Os nossos jardins – José Aragão – 1946.

Nada concorre mais para o embelezamento de uma cidade do que os jardins públicos, os parques e a arborização.

Emprestam eles ao aspecto monótono das construções cores variadas, formando contrastes interessantes com a aridez das nossas artérias, constituídas, em grande parte, de prédios de arquitetura rudimentar e pobre, sem maior beleza.

O jardim é um oásis artificial em pleno centro urbano, recanto ameno cuja paisagem alegre e poética satisfaz ao espírito cansado do labor quotidiano, valendo como refrigério e lenitivo.

Por isso é que as praças ajardinadas são o ponto preferido pela população, nos momentos de folga, para descanso e passeio.

Temos, apenas, três praças com jardins e canteirinhos: a do Leão Coroado, a Diogo Braga e a Dom Luiz de Brito, mais conhecida como Praça da Matriz. Dessas, apenas o jardim da última apresenta aspecto agradável, muito embora sem flores, que são o mais belo ornamento, não porque não as produza, mas porque são colhidas tão logo desabrocham, o que é para lamentar. O jardim da Praça Leão Coroado, que já oferece aspecto bem interessante, e os canteirinhos da Pracinha do Braga estão em decadência, à míngua de cuidados.

Queremos crer que o ilustre Chefe do Executivo Municipal, tão zeloso do bem público e do progresso da cidade, voltará em breve as suas vistas para esses logradouros e os entregará a mãos zelosas e hábeis, que poderão transformá-los rapidamente.

Não nos falta água para a conservação dos nossos jardins. Faltam jardineiros.

Decerto, não tardarão eles a aparecer por determinação do governo municipal.

José Aragão
Editorial do Jornal O Vitoriense de 02 de Fevereiro de 1946.

Simplício de Holanda – por José Miranda, jornal O Lidador, 3 de novembro de 1956, editado por Walmar Andrade.

