Fim de Semana Cultural:
Soneto Sem Essência (Soneto) – Por Ubirajara Carneiro da Cunha

Ao ser que se oculta atrás da porta,
Jamais aberta a venda de passagem,
Da linguagem em que a verdade aborta,
Não busques se não estás na outra margem.

Do rio em cada curva detém o seu curso
Para embarcar os incautos candidatos ao ideal,
Que, não disponho nem de bússula e um recurso,
Desesperam com as absurdas respostas do real.

Pois o dia cruel e inclemente te espera
Com a luz bastarda e órfã da essência
Para fazer dos teus sonhos uma quimera.

Daí recolher-me a tudo que acena
Apenas com as rudes mãos da existência,
Pois, sem ser, o ser não vale a pena.

Ubirajara Carneiro da Cunha é Advogado, poeta e escritor vitoriense.

Fim de Semana Cultural:
…e o São João era assim… – Por Alfredo Sotero (em 1947)

Texto publicado no Jornal O Victoriense em 23 de Junho de 1947 – há exatos 65 anos.

Quando o Brasil era brasileiro e não havia comunistas, nem as moças solteiras sabiam as coisas que sabem hoje, o São João era tão lindo!

De manhã, os bacamartes estrondejavam defronte da igrejinha, nas perigosas viradas do cocho; e os meninos acordavam assustados, querendo saltar da cama de camisola arrastando, para verem como se acordava São João, que a lenda suave dizia que estava dormindo sem parar, no silêncio do céu.

De noite, depois de cear pamonha de côco, canjica, milho verde assado, milho verde cozido, bolos sem conta, a gente ia acender a fogueira votiva que ardia estrelejando o espaço com milhões de trêmulas centelhas. E ia ver no espelho ou na bacia com água, à luz fugaz, às próprias faces, para saber se para o ano ainda estava vivo. E a Maroquinhas, a moça nervosa, espiava e não via, por mais que fizesse, e saía chorando pela casa, a dizer a todos que no ano seguinte já não era deste mundo.

E os “mosquitos” passando pelos pés da gente, as meninas correndo e chorando, para as queixas sem fim às mamãezinhas, contra os meninos desesperados, que só queriam jogar nelas os “diabinhos”…

E o Sebastião, um moleque escanzelado e fedorento, que tinha fé em São João, mas muito em Nosso Senhor Jesus Cristo, e espalhava as brasas da fogueira, que parecia então uma enorme melancia de fogo e madura, aberta, sobre cujas as brasas o moleque danado passava, indo e vindo, como se pisasse flores, mostrando a força da fé…

E os rapazes da vila, depois que as devotas voltavam do terço, para se mostrarem às namoradas, acendiam os buscapés, que abriam na noite as faixas fulgurantes, como línguas de prata líquida, que, soltos no ar negro e calmo, cabriolavam, tombando depois sobre a terra, numa agonia luminosa, estertorante, envoltos num sudário de luz irisada e diáfana, como uma aurora sidérea, nas desoladas regiões polares.

Tudo passou. Calaram-se os bacamartes que os doutores desbrasileirados sepultaram nos báratros do oceano. Tudo se foi. Somente a saudade no coração da gente que ainda vive, vinda daqueles tempos felizes, ainda chorando na estrada do tempo. E quando todos morrerem tudo será silêncio, que é o tumulo branco das recordações extintas.

Alfredo Sotero de Farias, foi natural de Apoti, (Glória do Goitá), diplomado em Farmácia e Química, exerceu sua profissão em Laboratórios. Freqüentando, desde a adolescência, esta cidade e possuindo acentuado pendor para as letras, colaborou na imprensa local e na interiorana, passando a ser assíduo colaborador do Jornal do Commércio, do Recife. Foi um dos fundadores da “Academia de Letras dos Supersticiosos”, com Samuel Campelo, Célio Meira, José Miranda e outros. Em dezembro de 1915, adquiriu e instalou a Rua Barão de Rio Branco nº 22 uma tipografia (Tipografia Gutemberg), que depois vendeu a Célio Meira, na qual foi impresso o bi-semanário “A Coluna” (1916 – 1919), um dos mais bem elaborados jornais do interior. Faleceu em 1981.

Fim de Semana Cultural:
São João – Por Célio Meira (em 1977)

Crônica publicada na Revista do Instituto Histórico e Geografico da Vitória de Santo Antão – Vol. 7º – em 1977.

