Momento Cultural: LEMBRANÇAS DO BAIRRO JARDIM SANTO INÁCIO – por Lucivanio Jatobá

A insatisfação de minha mãe por estar morando no Jardim Santo Inácio, em Vitória de Santo Antão, longe de tudo, ouvindo incessantemente canto de grilo e coachar de sapos à noite, era visível. Irritava-se, reclamava a todo instante. O Ateneu Santo Antão ficava no extremo leste da cidade. A feira afastada. O cinema Iracema numa distância danada. Queria ir ao comércio comprar lantejoulas, mas ficava na dependência da boa vontade e do tempo de meu pai. Era preciso sair dali. Não aguentava aquele retiro.
– Emídio, consiga uma casa na cidade para a gente sair daqui!- dizia quase como uma súplica.

Meu pai fazia ouvido de mercador. Gostava dali, daquela calma, daquele cheiro de mato, do ar meio campestre. A perspectiva de sair dali não me agradava em nada, também A exemplo de meu pai, adorava aquele lugar. Por que teria de sair dali? E mais, depois que meu pai comprou aquele galo-de-campina e também um canário da terra, apareciam no quintal outros canários, galos-de-campina e patativas.
Meu pai, que tinha uma paixão por passarinhos, adquirida lá em Passagem do Tó, providenciou logo a compra de um alçapão e me ensinou como fazer para pegar passarinhos. Aquilo passou a fascinar-me. Ficava agora, durante as aulas do Ateneu, com o pensamento longe. Profa. Maria Aragão ensinando o que era um substantivo e eu pensando num canário pousando na
gaiola e entrando para comer alpiste no alçapão. Poft! O alçapão se fechava e mais um pássaro perderia a liberdade e cantaria, agora, de revolta, para deleite de nossos ouvidos.

Peguei várias patativas e canários. Não consegui prender nem ao menos um galo-de-campina. Era um pássaro mais sabido e arisco; não se deixava seduzir por alpiste gratuito depositado em alçapão.
Minhas tardes passaram a ficar mais movimentadas. A espera que um novo passarinho surgisse no quintal me deixava gostosamente inquieto. Escondia-me por entre as bananeiras, juntamente com Nono, com a esperança de que pelo menos um canário despontasse.

Num certo finalzinho de tarde, apareceu, por aquelas bandas, um casal de canários lindos. O cantar de um deles tinia no espaço. O canário de meu pai respondia, como se quisesse alertá-los do perigo que corriam, ou talvez numa competição da qual pouco entendia. A minha ansiedade de capturar os dois ou pelo menos um era incontrolável. Armei o alçapão e aguardei o desfecho. A disputa de canto impressionava. O silêncio era mortal, às vezes quebrado apenas pelo urro melancólico de uma das vacas de seu Zé de Souza! Depois de uma espera nervosa, um dos canários chegou próximo da gaiola, instalando-se num galho de um pé de limão. Cessaram os cantos. O pássaro livre mirava o pássaro prisioneiro. O pássaro prisioneiro voava de um lado para o outro da gaiola, agitadamente. Nono observava calado do meu lado. Meus olhos ficavam centrados no alçapão. Falava comigo mesmo, em pensamento:
– Vai, entra no alçapão, canarinho! Entra!!!!!!

O canário livre examinava a área, percebia o alpiste à disposição. O outro preso agitava-se. De repente, o canário livre pousa sobre a gaiola, silenciosamente. Depois se desloca para a tampa do alçapão. Bastaria um pulo para dentro e adeus liberdade! Que ansiedade aquilo me gerava. Mas ele haveria de pular.
O canário prisioneiro começara novamente a se agitar. Agora,parecia querer lutar pelo território dele, aquela mísera e minúscula gaiola. Que estranho. Como entender que estivesse querendo defender sua prisão. Sei lá…

– Vai , canarinho! Pula dentro do alçapão! Vai!
A minha solicitação mental parecia estar funcionando. O canário começou a olhar mais firmemente para o interior do alçapão. A fome parecia impor-lhe uma ousadia. Parecia estar perdendo o medo do desconhecido. Pensei: vai ser agora…! Já estava me preparando para a carreira e para dar o grito da vitória, quando subitamente aparece Formosina e berra:

-Vaninho e Nono!!!!! Venham tomar uma vitamina de banana e saiam daí dessas bananeiras, pois pode ter cobra”!!!!!!