Ninguém na Vitória de Santo Antão da velha guarda desconhece a expressão que teve na vida política da cidade, no Império e na primeira República, os Holanda Cavalcanti.
Família de tradição não só socialmente e não só na esfera da cultura, como também na política. Dela saíram expoentes literários e artísticos, algumas das quais em registros imortais na história da nossa cultura.
Poetas como Olinda Cavalcanti e Agostinho de Holanda. Martha de Holanda, sem deixar rimas, sem nunca ter feito um verso nem mesmo nas suas mais afetivas elocubrações de namorada. Todos conhecemo-la, na sua vida intelectual, autêntica poetisa, pela melodia e ritmo das produções de letras.
Família de tradição na cultura e na política também.
O antigo regime não passou sem o concurso dos Holanta Cavalcanti nos partidos Conservador e Liberal, dois que eram apenas. Atuavam tanto nos pleitos, eleições de vida ou morte como se diz à boca das urnas, quanto nos cargos públicos a cujos desempenhos lhes confiavam os governantes.
Contam-se, ainda com pesar, os tristes acontecimentos eleitorais. Não só da Hecatombe do Rosário, página das mais lúgubres e vergonhas dos anais políticos de Vitória, mas também da eleição para o primeiro prefeito republicano, em que eram candidatos José Xavier de Morais e José de Barros de Andrade Lima. O primeiro vindo das hostes conservadoras e o segundo, do Partido Liberal.
Há nessa história, que cada vitoriense daquele tempo conta a seu bel prazer e lhe dá as tintas de acordo com o seu modo de ver, um bocado de influência de um Holanda Cavalcanti [Alexandre José Maria de Holanda Cavalcanti, avô de Simplício, eleito subprefeito de José de Barros de Andrade Lima em 1892]. Influência orientada, naturalmente, pelo interesse de ser útil à terra, dotando-a do governo que a achava merecer.
A Revolução Dantista, que se operou em Pernambuco em fins de 1911, encontrou a família Holanda Cavalcanti coesa em torno do seu chefe e amigo aqui no município, Antônio de Melo Verçosa [marido de Emiliana de Holanda Leite]. Nenhum deixara o seu posto de honra nas fileiras do marretismo.
Nestor de Holanda [subprefeito de Vitória em 1903] era, nesse tempo, membro da família atuante na vida partidária local. Uma espécie de ponto de apoio. Bem relacionado de maneiras agradáveis, sugestivas, dando-se com todos. Fazia da sua Farmácia Popular um centro de reunião onde se encontravam desapaixonados políticos dessa e daquela facção, desse e daquele lado.
Se Antônio de Melo Verçosa tinha, ali na calçada da farmácia, o tabuleiro de gamão sobre os joelhos, pelas tardes dos dias úteis, não menos acontecia com José de Barros de Andrade Lima.
Enquanto Antônio de Melo Verçosa jogava gamão com Nestor de Holanda ou com qualquer outro político ou comerciante, aperuava (como se costumava dizer) de lado, fumando o seu charutinho, dizendo as suas piadas, as suas humoradas, Simplício de Holanda.
Eu o conheci de perto em 1920. Tinha uma loja na rua do Barateiro, uma loja de fazendas, imprensada entre as oficinas e a redação de O Lidador e o Armazém do Anjo, uma casa de secos e molhados.
Os sábados não lhe pertenciam: os fregueses tomavam-lhe todas as atenções. Nem mesmo a Quintino de Itamatamirim, seu amigo e parente, e com quem fazia política, podia prestar a atenção devida.
Aos domingos, ia à feira de Pombos, onde mascateava. Nos dias úteis, enquanto arrumava as prateleiras, dispunha as amostras e despachava algum freguês que aparecia, fazia política.
O velho comerciante do Barateiro discutia, e com que autoridade!, tanto em rodas na porta de Onofre Teixeira ou Luiz Porto, quanto na porta de Antonio de Mello Verçosa.
Quantas vezes vi-o atravessar a rua da sua loja para a rua da loja Relógio Grande, de seu pai Vicente Maria de Hollanda Cavalcanti, com a boca cheia d’água, de bochechas coculadas.
Era que não lhe convinha falar no momento. Conversador como ele, cheio de conhecimentos das coisas como ninguém, só a boca cheia d’água o salvava das interpelações, dos bisbilhotismos por onde ia passando.
Vitória tem atravessado uma boa porção de crises políticas na república, entre os quais se destaca a de 1926, quando no governo do Estado estava o nosso conterrâneo de saudosa memória José Rufino Bezerra Cavalcanti [Governador de Pernambuco de 1919 a 1923].
No crédito que ao marretismo abriu o governo Manuel Borba, abrindo com o dantismo, quantos dos fiéis à oposição, cansados ou desencantados – os Sebastianistas desagregavam-se da sua resistência de crenças, de esperanças, andavam fora dos apriscos primitivos, ou de princípios!
No pleito municipal de então, o governador José Rufino Bezerra Cavalcanti não se inclinava a reconhecer o direito do legitimamente eleito. A questão do veredito das urnas fez não só retornar tudo aos seu lugares, como acender, como nunca, os morrões.
Não é possível se ir mais longe, em embirras, em perseguições, em hostilidades.
A cidade passou seis ou sete meses sem iluminação, sem limpeza pública, sem nada. Como sem pagar impostos e nem nada receber o funcionalismo, uma vez que os cofres estavam vazios. Viveu Vitória meio ano à toa.
Dois partidos. Um do governo, do manda quem pode. Outro, o da oposição. E a luta persistia. Com a oposição estava a razão, o direito. Com o poder, a força. E nunca o direito submeter-se-ia à força ante a terra ainda independente, ciosa dessa sua qualidade ante o direito de força.
Um terceiro partido fora criado. E teria ele a virtude de intermediário, de superar as dificuldades de um acordo, ou mesmo de se antepor sobre todos os outros.
Coube a Simplício de Holanda Cavalcanti as bases, os alicerces e vigas mestras do edifício político. Quintino, como vários outros que constituíam uma espécie de dissidência do verçosismo, constituíam o estado maior.
Os arautos da nova entidade rumavam, um dia, ao solar do Governador José Rufino Bezerra Cavalcanti. O governador recebe-os no seu velho bom humor e escuta todos com atenção, senhor das atualidades político-partidárias da terra onde nascera e senhor das manhas dos homens e das coisas.
Caboclo da aldeia, o honrado Governador do Estado, pilheriando, pôs no partido o nome de Retame. Ou batizou-o, já que o partido ainda não tinha ido verdadeiramente à pia para a água benta e os santos óleos.
Retame é no banguê o resíduo ou a borra do açúcar, ou ainda o açúcar de qualidade inferior. Para o novo partido, na sua crítica, nome mais adequado encontrava o experimentado agricultor e político que governava o Estado.
E o Remate, o açúcar melaço, não suporta a umidade. Estava a nova organização político-partidária destinada a desaparecer nas primeiras manifestações do inverno da indiferença.
Fora partido de banguê – parece que o governador vira isso. E daí o nome com que o batizara, ou então tomara-o como restos de outros.
Simplício de Holanda, longe de se molestar, ria-se a bom rir, tanto com o batismo do partido, como pelas humoradas, alegres, do velho conterrâneo, estadista de renome que era!
A Revolução de Trinta não o encontrou mais [Simplício faleceu em 16 de julho de 1926, aos 46 anos, dois anos após a morte de sua esposa Elvira]. A morte arrebatou-o bastante cedo, quando muito esperava, ainda, de sua inteligência, de sua atividade, de sua sabedoria política de homem do interior. A sua Vitória!
Além de comerciante e político, fora jornalista. Na direção de O Lidador esteve dois anos e meses, de 1924 a 1926.
Político na ampla acepção do termo, Simplício de Holanda não deixou substituto ou até agora não teve ainda [os dois filhos, Lamartine e Antão, tinham 16 e 14 anos quando ficaram órfãos de pai e mãe]. Da política de aldeia conhecia-lhe as manhas e artimanhas.]
Edição: Walmar Andrade. 

Alcoólicos Anônimos da Vitória – um breve relato…

“A primeira mulher a fazer parte do AA em Vitória foi Noêmia Barnabé como participante honorífica. Foi entitulado madrinha do AA. Ela não era alcoolista mas pediu para fazer parte dessa associação para ajudar os dependentes químicos e muito o fez . Sua participação dentro do AA foi bastante frutífera com vários depoimentos . Atuando por mais de 25 anos”

Marie Cavalcanti. 

Curiosidades Vitorienses: Código de Posturas (1897).

Dando continuidade a coluna de curiosidades vitorienses, publicaremos trechos do CÓDIGO DE POSTURAS do município da Vitória, datado de 1897. Os trechos foram retirados do volume 07 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Vitória, editada em 1977. São muitas curiosidades que valem a pena serem disponibilizadas pelo blog.

Tempo Voa Documento: Um dos maiores times que já existiu em Vitória, o Sport – por Joel Neto.

Pilako,  esse é um dos maiores times que já existiu em Vitória.  O  Sport, praticamente,  não disputava campeonatos locais e sim formado pelos melhores jogadores da cidade, para enfrentar equipes de fora.  Seu grande presidente foi José da Costa que teve seu nome homenageado pelos desportistas vitorienses colocando seu nome no Campo do Dique,  que passou a ser chamado Estádio José da Costa, onde hoje se realiza o campeonato amador local.

Alguns jogadores desta foto são conhecidos,  outros não.  Citarei aqueles que conheço: de pé,  da esquerda para direita,  o terceiro é Fernando de Marron, Miro Caboclo, Gilson Lemos e Ruitá.  Agachados:   só conheço o segundo que os amantes do futebol da época,  diziam  ser o melhor goleiro que já existiu em Vitória.