SÃO JOÃO – Meu pai, falecido há 30 anos, gostava da festa de Santo Antonio. Adorava festejos de São João. Era devoto fervoroso de taumaturgo de Lisboa de Pádua, que pregara os peixes. Acendia velas no santuário, nas noites de 23 e 24 de junho, iluminando a estampa colorida de Batista.

Parece que estou a vê-lo, quando era menino, no quintal de nossa casa, na rua do Meio, ensinando-me a fazer fogueira de barrica. Enchia-se uma barrica velha de lenha seca e ateava-se fogo com papeis embebidos em álcool ou querosene. Subiam as labaredas, ouviam-se estálidos da lenha, e, decorrido pouco tempo, tudo era braseiro. Retirávamos tições, e quando a cinza os cobria, nós os soprávamos, a plenos pulmões, até que o fogo se tornasse vermelho.

Começava, então, o brinquedo de fogos. Acendiam-se as “estrelinhas”, queimavam-se os “mosquitos” e besouros “quebra-canela”, soltavam-se, com a mão a tremer, “pistolas” de quatro e cinco “balas”, “rodinhas” presas com um alfinete numa flecha, “chuveiros de ouro e prata” e “cartas” de traques debaixo de latas e panelas. Riscavam-se caraduras encarnado e verde e ajeitava-se a subida de balões de papel, para que, aos caprichos do vento, eles cabeceassem, sem destino, dentro da alvoroçada noite sanjoanesca. Nas ruas e nas praças prosseguiam, fagulhantes, batalhas de busca-pés. Chegavam, amortecidos, na cidade, estrondos de bacamartes, disparados nas propriedades agrícolas.

Nestes últimos tempos, no São João da minha terra, depois de olhar fogueiras sem mamoeiro “macho”, sem cordões de bandeiras de papel; de conversar com meia dúzia de pessoas do meu tempo de rapaz, e de espiar gente moça e desconhecida a dançar, nos clubes, procuro repousar o espírito, nas horas de silêncio. E na meditação, parece que estou ouvindo, a descer de mundos siderais, a voz amada do meu pai:

 – Está muito diferente o São João da nossa terra. Já não existe a casa onde, no quintal, fazíamos fogueira de barrica. Não maldigas os tempos novos: são passagens renovadas da vida, são as leis divinas na evolução do mundo.

Célio Meira foi escritor vitoriense, membro ativo da Academia Pernambucana de Letras (APL) e do Instituto História e Geográfico de Vitória, além de manter regularmente colunas em jornais de vários continentes, editou periódicos locais.

Fim de Semana Cultural:
Maria Martha (conto) – por Arquiles Petrus

São quase onze horas e ele ainda não ligou. Ele nunca deixa de ligar quando está atrasado, o que será que aconteceu? Vou me deitar na sala, ali perto do telefone talvez ele ligue, aí já atendo logo não é? Nossa como o teto está nojento, preciso passar uma vassoura ali, está cheio de poeira. Espere aí, hoje é sábado. É isso! Esse sacana deve ter ido pra algum bar com aquelazinha. Será? Não. Ele não faria isso comigo. Ou faria? Não, não, acho que não. É… ele deve estar no futebol com os amigos lá naquele campinho perto do apartamento. Será? Mas noite de sábado… é, deve ser isso mesmo. E depois do futebol deve ter ido para algum barzinho com os amigos. Espere aí. Barzinho com amigos? Não gosto de Alberto e aqueles outros amigos dele, são todos uns galinhas e ainda mais, colocando ele pra beber! Minha nossa, eles devem ter ido de lá pra algum daqueles bares de beira de estrada.