O canário deu um vôo alto e veloz, logo acompanhado pela companheira. Não perdera a liberdade. Sumiram pelo ar de maneira surpreendente. Caí no choro e não quis saber de vitamina nenhuma!
Passei uns dias amuado e com cara feia para Formosina.

( Capítulo 16 do livro Os Caminhos na Terra das Tabocas, de Lucivãnio Jatobá. Recife: Editora Elógica, 2010 )

PEQUENAS CRIANÇAS, GRANDES NEGÓCIOS – por Sosígenes Bittencourt.

Se crianças não podem pedir esmolas para matar a fome dos seus pais, também não podem fazer pantomimas eróticas para saciar a ganânciados mesmos.

Não interessa se MC Belinho é funkeiro e famoso, o que importa, para a Justiça, é a proteção da belinha MC Melody. A Justiça observa que a menor está desprotegida, porque está sendo exposta publicamente quando é incapaz de avaliar e decidir por si própria, programar sua vida.

Internet não é brincadeira, ela pode render hipotético sucesso e comprometer o seu futuro. De repente, há milhares de pessoas, silenciosamente, avaliando sua postura e suas palavras. É uma casa destelhada onde todos julgam e são julgados.

Se MC Belinho não sabe exatamente o que está fazendo, a Justiça deverá fazer uma avaliação do feito. Uma criança não pode ser erotizada aos holofotes e à luz meridiana, e as autoridades fingirem que não veem, sobretudo quando há clamor e denúncia.

MC Belinho, ingenuamente, diz que sua filha está se saindo melhor na escola, porque está sendo apaparicada depois do sucesso dos requebros sensuais. Esquece que sair-se bem na escola é sair-se bem nos estudos, não é receber paparicos. Ele considera um espetáculo o espalhafato que está promovendo com o seu rebento de menor idade.

Sosígenes Bittencourt

Pagode Russo – Por Duda da Passira e Bruna Kelly

DUDA DA PASSIRA no  CD para o São João 2012,  homenageando  o Rei do Baião. De Luiz Gonzaga e João Silva, canta Pagode Russo com a participação de Bruna Kelly. Na foto, Duda da Passira se encontra com  Joquinha Gonzaga, sobrinho de seu Lula e neto do famoso Januário. Ouça:

Pagode Russo – Duda da Passira e Bruna Kelly

José Sebastian: ” as viaturas da polícia estão paradas por falta de baterias”.

Portador da credibilidade necessária, adquirida ao longo de décadas de trabalho nos mais diversos meios de comunicação, o articulado repórter José Sabastian usou das redes sociais nesse final de semana para informar à sociedade vitoriense que o 21ª Batalhão de Polícia, localizado na nossa cidade, está “AGONIZANDO” por falta das condições mínimas para trabalhar.

Relatou o José Sabastian que seis viaturas estão paradas por falta de baterias. Duas estão rodando com baterias emprestadas e uma por ocasião da quota dos próprios polícias. Se tudo isso já não fosse gravíssimo, ainda segundo o áudio do José Sebastian, os mesmos (veículos) não podem ser reparados na locadora de origem, pois, por falta de pagamento pelo governo do estado,  ficariam retidos.

Paralelamente ao fato,  acima aludido, circula, na Rede Globo, uma mídia realçando que o governo do estado trabalha pela segurança da sociedade. Ao que parece, as coisas na gestão do Governador Paulo Câmara funcionam melhor na propaganda do que “mundo real”.

São por essas e outras que digo que a nossa cidade está precisando, há muito tempo,  de um deputado de oposição. Temos três e, ao mesmo tempo, nenhum!! Todos (os três) estão atrelados diretamente aos interesses do governador Paulo Câmara que, necessariamente, nem sempre estão sintonizados com os interesses da sociedade vitoriense.