Abraços,

Joel Neto

…e o São João era assim… – Por Alfredo Sotero (em 1947)

Quando o Brasil era brasileiro e não havia comunistas, nem as moças solteiras sabiam as coisas que sabem hoje, o São João era tão lindo!

De manhã, os bacamartes estrondejavam defronte da igrejinha, nas perigosas viradas do cocho; e os meninos acordavam assustados, querendo saltar da cama de camisola arrastando, para verem como se acordava São João, que a lenda suave dizia que estava dormindo sem parar, no silêncio do céu.

De noite, depois de cear pamonha de côco, canjica, milho verde assado, milho verde cozido, bolos sem conta, a gente ia acender a fogueira votiva que ardia estrelejando o espaço com milhões de trêmulas centelhas. E ia ver no espelho ou na bacia com água, à luz fugaz, às próprias faces, para saber se para o ano ainda estava vivo. E a Maroquinhas, a moça nervosa, espiava e não via, por mais que fizesse, e saía chorando pela casa, a dizer a todos que no ano seguinte já não era deste mundo.

E os “mosquitos” passando pelos pés da gente, as meninas correndo e chorando, para as queixas sem fim às mamãezinhas, contra os meninos desesperados, que só queriam jogar nelas os “diabinhos”…

E o Sebastião, um moleque escanzelado e fedorento, que tinha fé em São João, mas muito em Nosso Senhor Jesus Cristo, e espalhava as brasas da fogueira, que parecia então uma enorme melancia de fogo e madura, aberta, sobre cujas as brasas o moleque danado passava, indo e vindo, como se pisasse flores, mostrando a força da fé…

E os rapazes da vila, depois que as devotas voltavam do terço, para se mostrarem às namoradas, acendiam os buscapés, que abriam na noite as faixas fulgurantes, como línguas de prata líquida, que, soltos no ar negro e calmo, cabriolavam, tombando depois sobre a terra, numa agonia luminosa, estertorante, envoltos num sudário de luz irisada e diáfana, como uma aurora sidérea, nas desoladas regiões polares.

Tudo passou. Calaram-se os bacamartes que os doutores desbrasileirados sepultaram nos báratros do oceano. Tudo se foi. Somente a saudade no coração da gente que ainda vive, vinda daqueles tempos felizes, ainda chorando na estrada do tempo. E quando todos morrerem tudo será silêncio, que é o tumulo branco das recordações extintas.

Alfredo Sotero de Farias, foi natural de Apoti, (Glória do Goitá), diplomado em Farmácia e Química, exerceu sua profissão em Laboratórios. Freqüentando, desde a adolescência, esta cidade e possuindo acentuado pendor para as letras, colaborou na imprensa local e na interiorana, passando a ser assíduo colaborador do Jornal do Commércio, do Recife. Foi um dos fundadores da “Academia de Letras dos Supersticiosos”, com Samuel Campelo, Célio Meira, José Miranda e outros. Em dezembro de 1915, adquiriu e instalou a Rua Barão de Rio Branco nº 22 uma tipografia (Tipografia Gutemberg), que depois vendeu a Célio Meira, na qual foi impresso o bi-semanário “A Coluna” (1916 – 1919), um dos mais bem elaborados jornais do interior. Faleceu em 1981.

Venceu Vitória de Santo Antão – por José Maria Aragão.

Não sei se os vitorienses mais jovens sabem a origem do nome “Vitória de Santo Antão”. No governo discricionário de Getúlio Vargas (1937/1945), foram dissolvidos o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais; todos os governadores eleitos foram substituídos por interventores federais que nomeavam os prefeitos dos Municípios.

No início dos anos 40, foi baixado um decreto-lei federal proibindo a existência de municípios com o mesmo nome. Teriam prioridade para manter seus nomes os municípios mais antigos e os que fossem capitais de Estados. Na época, havia três Vitórias: a capital do Espírito Santo, outra na Bahia e a nossa, em Pernambuco. Assim, a  única que poderia manter seu nome seria a capital capixaba.

Meu pai, José Aragão, então prefeito da Vitória (PE), considerou que o tema, por sua importância, deveria ser objeto de uma consulta popular e convocou um plebiscito. Apresentaram-se dois nomes: VITRICE, sugerido por um grupo liderado pelo então Chefe do Posto de Higiene local, o médico vitoriense dr. Holanda Barros e outro, apoiado pelo prefeito, que propunha agregar ao nome Vitória, o do padroeiro da Paróquia de Santo Antão, já homenageado com uma belíssima imagem, em tamanho natural, existente no altar-mor da Igreja Matriz.

A população, por larga maioria, optou pelo segundo nome, com o que o antigo município da Vitória passou a ostentar o seu nome atual. Outro município atingido pelo decreto-lei foi Vitória da Conquista, na Bahia, mas por motivo diferente: um município mineiro – Conquista – era mais antigo que o baiano e teve prioridade para manter seu nome e a atual Vitória da Conquista teve de mudar sua denominação e o fez como homenagem à conquista, pelos portugueses, de território antes dominado por população indígena.

José Maria de Aragão  Melo. 

Dom Severino Vieira de Melo – por Pedro Ferrer

A imprensa de Teresina, capital do Piauí, no dia 23 de novembro de 2011 noticiava: “Foi exumado o corpo de Dom Severino Vieira de Melo do altar da Catedral de Nossa Senhora das Dores. O Arcebispo foi o primeiro de Teresina e foi responsável pela reforma na Igreja Matriz. A exumação, que aconteceu na noite da última quinta-feira (17), teve início às 19h e se estendeu durante boa parte da noite. Junto com os restos mortais de Dom Severino, foram encontrados uma cruz e um pergaminho que provavelmente seria sua carta mortuária. No dia seguinte foi celebrada uma missa solene na Igreja Catedral, presidida pelo Administrador Diocesano, Pe. Tony Batista, e logo após os restos mortais de Dom Severino foram transferidos para a nova Capela Mortuária dos Bispos localizada dentro da Catedral”. Dom Severino era um sacerdote amado e admirado pelas suas virtudes.