Odeio quando ele chega aqui todo sujo com aquele bafo de cachaça. Me chamando de amor, de anjinho. Meu bem pra cá. Meu bem pra lá. Todo doce. Da última vez que ele chegou assim quase que lhe dei uma surra. Estava totalmente bêbado. Hum… as vezes gosto quando ele bebe, na hora do vamo-ver ele sempre dá conta do recado. Mas só quando toma uma. Minha nossa, e como dá conta do recado. Espere aí, da última vez que ele apareceu assim, tava todo-todo com cheiro daqueles perfumes baratos, tipo Gabriele Sabatine da pior qualidade. Argh! Se ele me aparecer com esse cheiro de novo, juro, mas juro mesmo, que dessa vez ele me apanha. Se eu descobrir que aquele filho-da-mãe tá saindo com aquela raputenga, ah, ele me paga. Minha nossa, são quase onze e oito, e ele não chega e nem sequer dá um telefonema. Sim, tudo bem que todo homem é atrapalhado pra se arrumar, mas já faz muito tempo que tô aqui esperando. Aquela piranha deve tá com ele. Ele deve tá me traindo… Mas, será? Quer me trair? Que me traia, mas com ela não, ela não! Minha nossa, estou chorando, não acredito que ele fez isso comigo. Espelho. Preciso de um espelho. Ahhh chorar não! Seja forte mulher, aquele galinha não merece você. Olhe, você é linda. Claro. Você é uma gata. Pronto. Sem chorar. Mas, se aquele galinha estiver com a raputenga… espere, espere, sem chorar, vamos. Pronto. Ahh, ele não faria isso comigo. O telefone. Corre. Tá tocando. Pronto. Alô, Eduardo? Quê? Não, aqui não mora nenhuma Lorena, não. Ah, minha senhora, num tem nenhuma Lorena. Mas. Não. Não sou Lorena. Minha senhora… Mas era só o que me faltava. Será que ele ligou e deu ocupado? Minha nossa. Que droga, tudo culpa daquela maluca procurando a puta da Lorena. E eu sei lá quem é Lorena! Esqueci de tirar as teias do teto! A vassoura, cadê a vassoura? Pronto. Ainda falta ali. Não alcanço. Só se for com aquela cadeira. Ah, ele vai me escutar sim. Isso lá são horas? Pronto. Teto sem poeira. Espelho. Cadê o espelho. Pronto, continuo linda, você é uma gata. Ele sabe que odeio esperar. O DE IO. Ah, ele vai se ver comigo, a vai, a regra agora é um mês sem sexo, quero só ver. Vou deixá-lo maluco, mas nananinanão! Nada de sexo. Tô com fome. Aquele galinha disse que queria jantar comigo para comemorar o nosso aniversário. Mas é muito filho-da-mãe. Deixa-me ver: pão, maionese, picles, mortadela. Isso, isso e isso. Pronto. Onde coloquei a maionese? O telefone. Corre. Minha nossa. Espera, já tô indo. Pronto, alô? Oi mãe… tudo bem mãe. É mãe. Não mãe. Já mãe. Tá mãe. Humrum vou tentar mãe. Tchau mãe… Eu não agüento mais, vou chorar de novo, ele não me ama mais, tenho certeza. Ele tá com outra. Eu sabia, aqueles telefonemas todos, sabia que era outra. E é ela, eu sei, tenho certeza que é ela! Devem tá saindo de algum barzinho, indo pra algum motel. Motel? Ele nunca me levou num motel… ele não me ama… vou ligar. Mãe? Acho que ele tá me traindo mãe… Choro, choro sim, e a senhora queria que eu ficasse como mãe? Não mãe, eu tenho certeza, ele ta me traindo com ela mãe! Não me peça pra parar de chorar mãe, dói muito. É mãe, com aquelazinha, lembra? Minha nossa, a campainha. Corre, corre, corre. É ele. Espelho. Cadê o espelho. Pano, pano, preciso enxugar isso. Pronto. Linda. Perfeita.”

Ela abriu a porta.

“Ai amor, você é fofo sabia? São lindas, adorei. Ai amor, você nunca esquece do aniversário da gente não é? Te amo muito sabia?”

“Alô, mãe? Ele chegou, depois te ligo tá? Mãe, to tão feliz… você acredita que ele parou no caminho pra me comprar rosas? Muito fofinho ele, não é, mãe? Beijos…”

“Amor? Vamos?”

Arquiles Petrus – Escritor membro da
Academia Vitoriense de Letras

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Fim de Semana Cultural:
Soneto ao meu avô Severino (poesia) – por Darlan Delage

Soneto ao meu avô Severino

Caiu em tuas dores uma mortalha preta.
Caiu e te levantou em noite sexta.
O alivio de tuas dores sobre a solidão
Te fez liberto de um tortuoso colchão.

Caiu contigo a ponte do meu destino
Mas tua base rígida manteve-se erguida.
Foi boa, ao teu lado, minha infância vivida.
Hoje, em dia triste te vejo Severino.

