou consigo mesmo. Por isso, dado o sucesso do seu autodidatismo, autoproclamou-se filósofo. Quer dizer, alcançou a maturidade e, por isso, foi condenado. Olavo de Carvalho usou a inteligência para alcançar a sabedoria, organizando o saber. Daí, o seu célebre conselho: A condição mais óbvia para o desenvolvimento da inteligência é a organização do saber.
Sosígenes Bittencourt

A palavra é ABUFELADO – por Sosígenes Bittencourt.

No tempo de eu menino, a palavra ABUFELADO significava “irritado”, o que, hoje, chamar-se-ia “arretado”, “puto da vida” etc Porém, a palavra significa “amigado” “vivendo junto”. Ou seja, sem ser casado no civil ou no religioso, sem comunhão de bens ou de males. Exemplos: Fulano está abufelado com Sicrana (amigado). Fulano ficou tão abufelado com Sicrana, que plantou-lhe a mão na fisionomia. (arretado)

Sosígenes Bittencourt

 

A EMBRIAGUEZ NÃO É CULPA DO VINHO – por Sosígenes Bittencourt.

A embriaguez não é culpa do vinho, é culpa do homem. O álcool não é um problema, o álcool é remédio para um problema não diagnosticado. Cada um torna-se alcoólico por motivos pessoais. O mau do álcool é a dosagem. A diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem. Álcool moderado é gari para as coronárias, exagerado é cortejo para caixão. Ninguém deixa de beber por identificação de causa, e, sim, por avaliação de consequência. Por exemplo, ninguém abandona o álcool ao saber que bebe porque perdeu a mulher. Ele abandona o álcool se sentir medo de perdê-la. Ninguém deixa de beber se souber que bebe porque perdeu a perna, ele deixará de beber se temer perder a outra perna. E se ele não deixar de beber por avaliação de consequência, será consequência, entornando álcool para século sem fim, amém!

Sosígenes Bittencourt

 

FALECIMENTO DE SAMIR ABOU HANA – por SOSÍGENES BITTENCOURT.

Samir não era um comunicador que tenha escolhido a profissão, era um profissional que nasceu para se comunicar. Um homem sério à moda antiga, sem afetação, quando ser sério não era uma exceção. Filho de palestino com uma paraense, e dado à luz em Recife, tornou-se um cidadão “cosmopolita”, do nordeste brasileiro, com cosmovisão ou mundividência de galgar ampla audiência em comunicação.

O seu amor ao próximo expressava-se de forma tão simples e espontânea, que logo conquistou audiência e credibilidade suficientes para escalar o pódio da televisão. E, para tanto, contou com o simpático convite de outro pernambucano que nasceu para fazer sucesso, Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha, menino de Surubim, o Velho Guerreiro da distração.

Afetado no coração pelas calamidades das enchentes periódicas da capital pernambucana, recebeu a comenda de Secretário da Cidade – Samir Abou Hana. Samir era versátil, com relativo domínio de todos os assuntos, sabendo entrevistar, expondo seus pontos de vista sem ofender, sem maltratar. Sua polêmica terminava por abrir novo ângulo de visão sobre o tema, enriquecendo a explanação.

O falecimento de Samir deixa um indelével vazio nos sobreviventes de sua geração. Lembra-me o versículo de João, revelando um exemplo, pela palavra, no evangelho de Cristo: “No mundo, tereis aflições, mas tende bom ânimo. Eu venci o mundo”.

SOSÍGENES BITTENCOURT

A CASA DE MINHA AVÓ – por Sosígenes Bittencourt.

Quando os estrangeiros foram morar
na casa de minha avó
roubaram-lhe os ares de eternidade.

E a casa de minha avó ficou sendo
uma casa comum no quarteirão.

Os estrangeiros nem sabiam pisar
no chão que minha avó
a vida inteira lustrou de pinho.

Os estrangeiros falavam alto
entre as paredes
que minha avó bafejou de calma.

Hoje, a casa de minha avó
é apenas um biscuit na memória.

Sosígenes Bittencourt

Vovó Celina residiu à Rua Melo Verçosa, nº 314, apelidada de Rua do Colégio das Freiras, em Vitória de Santo Antão. Minha avó era de uma singeleza singular, tomava banho, penteava os cabelos, borrifava perfume, entonada em vestido bom, para ouvir o jogo do Sport Club do Recife pelo Rádio. Foi em sua casa que inalei o cheiro das árvores do atual Colégio das Damas no tempo do lago dos cisnes. Daqui para além da morte, não sei se será permitido conduzir esta lembrança.

PRIMEIRO ATO – por Sosígenes Bittencourt.