Esse renomado antonense chegou ao Piauí em fevereiro de 1924 para assumir a diocese de Teresina. Era o terceiro bispo da cidade. Em 1952, a Santa Sé elevou aquela comunidade católica à arquidiocese, tendo dom Severino assumido sua administração. Assim ocorrendo, dom Severino tornou-se o primeiro arcebispo de Teresina. Permaneceu à frente daquela arquidiocese até maio de 1955. Foram 31 anos de fecundo e fervoroso apostolado reconhecido e aplaudido por suas ovelhas.

Sobre ele assim escreveu dom Paulo Libório seu discípulo e sucessor: “Ministro da palavra de Deus, e dispensador da graça pelos sacramentos, o antigo pároco de Caruaru e reitor do seminário de Olinda transforma-se em autêntico bispo catequista e missionário, perlustrando, várias vezes, a diocese em todas as direções, em visitas pastorais que se tornaram célebres pela doutrinação evangélica, pela intensidade do trabalho pastoral e pelos incômodos e sacrifícios a que, generosamente, se expunha o pastor, a fim de proporcionar a toda a sua grei espiritual, o pábulo da doutrina cristã, instruindo os ignorantes e os rudes, pelo exemplo e pela palavra, consolando os aflitos, estimulando os bons e catequizando os maus, corrigindo erros e extirpando abusos, ao mesmo tempo que por sobre todos aspergia as bênçãos do seu grande coração de apóstolo”.

Filho de Manoel do Carmo Vieira de Melo e de Rosa Vieira de Melo, nasceu dom Severino, no dia 5 de junho de 1880, na cidade da Vitória de Santo Antão. Ingressou no seminário de Olinda com a idade de 18 anos. No dia 14 de janeiro de 1903 foi ordenado padre. Até 1906 ocupou o cargo de vice-reitor do seminário de Olinda e Recife, de onde saiu para dirigir sucessivamente as paróquias de Gameleira, Glória do Goitá e Caruaru. Após 17 anos de vida apostólica, nessas paróquias, já experiente e bem amadurecido, foi chamado pelo arcebispo de Olinda e Recife, dom Miguel de Lima Valverde, para dirigir o seminário arquidiocesano. Estava em pleno exercício do cargo quando foi eleito bispo de Teresina. Sua sagração teve

lugar em Olinda, no dia 25 de novembro de 1923. Ele foi o primeiro antonense sagrado príncipe da Igreja Católica.

Como dileto filho da Vitória, fez questão de celebrar sua primeira missa pontifical na matriz de Santo Antão. A cerimônia, bastante concorrida, aconteceu no dia 30 daquele ano.

“O Lidador”, de 19 de janeiro de 1924, assim descreveu, pela verve do jornalista Jorge Campelo, a calorosa recepção dos antonenses ao seu dileto filho: “A nossa Vitória no que diz respeito às suas tradições, tem sempre sabido se manter a altura do grau de expectativa dos seus filhos.

O modo porque foi recebido o seu ilustre filho dom Severino Vieira de Melo, veio atestar vibrantemente esta narrativa. O eminente religioso chegou a esta cidade no dia 28 de dezembro, sendo recebido na gare pelos poderes representativos do município, grande número de famílias e uma compacta massa popular.

Em seguida foi feita uma passeata em demanda da residência do rvdm. vigário padre Américo Vasco, onde sua excia. rvdm. foi saudado pelo dr. Lauro Câmera, promotor público que apresentou boas vindas em nome da cidade. O ilustre patrício agradeceu comovido aquela manifestação dos seus conterrâneos. No dia 29, pelas 19 horas, as associações religiosas existentes na cidade fizeram uma manifestação de apreço a dom Severino Vieira, servindo de interprete a inteligente senhorita Corina de Holanda. Sua excelência agradeceu em breve palavras, mostrando a alegria que sentia no momento e incentivando aquelas associações congregadas a seguirem na mesma senda até agora traçada.

No domingo 30, pelas 11 horas, foi solenemente cantada a primeira missa pontifical de dom Severino Vieira, perante um grande número de fieis e o que Vitória possue de mais representativo. Após, foi efetuado o banquete no salão do “Grêmio Paroquial”.

Dom Severino Vieira de Melo faleceu em Teresina, no dia 27 de maio de 1955. Sua vida foi um legado de virtude e apostolado pela causa evangélica.

Transladação dos restos mortais de dom Severino Vieira de Melo para a capela mortuária dos bispos, localizada no interior da Catedral Nossa Senhora das Dores, em Teresina, no dia 18 de novembro de 2011.

Pedro Ferrer – presidente do IHGVSA

 

Noticias do Camelo……

Em um determinado quadrante da nossa história momesca, que teve inicio  no final do século XIX,   alguns jornais e informativos, com títulos sugestivos e com conteúdo e linguagem própria, circulavam no período da folia.

Abaixo, portanto, notícias do Clube Vassouras (O Camelo), no “Língua de Sogra”. Detalhes: um expressivo acervo desses exemplares encontram-se arquivado e preservados no nosso Instituto Histórico Geográfico.

 

Para o pódio centenário……

No mais recente evento de corrida de rua, ocorrido aqui em Vitória, um fotógrafo profissional registrou minha passagem pela frente do nosso cemitério. Sendo o campo santo o destino final de todos nós, continuo alimentando a ideia de que meu corpo não será enterrado. Após minha jornada por aqui, desejo ser cremado. Aliás, acho até que essa é uma mudança de comportamento crescente e racional.