Parabéns ao repórter José Sebastian pelo testemunho nas redes sociais. Resta-nos, agora, na qualidade de sociedade civil organizada, “fazer barulho” para que os engravatados do Palácio do Campo das Princesas tenham mais respeito com povo da Vitória de Santo Antão.

A 2ª edição do PRÊMIO PEDRO FERRER DE CULTURA acontece na próxima sexta (22).

Já na sua segunda edição, acontecerá, na próxima sexta, 22 de março, o PRÊMIO PEDRO FERRER DE CULTURA. O evento tem como principal finalidade condecorar pessoas e entidades que se destacaram no contexto cultural na cidade da Vitória de Santo Antão.

O professor Pedro Ferrer, atual presidente do nosso Instituto Histórico e Geográfico da Vitória, encarna, por assim dizer, os atributos necessários para embasar a comenda, face ao seu legado pessoal e, se não bastasse, sua contribuição no que se refere ao incentivo, operando, hoje, em Vitória, como uma espécie de “Ministro da Cultura Sem Pasta”.

Assim sendo a comissão organizadora do evento, que acontecerá no Teatro Silogeu José Aragão, às 19:30h, elencou quatorze categorias – Artistas, entidades e personalidades. São elas:

Carnavalesco – ator/atriz – clube carnavalesco – escritor (a) – educador (a) – Companhia teatral – Instituição filantrópica – Mestre da cultura popular – Personalidade – Artista plástico – Músico – Instituição de ensino – Veículo de comunicação – Homenagem especial.

CENTENÁRIO DE MELCHISEDEC- Severino Militão de Oliveira – por Ilka Carvalho.

Domingo 10 de março de 2019 – Hoje lembramos o nascimento daquele que foi mais um apaixonado por sua cidade natal. Aquele que, em plena segunda feira e há exatos 100 anos, na Rua Barão da Escada, número 49, nascia na cidade da Vitória de Santo Antão, como décimo sétimo filho do farmacêutico José Cunegundes de Oliveira e de Pastora da Conceição Portela.

O Sol declinava no horizonte, a luz do dia se apagava e as luzes da cidade eram acesas. A noite parecia calma, mais só parecia. De repente, um corre-corre e um nervosismo se fazia perceber. Vai nascer! Chama parteira! Começa todo um preparativo para a chegada de mais um Oliveira. Ferve água, bacias, panos limpos, tudo a posto. Suas tias e irmãs mais velhas se postam no chão e rezam para que tudo corra bem. A comoção se devia ao estado de saúde da mãe Pastora, que acometida pela febre espanhola, colocava em risco sua própria vida e a vida do filho. A mãe então, como último recurso apela ao poder divino, e oferece o filho ao serviço do Pai. As horas passam, a tensão cresce, a escuridão da noite começa a declinar quando, aos 00:15 minutos da madrugada do  dia 10 de marco de 1919 um choro ecoa no ar. É o menino Severino Militão de Oliveira chegando. E a despeito de todos os prognósticos o menino nasce e sobrevive.

Se sentindo estrangeiro em sua própria casa, crescia Severino, saúde frágil mais muito inteligente, criou com pedaços de filmes que colhia no lixo dos cinemas da cidade, seu próprio cinema. E no quintal de sua casa ele exibia as fitas para seus amigos de infância.

Menino travesso, sempre aprontava das suas. E depois, pernas pra quem te quero. Mas, nem sempre conseguia fugir aos castigos. Uma de suas estratégias de fuga era subir a meia parede que separava os cômodos de sua casa, onde ele se empoleirava para não ser pego, pois sabia que nas alturas jamais seria alcançado para os castigos corporais. Ali podia ficar bem longe dos adultos. – “Desce menino!”… chamava a mãe. E o menino Severino não dava ouvidos aos apelos dos mais velhos e ali permanecia por longos e longos tempos até o cair da noite quando todos os ânimos se arrefeciam e a pisa era adiada, porém, nem sempre esquecida.