Manhã cedinho, ponho-me a lidar com as palavras. Leio desde quando não sabia ler e escrevo desde quando não sabia escrever. Ver é natural, ler é intelectual. Penso, logo escrevo. Escrevo, logo sou lido. Sou lido, logo existo. Ensinar, para mim, é uma forma de conviver, minha escola é o mundo. Eu não faço poesia de propósito, faço poesia quando a beleza passa. Eu não sou egoísta, por isso conto a poesia pra todo mundo.

Sosígenes Bittencourt

ESTUDANDO PORTUGUÊS – Estrato e Extrato – por Sosígenes Bittencourt.

Não confunda Estrato com Extrato. O estrato com “s” quer dizer camada, e o extrato com “x” tem a ver com extraído. Por exemplo, quando o caminhão de extrato de tomate capotou na pista, a camada de pobres da periferia correu para saquear. Ou seja, o caminhão carregava caldo extraído de tomate, e o estrato social foi aproveitá-lo para temperar macarrão. Portanto, extrato de tomate pode referir-se a comida de rico, e estrato social pode referir-se a desespero de pobre, tão incompatíveis, como o extrato bancário de um endinheirado de Classe Alta e o extrato bancário de um endividado de Classe Baixa.

Sosígenes Bittencourt

NA SERRA DAS RUSSAS – por Sosígenes Bittencourt.

Momento de louvor e oração, na Serra das Russas, perante a imagem de Nossa Senhora das Graças, Eu, Manoel Carlos e Sidarta Melo, onde oramos por nós e nossos falecidos, fazendo ecoar, à brisa refrigerante da montanha, a Ave Maria, em francês, conforme aprendi no Colégio Municipal 3 de Agosto, na condição de aluno, sob o comando do bacharel Mário Bezerra da Silva, e recitei no Colégio Nossa Senhora das Graças, na função de professor, sob a regência maestrina de Dalka Pitanga de Mesquita, a religiosa Madre Tarcísia.

JE VOUS SALUE, MARIE

Je vous salue, Marie pleine de grâce,
le Seigneur est avec toi,
Tu es bénie entre toutes les femmes et, Jésus,
le fruit de tes entrailles, est béni.
Sainte Marie, Mère de Dieu, prie pour nous, pauvres pécheurs,
maintenant et à l’heure de notre mort,
Ainsi soit-il.

Sosígenes Bittencourt

SOBRE A BREVIDADE DA VIDA – por Sosígenes Bittencourt

O ser humano é um animal sem solução. Ele tem sempre a impressão de que há algo de errado consigo mesmo. Sobretudo quando submetido à angústia de que a morte é o horizonte da vida.

Todo ser humano tem um livro escrito na memória que vai folheando, folheando… Às vezes, desprende um aroma. É o passado intrometendo-se na vida da gente, o passado sempre presente. O passado que se alonga, e o futuro que vai se tornando cada vez mais curto.

A brevidade da vida relembra o poeta romano Horácio (65 – 8 a.C.), agoniado com a fugacidade do tempo: Eheu! fugaces labuntur anni!: Ai de nós! os anos correm céleres.
Tudo que nos mantém vivos, nos mata. Sem o oxigênio, morreríamos; por causa do oxigênio, morreremos. Sem colesterol, morreríamos; por causa do colesterol, morreremos. Se não comêssemos, morreríamos; porque comemos, morreremos. Tudo que nos faz viver corrói a vida. Tudo que auxilia na vida, auxilia na morte.

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) referiu-se ao tempo de vida: Um minuto de vida é idade suficiente para morrer.
Efêmero abraço!

Sosígenes Bittencourt

 

SÃO PEDRO – por Sosigenes Bittencourt.

São Pedro, segundo a tradição, teria morrido em cerca de 67 d.C., e foi um dos doze Apóstolos de Jesus.

O seu nome original não era Pedro, mas Simão. Cristo apelidou-o de Petros – Pedro, nome grego, masculino, derivado da palavra “petra”, que significa “pedra” ou “rocha”.

Jesus ter-lhe-ia dito: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e o poder da morte não poderá mais vencê-la.

Pedro tem uma importância central na teologia católico-romana. É considerado o príncipe dos apóstolos e o fundador, junto com São Paulo, da Igreja de Roma (a Santa Sé), sendo-lhe reconhecido ainda o título de primeiro Papa.

PAPA quer dizer: Pedro Apóstolo, Príncipe dos Apóstolos.

Sosigenes Bittencourt

FALECIMENTO DE PROFESSORA DAMARIZ – por Sosígenes Bittencourt.