Em vida,  sempre que possível,  é bom lembrarmos  dessa trinca de mistérios: porque nascemos, para que vivemos e por qual motivo morremos?

Sem a devida explicação, continuo vivendo e cuidando da saúde para tentar entrar no seleto grupo dos que ultrapassam um século de vida,  em plena atividade cognitiva e física.  Será que  vou conseguir? Por enquanto, estou fazendo a minha parte.

Próximo do fechamento das cinco dúzias de idade, acredito haver calibrado o “ritmo e o pace”, constante e sem pressa, respectivamente, no sentido da chegada ao pódio centenário. Aliás,  já consigo imagina-lo……..Corta para 26 de dezembro de 2067….

Cidadão Vitoriense (Antonense) – o meu discurso…..

Por ocasião do recebimento do nosso Título de Cidadão Vitoriense (Antonense), concedido pela Câmara de Vereadores da Vitória, indicado pelo vereador Doutor Saulo Albuquerque, abaixo, segue, na íntegra, nosso discurso. 

Na qualidade de pesquisador, especialmente  pesquisador da história local, faço questão de contextualizar esse momento.

Mas antes, gostaria de agradecer à Câmara de Vereadores pela honraria, em votação unânime do conjunto desta legislatura, e em especial ao vereador e amigo Saulo Albuquerque pela iniciativa da proposta,  hoje, aqui,  materializada em Sessão Solene.

Ao término deste ato cívico, sairei por aquela porta mais forte, para seguir  caminhando na mesma trilha, na mesma direção, só que agora de “papel passado”, devidamente formalizado, tal qual o destemido conterrâneo, Pedro Ribeiro da Silva, quando,  em 1710, marchou  na direção do  litoral para escrever seu nome,  com letras garrafais,   na Guerra dos Mascates.

Esse,  é o sentimento reinante.

Continuar construindo  e edificando o que existe de mais sublime à relação que liga o sujeito ao local que vive, até porque, como está escrito na página principal do meu blog, desde o inicio do seu funcionamento há mais de 13 anos:   “O Centro do Meu Mundo é a Minha Cidade”.

Pois bem, e  o que significa contexto,  esse termo tão importante para a ciência que estuda a história?

Contexto, entre outras definições,  é a inter-relação de circunstâncias que acompanham um fato ou uma situação.

Neste caso em tela, primeiro,  vamos ao fato:

O fato casual que desencadeou esse momento solene,  neste Poder Legislativo,  não tem muita distância temporal. Ocorreu há pouco mais de meia dúzia de meses,  no Pátio da Matriz, em um  encontro ordinário entre membros do grupo que autointitulou-se  “Missão Cultural”.

“Do nada”, como diz os mais jovens,  surgiu um papo, que nem lembro exatamente como começou, quando,  da parte do amigo Paulo Lima, saltou uma frase em minha direção,  que  terminava com um  misto de  exclamação e interrogação: “quer dizer que você não nasceu em Vitória….?”

Sem pestanejar, o mesmo arrematou:  “daria  um bom título de cidadão vitoriense……”

Em rápidas palavras, na ocasião exposta, expliquei as condições e os motivos pelos quais nós –  meus irmãos e eu – não nascemos em terras antonenses.

Eis que,  tempos depois, numa manhã qualquer,  telefonou-me  o amigo e parlamentar desta “Casa do Povo”, Doutor Saulo Albuquerque,  perguntando se eu estava em meu escritório. Com minha afirmativa, em ato contínuo, com toda educação que exala da sua essência, tornou-me a perguntar   se naquele momento ele   poderia ir ao meu encontro. Sem pestanejar, disse sim!

Logo em seguida, em  uma clássica visita de médico cirurgião – objetiva e rápida -,  sem rodeios e delongas, após os cumprimentos protocolares, foi direto ao ponto: você  aceitaria ser condecorado com um título de cidadão vitoriense?

Por dois motivos primários, não poderia eu, de maneira alguma, negar  essa  honrosa condecoração, mesmo achando, em silêncio,  naquele momento,  que a mesma poderia gerar-me  uma espécie de “cidadania ao quadrado”.

Antes do doutor Saulo concluir sua indagação, com relação à minha permissão,  para seguir com os protocolos  necessários  neste parlamento, lembrei da satisfação do nobre doutor, por ocasião do recebimento do seu título de cidadão antonense, quando reuniu, em ato festivo,  realizado no Clube Abanadores “ O Leão”, além de familiares e amigos, os “gregos e troianos” do mundo político contemporâneo,  da terra desbrava pelo português Diogo de Braga.

Como disse, dois motivos primários não davam-me o direito de negar  tal honraria.

O primeiro,  por se tratar do Doutor Saulo,  uma pessoa com a qual sempre tive a melhor das relações.

O segundo,  por ser algo muito importante para qualquer pessoa, sobretudo para os que conhecem a gênese, os efeitos e os desdobramentos  dessa verdadeira celebração,  no sentido da  inclusão cívica.

Pois bem, e aqui estou nesta tribuna,  vivenciando o tempo presente desse  momento único.

Contudo,  não  posso  deixar de lembrar que a minha mãe, Anita Garilbaldi  Melo de Vasconcelos Barros, que também foi condecorada com um título de Cidadã Vitoriense, no início da década de 90.

O referido título para “Dona” Anita, minha mãe, fora uma indicação do então vereador José Luís Ferrer que, com sua esposa, Lêda,  também participavam  do Lions Clube das Tabocas,  juntamente com meus pais. .

Dona Anita não gostava da exposição da vida em sociedade. Nunca gostou de badalações e não carregava em si a chama acesa da fogueira das vaidades.

Aliás, por coincidência, vale lembrar, presenciei o momento em que o portador da Câmara chegou a nossa residência  para entregar a correspondência,  dando conta da aprovação do já mencionado  título.