Mas, esse menino, irrequieto por natureza, tinha visões. Visões de seres estranhos ao seu convívio e tinha medo. Tinha medo porque não conhecia e nem compreendia o que via. Desde criança possuía o dom da vidência.

Ele era o próprio – “Menino sonhador”, aquele que saiu de casa para pegar estrelas com as mãos.

E de fato aos 14 anos o menino sonhador saiu da Vitória e alçou vôo por outras paragens e tornou-se um homem determinado e de ação, para então, 70 anos após sua saída, voltar a sua cidade natal e criar a Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência.

Ilka C. Gomes de Sá Oliveira

FRAGMENTOS – No Túnel do Tempo – Sosígenes Bittencourt

O ano tem 1 dia dedicado às mães e 364 dedicados aos filhos.
A Reforma Agrária seria mais bem feita se nascesse da ótica do boi.
O Jogo do Bicho é a coisa mais honesta do mundo; desonestos são nossos sonhos.
Os assaltantes tomaram a praça do povo, e a poluição, o céu do condor.
Pelo preço do pão e a tarifa da conta d’água, não dá pra viver a pão e água.
Carro a álcool. Carro a gasolina. Motorista a adrenalina.
(Maio – 1988)


Os operários do ABC paulista atiraram pedras para que os policiais atirassem nos alvos, os policiais não entenderam e atiraram nos operários.
O Brasil só será uma democracia quando os Projetos nascerem dos anseios das mesas de bar.
Se as eleições foram tranquilas em La Paz, valeu o significado do próprio nome.
Epitáfio para túmulo de médico: Eu sabia que a morte era um caso sem remédio.
(Maio – 1989)

Sosígenes Bittencourt

Viva o Folião da Vitória de Santo Antão!!!

Para concluir com a pauta extraordinária, relacionada  com o  carnaval da República da Cachaça e voltar à rotina das nossas postagens, a partir da próxima segunda (18), expresso meu sentimento: melhor do que começar o período carnavalesco  empolgado  e animado é concluir-lo com tudo no seu devido lugar.

 A grande mídia alardeia o sucesso alcançado pelo Estado de Pernambuco. Saldo da folia:  mais alegria e menos violência. Isso é bom!!

Em se tratando do nosso condado, Vitória de Santo Antão, tivemos um carnaval sem sobressaltos, no que se refere aos índices de violência. Aliás, um carnaval sem maiores incidentes no corredor da folia. No mais, os  velhos problemas de sempre!! Não irei enumera-los, pois são visíveis e recorrentes – iluminação precária, carro de mão no em meio aos foliões, etc e etc…

Destaco como a maior agressão aos nossos costumes e tradição à autoritária medida da Secretária de Defesa Social em determinar, no período do pré-carnaval, o encerramento dos eventos às 22h.

Para nossa cidade, isso foi um ponto  fora da curva. O pior disso tudo foi à falta de respeito e dialogo, por parte da SDS, com os condutores do carnaval local. Vitória não é um lugarejo qualquer!! Ficou claro, pelo menos para mim, que Vitória precisa de oposição política com espaço na mídia estadual, pois, segundo informações,  os nossos atores – prefeito e deputados– não foram sequer consultados. Essa medida, diga-se de passagem,  foi de encontro aos interesses de toda comunidade carnavalesca local. Ao final, apenas os dirigentes das associações locais –ABTV e ACTV – entraram na “briga”, no bom sentido da palavra.

São por essas e outras que reivindico, há mais de uma década, um “Comitê Gestor” para o nosso carnaval. O evento carnavalesco na Vitória se configura numa ótima oportunidade de negócios de toda ordem. Aliás, sem medo de errar, digo aqui: se bem planejado e organizado o nosso carnaval não dependeria de um centavo do dinheiro público municipal. Seria todo financiado pela iniciativa privada!!!

Mas, enquanto esse dia não chega, vamos caminhado  com o que temos: boa vontade de alguns, abnegação de outros tantos e poucos investimentos dos patrocinadores (com exceção da Pitú). No mais, Viva o Folião da Vitória de Santo Antão  que, de maneira espontânea e vibrante  mantém nossa tradição de pé…..