Foi seguido em cortejo, por familiares e amigos
E eu a carregar meus pesados dissabores.
No caminho ao São Sebastião

E hoje sigo teu caixão, num cortejo sem flores.
Na infância me carregaste no colo como filho
Hoje fui eu seu neto-coveiro, um dos que te carregaram.

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

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Fim de Semana Cultural:
O Sentido da Dor (poema) – por Elmo Freitas

O Sentido da Dor

Hoje eu tive a leve sensação de flutuar…

Tranquei-me em meu quarto e quando pensei
Que não suportaria a dor
que sobre caía em minha cabeça:
Adormeci…

Depois, não lembro muita coisa,
apenas um entorpecimento possuindo
minhas entranhas e elevando-se pela alma.
Eu não sabia que estava acontecendo, mas tinha a certeza de que
não estava morto, pelo contrário, sentia como se uma semente
de energia e vida brotasse dentro de mim.

Jamais havia sentido tamanho êxtase…

Contudo, o período de dor e inferno que vivi,
me levou a compreender uma coisa:
O sentido da dor.
Sim! Agora eu posso entendê-la. Sei qual a sua essência,
sua primazia e o seu…. O seu tormento.

Sei que ela virá novamente, mas antes…
Quero viver,
Porque é pelo peso da montanha que se mede o tamanho do inferno.

Elmo Freitas – Poeta do “Os Confundidos”

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Fim de Semana Cultural:
PARA UMA NAMORADA QUALQUER (poesia) – Por Egidio T. Correia

Não procure em mim
A perfeição.
Eu só posso te dar
O que eu tenho,
Que é meu coração.

Não procure em mim
O mito.
Eu só posso te dar
O que sinto,
Meu amor, por você.

Não procure em mim
Nada que eu não sou.

Apenas me complete
E se complete
Em mim,
Me dando e me pedindo
Amor.

Egidio T. Correia é poeta,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Antes e Depois da POSSE
Colaboração de Aliomar de Vasconcelos

ANTES DA POSSE:

O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e transparência são fundamentais
para alcançar os nossos ideais.
Mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa ação.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
as nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos econômicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE

Basta ler o texto acima, DE BAIXO PARA CIMA, linha à linha.
Texto de autor desconhecido, colaboração enviada pelo professor
Aliomar de Vasconcelos.

Fim de Semana Cultural:
Lua e mãe ninando menino – Por Sosigenes Bittencourt

Lá fora tem uma lua no céu.

Quem viu a lua?

A mãe pega o bebê, põe no braço e começa a cantarolar: – Cadê a lua, meu filhinho? Cadê a lua?…

E o menininho balançando o cocãozinho, como se procurasse alguma coisa no céu.

– Olha a lua, meu filhinho… Cadê a lua?…

E o menininho levantando o cocãozinho, como se entendesse um pouquinho.

– Luuuuuuuuuuuua… Luuuuuuuuuuuua…

– Cadê a lua?…

E a lua lá no céu…

Sosigenes Bittencourt – Escritor vitoriense.

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Fim de Semana Cultural:
NO AUGE DA MINHA DOR (Conto)
Por Rosângela Martins

Foto ilustrativa - autor desconhecido

O vento começou a sacudir janelas e a espantar paredes. Um vaso, presente de uma velha tia, fez-se em pedaços. Antes que os estragos aumentassem, fechei as janelas de cortinas curvadas, como bandeiras abandonadas à sorte e ao vento.

No chão, cacos dos desenhos de uma porcelana antiga pediam-me atenção. Enquanto cuidava silenciosamente do destruído, ELE permanecia estendido no sofá da sala como um lençol recém retirado do varal. Foi confortável aproximar-me DELE.

A chuva caiu fazendo-me voltar aos tempos alegres. Conhecemo-nos desde crianças e nunca brigamos. Foi amor à primeira vista. Até o momento, estávamos sendo muito felizes.
ELE, agora, mal falava. Não precisávamos de palavras para compreendermos um ao outro. Apenas me olhava com seus olhos ultimamente cansados e cheios d’agua. Era da doença que tinha tomado conta do seu corpo. “É só um resfriado que logo logo vai embora”, dizia-lhe tentando acalmá-lo com minhas palavras de consolo.