Detalhe: diferente de mim, ela não havia sido consultada com antecedência. Tudo resolvido e combinado entre o referido parlamentar e o meu pai, “Seu” Zito Mariano.

Ao abrir a correspondência, ela não gostou do conteúdo. Deu brabo: disse que não iria receber coisa alguma.  Que não havia feito nada para merecer  aquele título.

 Semanas se passaram e, como dizia meu pai, ela  amansou.

Agradeceu a Zé Luís, participou da solenidade, leu um bonito discurso e ainda contou com a presença de todas suas irmãs, que vieram do Recife para prestigiar aquele auspicioso  momento,  inclusive, uma delas, Adir,  muito doente, já em fase terminal.

Essas seriam, portanto, as primeiras considerações que gostaria de compartilhar com todos vocês.

Em ato contínuo, doravante,  por conta deste título, terei que responder  a um sem número de pessoas a seguinte pergunta: e tu num nascesse em Vitória não foi?

Não esqueçamos que para uma boa resposta,  sempre que  possível, precisamos contextualizar os acontecimentos.

Nesse caso, faz-se  necessário buscar nossas  origens familiares para um completo esclarecimento sobre a minha relação com Vitória de Santo Antão.

 Aliás, permitam-me:

Não vou perder essa  oportunidades para uma  rápida introdução à história do nosso torrão.

Por ocasião da sua fundação, em 1626,  chamada de  “Cidade de Braga”,  depois “Povoado de Santo Antão da Mata”, mais adiante,  Freguesia de Santo Antão, Vila de Santo Antão, Cidade da Vitória e, só a partir de 1º de janeiro de 1944, Vitória de Santo Antão, ou seja: só há pouco mais de 80 anos é que ostentamos o nome atual – Vitória de Santo Antão.

Explicando, então,  nossas origens familiares:

Por parte de pai, precisamos ir até à localidade do Caricé, atualmente já  bem urbanizada.  Na segunda metade do século XIX, viveu, lá,  o casal José Mariano da Silva e Francisca Isabel de Barros. Que foram os pais do meu avô paterno, José Mariano de Barros, “Seu” Zezé Mariano. Que foi casado com Laura de Lemos Vasconcelos que teve sua  origem familiar nas terras do Engenho São Francisco.

Zezé e Laura,  pai e mãe, respectivamente do meu pai, José de Vasconcelos Barros ( Zito Mariano).

Papai  nasceu no dia 25 de junho de  1928, exatamente numa das casas que circunda a atual Praça Severino Ferrer de Moraes, localizada no bairro da Matriz.

Na nossa ancestralidade  materna, temos origens plantadas  lá no Engenho Arandú, do meu trisavô, Coronel Manuel Carneiro de Freitas, pai e sogro, respectivamente, dos meus bisavós, Maria José e Antônio, que se uniram em um amor proibido numa noite enluarada do mês de abril de 1880.

Desse matrimonio, inicialmente proibido,  entre Antônio e Maria José, nasceram três filhos. O caçula deles, veio ao mundo exatamente  no dia 23 de março de 1895, em um prédio que servia de comércio e moradia para a  família, na Antiga Rua José Leite, número 02, na localidade que hoje conhecemos como Cabanga.

O meu avô materno,  ganhou projeção  na nossa cidade e fora dela, como Doutor Célio Meira.  Ele foi casado  com  a minha avó materna,  Alzira Valois, filha de tradicional família antonense, que contraíram matrimônio em 20 de janeiro de 1919.

Dessa união, 1 filho e 8 filhas (uma de criação). Dentre as  quais, minha mãe, Anita Garibaldi Melo de Oliveira Valois que nasceu na cidade do Recife, em 03 de junho de 1932.

José de Vasconcelos Barros, Zito Mariano e Anita Garibaldi, começaram a namora num baile  de carnaval, no Clube “ O Leão” e após 5 anos de namoro e 5 de noivado, se casaram num sábado, 21 de maio de 1955, na Igreja Matriz da Boa Vista, na cidade do Recife.

Dessa união matrimonial, nasceram 11 filhos:

Pela ordem: José, Josenita, Célio, Geraldo, José Mariano, Lauro,  Eliane, Luciana, Alzira, Laura e Cristiano, esse que vos fala. Dos 11 filhos, 8 estão vivos.

Precisamos, mais uma vez, contextualizar, essa narrativa. Isto é:

Os  motivos  pelos  quais, nossos pais, com raízes familiares profundas na Vitória de Santo Antão, como vimos anteriormente,  tomaram a difícil decisão de não terem seus filhos nascendo no solo mãe.

Por ocasião do nascimento do primogênito, José, que foi o primeiro e único filho a nascer na residência da família, à época, localizada à Rua Horácio de Barros, no 113, exatamente no dia 25 de março de 1956, num sábado que antecedia à celebração católica do  Domingo de Ramos, um fato trágico marcou e  mudaria, definitivamente, a história  da vida familiar, do casal Zito e Anita.

Ele, o nosso irmão, José, fora sepultado no dia seguinte ao seu nascimento. Dois motivos, supostamente,  teriam motivado sua prematura  morte:

O primeiro, teria sido  uma queda, sofrido por minha mãe,  dias antes do parto.

O segundo, a não assistência adequada da parteira que foi obrigada  a se  dividir  entre dois partos,  simultâneos,  em endereços diferentes: O de  Mamãe e o da professora Inês Bandeira.

Traumatizado e assustado, logo no nascimento do primeiro filho, o casal,  Zito e Anita, juntos, decidiram que o nascimento dos próximos filhos aconteceriam  na cidade do Recife.

Esse trágico acontecimento familiar e os seus desdobramentos, portando, foram  os motivos  pelos  quais, meus irmãos e eu, não nascemos em Vitória:  somos todos recifenses de nascimento.