Convivi com minha mãe durante 65 anos, sem jamais haver morado noutro lugar. Onde convivemos sempre foi o nosso lar. O seu falecimento não cabe numa crônica, não se resumiria num compêndio. Por isto, guardei uma oração, a vida inteira, para espelhar o que sinto neste instante:

Eu sei que a morte é bem maior do que a vida, mas é preciso entender que o amor é bem maior do que a morte. A vida é feita de tempo e daquilo que fazemos com o tempo que temos. Ademais, morreremos. Contudo, uma vez vivos no mundo, não tem mais jeito, o jeito que tem é viver.

Agora, minha mãe, amiga e mestra, Damariz Pereira Bittencourt, és detentora de um segredo só a ti revelado. Um dia, fostes como nós somos; um dia, seremos como tu és. E segue-se um mistério profundo, nunca mais retornaremos a este mundo.

Até breve! Requiescat in pace!

Sosígenes Bittencourt

FALECIMENTO DE ROCHINHA DA FARMÁCIA – por Sosígenes Bittencourt.

 

Há pessoas que nasceram para morrer. Rochinha da Farmácia nasceu para viver. E foi fácil ter vivido 99 primaveras. Eulâmpio Valois da Rocha era um homem do seu tempo todo tempo. Não sofreu o impacto das mudanças, do choque de gerações. Simples, simpático e sério, com afeto e sem afetação, passou-nos a impressão de que ser feliz é simples como viver; difícil é procurar felicidade.

A vida é feita de tempo e daquilo que fazemos com o tempo que temos. Ademais, morreremos. Contudo, uma vez vivos no mundo, não tem mais jeito, o jeito que tem é viver. Agora, amigo Rochinha, és detentor de um segredo só a ti revelado. Um dia, fostes como nós somos; um dia, seremos como tu és. E segue-se um mistério profundo, nunca mais retornaremos a este mundo.

Até breve! Requiescat in pace!

Sosígenes Bittencourt

RESENHA ESPORTIVA – por Sosígenes Bittencourt.

(Náutico Campeão Pernambucano de 2021)

Eu procuro ser um torcedor decente. Eu acho que o torcedor deve comemorar a vitória do seu time e não a derrota do seu adversário. Quer dizer, o vencedor deve ter humildade, e o perdedor, dignidade. Fosse assim, não haveria tanta barbárie nas praças de guerra em que se transformam os estádios de futebol, com derramamentos de sangue e morte. Eu não sei por que até os boxeadores se abraçam, de cara quebrada, e torcedores de futebol querem se matar.

O Náutico fez um campeonato para ser campeão, com o mérito da aplicação, da entrega, da disciplina tática e do entrosamento. Parecia até uma equipe formada por “fanáuticos” torcedores do Timbu Coroado.

Ora, se no afunilar do campeonato, o Sport Club do Recife resolveu jogar futebol, o que não fez durante o certame, isto valorizou, com todos os méritos, o vitorioso Leão da Praça da Bandeira, o mais glorioso competidor do futebol pernambucano, o brilhante e feroz animal da ilha do Retiro. E, se o VAR errou, que VAR para o raio que o parta. Não é um caso de polícia nem o juiz da contenda merece ser assassinado. Logo, como leonino ético e digno, que preserva muitas amizades que abraçam o alvirrubro dos Aflitos, quero parabenizá-los pelo que fizeram durante o campeonato e me convidar para o churrasco, regado a loirinha suada em qualquer ambiente sadio da cidade. A vida passa, as glórias e as derrotas também. Portanto, vivamos com Fé, Esperança e Caridade, como nos ensina a Teologia Teologal, a ciência de Deus.

Palmas e muito obrigado!

Sosígenes Bittencourt

P A N O R A M A – por Sosígenes Bittencourt.

Observem o que revelou Dr. Aloísio de Melo Xavier, no seu belo e bom Panorama, presente que recebi em 05 de abril de 1994, com muita honra, das mãos da profa. Severina Andrade de Moura.

“Nasci um sujeito alegre, felizmente. Em menino, pratiquei muitas peraltices e brincadeiras, graças à minha natural inquietude, que não me dava tréguas. Comecei a entender, desde então, o imenso valor da alegria, contrapondo-se aos problemas e às misérias da vida humana. Cedo, portanto, alcancei a profunda significação que o bom humor oferece-nos durante a nossa fugaz estada neste vale de lágrimas.”

Aloísio de Melo Xavier
Palmas e muito obrigado.

Sosígenes Bittencourt

MÊS DE MAIO – NO TEMPO DE EU MENINO – por Sosígenes Bittencourt.

(Vitória de Santo Antão – PE)

O mês de Maio sempre foi um mês dedicado à mulher. Mês de Maria, de se celebrar o namoro e o noivado, místico período entre os prazeres da carne e o sacrifício do espírito, o desregramento e a temperança, a fornicação e a castidade. Mês de se respeitar a mãe e desobedecer-lhe.