ELE tossiu juntamente com um relâmpado que despontou lá fora, parecendo uma faísca saída do estalar de duas poderosas espadas, lutando pela vida. Senti medo, pensando que a hora tinha chegado. Senti um nó na garganta e uma lágrima foi rejeitada por meus olhos, descendo pela minha face pálida de menina abandonada no mundo. Depois outra, outra e mais outra, até que o nó se desfez e a cachoeira parou de jorrar. Lá fora, a chuva continuava.

Por um momento, achei que alguém bateu à porta. Ao abrí-la, o vento entrou pela casa varrendo a tranquilidade e ELE tossiu outra vez. Desta vez, mais forte. Parecia a morte em cobrança. Fechei desesperadamente a porta e a tosse parou. Imaginava estar trancando lá fora a inimiga e não deixaria que ela entrasse e me arrancasse o que tinha de mais precioso na vida.

ELE  dormiu. Eu, não. Fiquei pensando em como Deus estava sendo injusto comigo. ELE não podia morrer.

O dia estava anoitecendo. A chuva havia parado e já se podia ouvir o canto longínquo de pássaros que se preparavam para fechar a tarde. Aqui dentro, ELE ainda dormia. Lá fora, ela esperava, impiedosa, sem ao menos levar em consideração a nossa vida de casal jovem feliz e apaixonado. Mas, apesar de relutar tanto, eu sentia que a hora estava próxima.

A respiração DELE aumentou, até que abriu os olhos. Beijei, então, seus lábios com tanta  ternura, implorando por um milagre. Desconhecendo a realidade, aceitou-o. Com um leve sorriso, seus olhos fecharam-se para que nunca mais eu os fosse ver brilhar.

Levantei e abri  a porta. Ela finalmente entrou, o levando de mim.

Minha dor aumentava cada vez mais, como se uma faca estivesse cravada em meu peito. A vida fora curta mas cheia de alegrias.

Veio-me outra vez o nó, mas não deixei que este se apertasse. Expeli com rancor todo o meu sofrimento. Tinha que deixá-lo, tinha que ter coragem. Quando ELE acordasse, se acordasse, ELE  iria entender que a sua hora final chegara.

Já podia imaginar-me à frente de um caixão: o vento arrastando as folhas secas e soltas pelo chão que, depois do enterro, seriam suas únicas companheiras. Insuportável era vê-lo morto. Nunca a vulnerabilidade da vida passou pela minha cabeça.

Em mim, os sentimentos se confundem e a realidade ainda não se definiu em forma ou extensão facilmente compreensíveis.

Não vivo sem ELE. Morro com ELE.

Rosângela Martins é escritora e poetisa.

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Fim de Semana Cultural: Flores (Poema)
Por Rosângela Martins – Foto por Marcus Prado

Gomo a gomo delicadamente sobrepostos com a perfeição e a paciência de mãos divinas.
Assim são as flores.

A noite empresta o azul do céu para mostrar outras estrelas, bem mais próximas, também capazes de brilhar.
São as flores.

Mas nem todas as luzes conseguem desvendar os seus mistérios, as suas nuances…
As flores!!!

Que segredos ainda esconde?
Flores.

Poema de Rosângela Martins, inspirado na belíssima foto de Marcus Prado.

Fim de Semana Cultural: O Garoto
Por Aliomar Vasconcelos

A praça ainda é a mesma.
A estação ainda é a mesma.
As lembranças são as mesmas.
Entretanto…
O trem não existe mais.
O relógio da estação não existe mais.
O velho chefe da estação não existe mais.
Recordações guardadas nas retinas daquele garoto.
Dez anos de idade…

Olha o amendoim! Olha o amendoim!
Torrado e Cozinhado! Quem vai querer?

Por que as lembranças ficam sempre nas estações?
Chovia muito naquela noite…Parado na estação, o garoto.
Um juvenil sonhador.
Sandálias surradas nos pés e uma camisa remendada a lhe cobrir o corpo franzino.
Uma cesta no braço e a esperança no olhar.
De repente, o apito…o farol…o trem.
Ansiedade? Talvez.
Quantos pacotes venderia naquela noite? E se não vendesse?
Dentro do trem, poucas pessoas compraram seus pacotes de amendoins.
Disputava a freguesia com vendedores de pipocas, rôletes de cana, bolos…
Desespero! O trem partira…
E ainda faltava receber por alguns pacotes que conseguira vender.
O garoto pulou do trem da vida.
Sem a sua cesta, sem as sandálias, sem o dinheiro apurado.
Sentado num banco de praça,
falara baixinho: amanhã será outro dia.
No seu rosto juvenil, uma lágrima se mistura com a chuva.
Era apenas um garoto…

Naquela casa simples (num beco estreito),
uma velha senhora o esperava angustiosa.
De braços abertos e com um coração cheio de amor e de ternura,
ela ficava olhando aquela rua, que parecia não ter fim.
De repente, no final da rua, aperece aquele garoto. Todo molhado.
Agora, estão juntos.