Eu, o mais novo de todos,  assim como a maioria dos meus irmãos, nasci no coração da Cidade do Recife, numa  maternidade, localizada na Avenida Conde da Boa Vista.

Nascido em 26 de dezembro de 1967, desde os tempos da tenra idade, habitei o universo da Vitória de Santo Antão,  de fisionomia cinzenta, com muitas ruas  centrais ainda de chão batido e pouco iluminada, mesmo no entorno da Igreja Matriz de Santo Antão.  Meu universo inicial foi a Avenida Silva Jardim se prolongando, mais adiante, ao Pátio da Matriz.

Meu mundo consumidor de criança se limitava a dois pontos comerciais: a venda de Luizinho e à Lojinha de “Seu” Pedro. Ambos numa circunscrição territorial num raio de 100 metros  de distância da casa de número 209, da Avenida Silva Jardim.

Com minhas irmãs e um conjunto de vizinhos,  de  idade semelhante, escalamos todos os galhos das árvores dos nossos quintais. Sou de um tempo, muitos aqui lembram bem, das brincadeiras coletivas e  presenciais.

Invariavelmente, após o jantar, o nosso playground se materializava na hoje movimentada e frenética,  Avenida Silva Jardim. Detalhe:   sem sermos incomodados pelo vai e vem dos  carros. Motocicleta, naquela época, bem diferente de hoje, era assemelhado a um bicho de 7 cabeças.

Em compensação, naquele tempo, assistíamos com certa frequência,  as “touradas da Espanha” em plena via pública, quando um “boi brabo”, prevendo sua hora derradeira,  teimava em não seguir obedecendo aos seus algozes, no caminho para o matadouro local.

Tive o privilégio de ocupar  a Praça Dom Luiz de Brito, naquele tempo ainda de chão batido,  como espaço  para a hora do recreio, uma vez que os meus primeiros contatos com  as letras ocorreram  na Escola da Professora Regina – prédio vizinho ao Clube Leão.

Após a Primeira Eucaristia, ocorrida na Matriz de Santo Antão, no dia 09 de novembro de 1976, sob a liderança do sempre respeitado Padre Renato da Cunha Cavalcanti, na qualidade de aluno, também ocupei, por mais de uma vez, o palco do auditório do Colégio Nossa Senhora das Graças para as sempre prestigiadas apresentações festivas, principalmente, do dia das mães.

No Colégio Municipal 3 de Agosto, além de estudante por vários anos, fui atleta campeão de handebol,  quando ainda pertencia à categoria dos que possuíam  menos de uma dúzia de anos.

Subir e descer o nosso tradicional trepa bode e remendar, às escondidas,  os trejeitos do sempre temido Doutor Mário Bezerra eram as grandes transgressões comportamentais daquele recorte temporal.

De posse da primeira bicicleta, de marca Caloi, na cor vermelha e de ano 1979, os horizontes territoriais, locais,  para exploração foram demasiadamente  dilatados.

Não irei, evidentemente, revirar os arquivos de criança que estão guardados nas muitas gavetas da memória, para não me alongar,   mas poderia descrever, com riqueza de detalhes, cada palmo que descobri na minha Vitória de Santo Antão, até dos “pecados” celestiais quando, por traquinagem mesmo, apagava as velas,  fixadas  pelos fiéis católicos,  em devoção,  nas caixas das almas espalhadas,  e ainda entupia, com pedras, os espaços dedicados à oferta em moedas.

Desde sempre, gostei  de participar das atividades coletivas:  quermesses  religiosas, Natal, Ano Novo, Carnaval, São João, jogos estudantis, feira de ciência, futebol nos campos de peladas, rachas de bicicleta e tudo mais que se tinha direito de fazer.

 O que dizer,  então, das aventuras com destino ao Monte das Tabocas, nas solenidades cívicas do dia 3 de agosto?

Dos tempos de jovem,  o desejo  de participação seguiu no mesmo ritmo, imbuído do mesmo sentimento. Os exemplos  de casa, dos meus pais e dos meus irmãos mais velhos apenas endossava o nosso envolvimento  com as atividades sociais e coletivas. Como diz o pensador: “ a palavra convence, mas o exemplo arrasta”.

Ao  ingressar no conjunto da vida dos  adultos, à qual, diferente do mundo encantado e lúdico das  crianças, sonhador e aventureiro da juventude,  ninguém mais poderá  agradar a todo mundo, até porque a vida adulta se configura numa espécie de “estrada de conflitos” em que  devemos evitar os trechos em contramão, sempre  respeitar a sinalização vigente, não permanecer por muito tempo nos  caminhos indesejados, quando necessário manobrar,  no limite da segurança,  o comportamento e mudar  rapidamente   na iminência de uma colisão fatal para continuar viajando no transporte coletivo do mundo da  existência, no sentido do  trajeto sinuoso e misterioso, de forma suave, natural, equilibrada e  definitivamente edificante e profícuo, sempre guiado pelo farol do ineditismo, pois, nessa viagem, nunca haverá de ter um caminho que nos leve ou nos coloque no ponto da partida.

E é nesse mundo, dos adultos, que tomo a decisão de casar com Soraya de Melo Breckenfeld,  em 08 de abril de 2000, na Igreja Nossa Senhora de Fátima, localizada no bairro de Água Branca para, juntos,  confeccionarmos  o maior de todos os patrimônios: nosso filho Gabriel, hoje,  com pouco mais de  21 anos.

Com o imperioso amadurecimento,  novas definições são necessárias. Definições profissionais, nova configuração  familiar, novos  ciclos de  amizades,  posições políticas em sintonia com  o que verdadeiramente se pensa  e ainda, dialogar com uma sociedade gigante, vulnerável  a  todos os tipos de questionamentos,  aos  quais,  de uma forma ou de outra,  temos  obrigação de prestar contas , principalmente aos inquisidores, cada vez mais implacáveis que se apresentam de forma remota, através dos algoritmos,  muitas vezes manipulado pela  chamada IA – ou seja: Inteligência Artificial do mundo virtual, irreversivelmente, doravante,   mais real e presente no nosso cotidiano.