Recebido com ovação, o Papa veio condenar tudo que é vontade do corpo e seduz o cérebro. Lembra-me O Êxtase de Santa Teresa D’Ávila, trespassada pela seta de um anjo, magnificamente burilada por Bernini, no século XVI.

Quem danado aguentava, em Vitória de Santo Antão, embora calma, sem os agitos nem a desobediência reinante de hoje, controlar-se, com a popularização da minissaia? De repente, quando não se podia ver um tornozelo, lá estavam os joelhos das meninas do Colégio Municipal e do Colégio das Freiras à mostra. Naquele tempo, o desejo vinha embalado pelas músicas de Roberto Carlos, Renato e seus Blue Caps e The Fevers, o que emoldurava o apetite com uma vaga sensação de amor.

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, porque a Medicina ainda não mapeara o cérebro e a endocrinologia cabia em algumas folhas de caderno. Mas, só Deus sabe o quanto a enxurrada de hormônios fustigava a pele da adolescência de tanta emoção. Os namoros eram na calçada, fiscalizados, com hora marcada. Cinema, só com acompanhante, geralmente um irmãozinho bobo, comedor de bombom, mas fuxiqueiro, cujo perigo residia em contrariá-lo. Os cinemas eram o calorento Cine Braga e o inesquecível Cine Iracema, espaçoso, onde se podia procurar um lugar mais reservado para beijar.

Todo mundo ficava tomado, neste mês de maio, de uma expectativa de noivado, casamento e maternidade. Festejava-se a mãe, a namorada e se fazia plano para o futuro. Chegávamos a imaginar como seriam nossos filhos. Se pareceria com a mãe ou seria uma escultórica mistura dos olhos de um com o nariz do outro.

Eita, mundo velho!

Sosígenes Bittencourt

DE REPENTE, A RIMA – por Sosígenes Bittencourt.

A dor e a força

A força que a gente tem,
É algo que não se explica
A gente se faz de bonita
Pra clarear os olhos teus.

A força que a gente tem
Dá cor na tela do tempo
Acalma todo tormento
Que a vida nos sucedeu.

A força que a gente ganha
Com as dores entre as entranhas
Morre no tempo a criança
Que um dia na gente viveu.

Maria Fulô

(Revista Fragmentos – Sosígenes Bittencourt)

LEMBRANÇA DE AUGUSTO CÉSAR – por Sosígenes Bittencourt.

Um dia, ia haver uma “happy hour” na calçada da Rede Ferroviária em frente à Praça Leão Coroado. Se não me falha a memória, a invenção era de Eraldo Boy, que deu cantada para Augusto César vir cantar.

Aí, telefonei para finada Geane fazer cabelo e unhas, intimando-a para dançar. Mais tarde, peguei meu carro, escalei a Vila Mário Bezerra e carreguei a boneca para a festa. Era cedo, a Pizzaria Chaplin, de Selma de Tracunhaém, ainda cheirava a orégano e calabresa do outro lado da praça. Até o Leão Coroado parecia esperar.

Lá pra mais tarde, no interior do prédio da Rede, as luzes acenderam, e Augusto César saiu para cantar. O peito inflado, o cabelo afarofado, largou o vozeirão em cima da plateia. Ergui-me da cadeira, passei a mão na cintura de Geane – moreninha, olhos amendoados, risonha e saltitante – e nos danamos a fazer corrupio entre os canteiros.

Estava instalada a alegria da boemia, o lado dionisíaco da vida, fustigando a inspiração popular: o que se leva da vida é a vida que se leva. Se um dia, nos corredores do infinito, eu vir Augusto, rogo-lhe que cante, que vou procurar a pequena Geane para dançar.

Por enquanto, só lembranças, doces recordações e um desejo a mais: Descansa em Paz!

Sosígenes Bittencourt

FALECIMENTO DE GENA – por Sosígenes Bittencourt.

Gena, popularmente conhecido como Gena da Cascatinha, era filho de Pedro peixeiro e muito amigo do finado Jamerson, funcionário do Hospital João Murilo de Oliveira. Há duas coisas incompreensíveis na vida: nascer sem pedir e morrer sem querer. A vida é feita de tempo e daquilo que fazemos com o tempo que temos. Contudo, uma vez vivos no mundo, não tem mais jeito, o jeito que tem é viver. Agora, amigo Gena, és detentor de um segredo só a ti revelado. Um dia, fostes como nós somos; um dia, seremos como tu és. E segue-se um mistério profundo, nunca mais retornaremos a este mundo.

Até breve! Requiescat in pace!

Sosígenes Bittencourt.