Na calçada, Dona Lola e o garoto se abraçam e choram.
Ele, por ter perdido – a sua cesta, as sandálias, o dinheiro…
Ela, por ver chegar à salvo, aquele garoto que tanto amava.
Hoje, os estrondos dos trovões, já não me assustam mais.
Dona Lola – Minha Mãe – me ensinou como vencê-los.
Não sei explicar o por que, mas hoje, já velho,
quando cai uma chuva torrencial com relâmpagos e trovões,
olho para o céu e vejo uma pequenina estrela brilhando.
Creio que seja Dona Lola me dizendo:

Não tenhas mêdo. Lembra-se de como ti ensinei a vencê-los?
Então, digo baixinho: Bença Mãe. E vou dormir.

Aliomar Vasconcelos é Professor e Escritor vitoriense.


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Fim de Semana Cultural:
A Poesia Natural – Por Sosigenes Bittencourt

Lembro-me de quando viajava para o Recife, de manhã,
e retornava à noitinha.
O cheirinho de mato, o vento assanhando o meu cabelo,
eu, com o rosto pálido, olhando para as serras.
As árvores pareciam mulheres nos cumprimentando.
Eu tinha cabelo naquela época, era desintoxicado naquela época, sentia frio.
Com a cabeça na janela do ônibus, ninguém sabia que eu fazia poesia.

Sosigenes Bittencourt – Escritor vitoriense.

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Fim de Semana Cultural: Quem Ti Guiará Victoria? (poesia)
Por Eliomar Vasconcelos

Do orebe…do sinai,
No mais oculto cimo do imaginário,
Estarás sempre tú, Victoria.
E o histórico orgulho de teu povo victoriense,
Tão sofrido e tão guerreiro,
Se erguerá de novo!
Tal qual a fênix!

Quem ti guiará Victoria?

Em frenesi, toda a multidão às praças se aglomeram.
Seria o renascimento da ágora grega?
Teu líder não se desespera.
Em seu porte nobre,
Descobre indícios de dúvida e receio.
O povo amedronta-se! Tem medo!
Chora e grita!
Seu líder, não.
Impávido, ostenta sua serenidade usual.
E, em frase altiva e de brio,
Afugenta seus inimigos.
O povo vai ao delírio!
Em meio a ruidosos clarins,
Ergue seu velho estandarte medieval.
O povo ajoelha – se solenemente
E,
Reza.

Quem ti guiará Victoria?

Mais além, na alta câmara,
A vereança, loquaz, verbaliza o ilógico.
Os pares infernais,
Sobem em seus tronos,
Adornados de utópias inelutáveis.
Ali, se assentam em cadeiras de ouro,
Os girodinos que tramam contra os sans – culottes.
Os párias contemporâneos,
Observando os vultos de tamanha grandeza,
Silenciam e sofrem.
Estão à margem da história…

Quem ti guiará Victoria?

Em meio à turba, surge um servo…
O povo fica atento ao que vai acontecer.
Eloquente, fala ao povo, em sentido metafórico…
“ o populismo político (lembra de teus coronéis?)
Reside na deficiência intelectual de seu povo.
E, este povo, victoria, sonha com dia de sua independência.”

Porque – “… El sueño de la razon produce monstruos.”

Quem ti guiará Victoria?

Quem?

Eliomar Vasconcelos é Professor e Escritor vitoriense.

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Fim de Semana Cultural: VIAGEM AOS SEIOS DE DUILIA (Poema)
Por Rosângela Martins – Foto por Marcus Prado

Foto: Marcus Prado

Batalhas: muitas travei mundo afora.
Retendo mares, afastando nuvens.
Mas sem jamais a esperança perder.
De um dia voltar pra você.