Mas se aqui estou, nesta casa que representa a pluralidade do pensamento político democrático da nossa cidade, sendo condecorado com um Título  Honroso, é porque imagino que seja merecedor,  possivelmente pela nossa efetiva  contribuição enquanto cidadão, chefe de família, profissional de várias atividades laborais, pelo sentimento altruísta na direção das  várias entidades sem fins lucrativos e pelo legado que continuamos a  construir,  naquilo que chamamos de Educação Patrimonial.

No nosso jornal eletrônico, intitulado Blog do Pilako, por exemplo, desde o início da sua operação até os dias hoje,  já postamos mais de 29 mil matérias com conteúdo genuinamente antonense.  Esse legado não é promessa, ele já existe e já está disponível na internet,   gratuitamente,  a  todas as pessoas.

Inclusive, permitam-me dizer:  é o espaço  virtual mais indicado pelos professores quando se tratada de conteúdo e  conhecimento  da historiografia local.

No nosso projeto “Corrida Com História”, algo sus generis no planeta terra, é algo que, concretamente,  desperta e transforma   nas pessoas  de todas as idades,  à percepção e o   interesse pelos  fatos locais e pela história dos nossos antepassados.

Com alegria, entusiasmo e verdade adaptamos a linguagem, muita vezes  densa  e enfadonha dos livros de história,  para uma  comunicação rápida, alegre, curiosa e objetiva, justamente para despertar o interesse dos que nutrem pela cidade o sublime sentimento de pertencimento.

Indiscutivelmente, o nosso projeto, num só tempo,  esportivo e educativo é  aprovado pela  cidade inteira e  desejado e cobiçado  alhures.

Pensar coletivamente, na prática,  se configura em  colocar-se  entre todos.  É  um estilo de vida que vai  muito além do interesse das conveniências, das  retóricas rebuscadas e midiáticas. Pensar coletivamente é sempre ter, concretamente, o desejo de contribuir.

E é  nesse sentido contributivo, que gostaria, com a permissão dos parlamentares desta Casa,  de deixar, aqui, enquanto estou recebendo esta importante comenda, que retrata um momento ímpar  da minha existência,  uma sugestão que julgo, pela sua magnitude  histórica,  ser um projeto não apenas de um vereador, mas do conjunto deste parlamento, que hoje se utiliza deste prédio histórico que, diga-se de passagem, possivelmente é a única edificação do nosso torrão  que deu guarida aos  três poderes  constituídos, ou seja:   Poder  Executivo, Poder Judiciário e  Poder Legislativo, em tempos  distintos, valendo salientar.

Com relação à sugestão, refiro-me  ao nosso gentílico. Mas o que vem a ser gentílico?

Gentílico é um termo utilizado para designar o nome dado aos habitantes de uma determinada localidade, seja ela uma cidade, estado, país ou região. É uma palavra que deriva do latim “gentilis”, que significa “relativo a uma mesma família ou povo”. O gentílico é uma forma de identificar e diferenciar as pessoas de acordo com sua origem geográfica, sendo um elemento importante para a construção da identidade cultural de um local.

Pois bem, sermos identificados, apenas por vitorienses, não nos define com precisão, cabendo  perguntar: você é  vitoriense de que estado?

Portanto, este Poder Legislativo, verdadeiro e legítimo espaço de representação da nossa gente, instalado no contexto da elevação à categoria de “Vila” – Vila de Santo Antão, em maio de 1812, poderá  nos presentear, se assim achar conveniente,  por ocasião da passagem dos 400 anos de nossa fundação, que acontecerá em 17 de janeiro de 2026, ao acrescentar, de maneira oficial o nosso segundo gentílico, o  Antonense, este,  sim! Uma representação única e indubitável que expressa, verdadeiramente, as nossas origens.

Portanto, ao final dessas  minhas palavras, espero haver conseguido transmitir, de maneira plena, minha satisfação. Minha alegria e também a história dos meus ancestrais que, como já falei, tem raízes profundas fincadas nessa circunscrição territorial que hoje chamamos de Vitória de Santo Antão –  que também ostenta, com orgulho,  o título de  Capital da Zona da Mata.

Com ou sem “cidadania ao quadrado” ,  o fato é que, agora, através do “papel passado”, sou, indiscutivelmente vitoriense, e/ou antonense.

Certamente, Doutor Saulo, se meu pai, Zito Mariano estive ainda no mundo dos vivos, estaria feliz pela sua indicação e pela aprovação deste reconhecimento,  pela Câmara. Mas não poderia deixar de dividir com minhas irmãs e meus irmãos esse reconhecimento, pois assim como eu, todos nasceram na cidade do Recife, mas foram e são atores importantes, cada qual no seu quadrante,  na construção e engrandecimento do nosso lugar.

Uma sociedade não se constrói apenas com sonhos, projetos e palavras. Aos olhos da história, por compreender, construir e usar essa ferramenta da ciência de maneira tão vibrante e responsável,  espero que o meu esforço , no sentido da construção  e edificação coletiva,  seja  útil  a todos:

Aos mais velhos e aos mais jovens, mas sobretudo aos que ainda irão nascer.  Até porque, permitam confidenciar-lhes: sou uma espécie de obra de mum mesmo!

Concluo esta fala,  lembrando as palavras do ativista social  e jornalista  antonsense,  Gomes Silvério,  que trazia,  sempre no  alto da primeira página do seu jornal, “O Liberal Victoriense”,  de 1869,  a seguinte frase:  “QUANDO A LIBERDADE PERIGA, TODO CIDADÃO DEVE SER UM REVOLUCIONÁRIO”.