Bendita distância que me aproximou das tuas lembranças!
Que o tempo só conseguiu aumentar.
Mas a tua presença guiará o meu ser.
Porque à minha frente só vejo você.

Sentindo o aroma do teu perfume trazido pelos sonhos,
Por vezes me pego delirando.
Mas hoje eu chego, mesmo sem querer.
Porque tudo me leva a você.

Foto de Marcus Prado e poema de Rosângela Martins, ambos inspirados na obra VIAGEM AOS SEIOS DE DUILIA, de Aníbal Machado.

Fim de Semana Cultural: Vermelho (Poema)
Por Rosângela Martins – Fotos por Marcus Prado

Foto: Marcus Prado

Foto: Marcus Prado

Entre as nuvens, abrigam-se as constelações.
Armas, soldados, ira, canhões…

O invisível duelo da noite contra o dia vai recomeçar.

Um sorriso macabro ecoa pelos ares.
Dragões alados sobrevoam os mares.
Velhos ogros, bestas infernais,
Batalhões de feras, feridas carnais…

Chamas que destroem todos os caminhos:
Montes, matas, troncos, caules, espinhos.
Marcas de aflição, sombras, seiva escorrendo…
Clama-se por socorro! Tudo está morrendo!

Como em câmera lenta, os cenários se apagam,
Flores murcham, folhas secam, vozes se calam.
Com cinzas espalhadas e de silêncio revestida,
A escuridão se arrasta tímida, encolhida.

Então, raios de sol trazem o milagre divino
Anunciado por um fio de fumaça ainda pequenino.

E começa a desenhar novas histórias, novas ilusões,
Revivendo os seres, purificando corações.
Deslizando pelo ar, levado suavemente pela brisa
Multiplica-se e espalha a paz que ele avisa.

“Vermelho” de fogo, que outrora foi sofrimento
Dá lugar à chama de outro forte sentimento:
O fogo da paixão, que nos aquece e nos guia;
Que nos alimenta; fonte de toda energia.

E numa fração de segundos, o mundo volta ao normal.
Nenhuma lembrança fica: nenhum sinal.

A rubra noite passada agora repousa esquecida
Aguardando amargurada e ressentida,
Uma nova oportunidade de reaparecer,
Mesmo sabendo que jamais vai vencer.

Rosângela Martins é Poeta vitoriense.
(do Supermercado Vitória.)

**Poema inspirado nas fotos do vitoriense Marcus Prado

Fim de Semana Cultural:
Filho Deficiente Mental (poesia) – Por Marcone Melo

Se um dia chegar em teu lar
Reencarnar
Aquele espírito necessitado
Desorganizado

Não deixes de lado
Tuas mãos amigas
Para curar as feridas
De outras vidas

Agarra a oportunidade
Que o amor não tarde
Ele pede por ti
De sair das trevas

Pois a vida é eterna
E quando se tem amor
É luz, é esplendor
Que alivia a dor

De um deficiente mental
Que escolheu e vós concedeste
A ele ser teu filho
No caminho para Deus

Marcone Melo – É poeta vitoriense.

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Fim de Semana Cultural:
Ao odor das Coisas (poesia) – Por Darlan Delarge

De tudo se sentia um cheiro peculiar
e foi registrado na epigenese à memória
uma combinada coleção “viscosa” de ar
e disso expeli e absorvi, se não, sucumbiria.

Lembro-me de substancias extensas:
um esgoto, um jardim… a oxigenese austral.
A Asmática influencia de tais lembranças
Registradas no hipocampo desse cérebro fetal.

Na vida há um Odor Belial superexcitador
de quem um dia possuiu um olfato de infante.
E sussurro revelando um futuro estimulador:

– Deixo vivo em odores o que causa delírio.
Aos meus filhos, eu podre a feder… assimilando
à tristeza do caixão ao cheiro reconfortante dos Lirios.

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

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Fim de Semana Cultural:
Ele e o Vento (poesia) – Por Elmo Freitas

Ele levantou, olhou ao longe e perguntou: O que é aquilo?
E o vento que passava por ali respondeu: É O HORIZONTE.

E ele perguntou: E o que tem lá?

E o vento respondeu: O IMAGINÁVEL…

Ele continuou olhando, pegou sua sacola, caminhou e disse:

Eu vou até lá… NÃO ME ESPERE… NÃO SEI SE VOLTO.

Elmo Freitas – Poeta do “Os Confundidos”

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