SIMÔNIDES DA SILVA BITTENCOURT – por Sosígenes Bittencourt.


(Na fotografia, as falecidas professora Damariz, minha geratriz, e minha inesquecível tia Ricardina).

É do físico e filósofo francês Blaise Pascal, a síntese do sentimento que desanimou e levou a vida do meu pai: A maior carência do homem é poder fazer tão pouco por aqueles que ama.

Contudo, sua riqueza era dentro do coração, não no mundo. A riqueza invisível e interior do meu pai o identificava, resumida na sentença latina “Homo doctus in se divitias semper habet” (O homem instruído carrega sempre a riqueza dentro de si).

Paterno abraço!

Sosígenes Bittencourt

 

PARA O DIA NACIONAL DO ESCRITOR – por Sosigenes Bittencourt.


Escrever é um ato que se pratica sozinho, porém, jamais solitário.
Todo ato intelectual é povoado daquilo que povoa a vida, do mistério que povoa o mundo.
O escritor vive escrevendo.
O escritor morre escrevendo.
Até quando dorme, sonha escrevendo.
Um olho aberto e outro fechado,
uma folha de papel e uma caneta ao lado.
Assim, anda vivendo,
Assim, vive andando,
meio acordado, meio sonhando.

Sosigenes Bittencourt

MEMÓRIA DE VITÓRIA – por Sosígenes Bittencourt.


(Grupo Escolar Cardeal Roncalli)
Diz que é de Vitória de Santo Antão, mas não escalou a Praça 13 de Maio, rumo ao Grupo Escolar Cardeal Roncalli, passando pela Venda de João de Barros Lima, na Feira das Panelas, quando não havia uma estaca fincada no chão nem um barracão.
Sosígenes Bittencourt

Memorável abraço!

Sosígenes Bittencourt

E POR FALAR EM ANIVERSÁRIO – por Sosígenes Bittencourt.

O aniversário, ao contrário de comemorar a vida, comemora um tempo que morreu. Por isso, tão bem simbolizado pela velinha que você apaga na escuridão. Porque é, na realidade, a despedida de um tempo que foi e nunca mais será. O passado é o destino, porque é o que se cumpriu e não há possibilidade de modificá-lo. O passado é eterno, porque é um tempo que não tem princípio nem fim, não há como reiniciá-lo nem terminá-lo.

Sosígenes Bittencourt

(Há 12 anos)
(2014-2026)

E POR FALAR EM ANIVERSÁRIO
Festejado abraço!

MINIBIOGRAFIA – por Sosígenes Bittencourt.


Ensinar, para mim, é uma forma de conviver.
Minha escola é o mundo.
Estudar, para mim, é uma forma de conviver,
Minha escola é o mundo.
Sou professor no que ensino;
no que estudo, sou aluno.
Sou filho de professora Damariz,
meio gente, meio pó de giz.
Fazer poesia é destino,
sou poeta desde menino.
Porém, sou poeta trabalhado,
o meu dom é divino,
mas o estudo é sagrado.
Sosígenes Bittencourt
(Colégio Municipal 3 de Agosto.

19/07/1955
19/07/2026

Sosígenes Bittencourt

ATRÁS DA PORTA – por Sosígenes Bittencourt.

ATRÁS DA PORTA

Atrás da porta
renasce a infância e seus bruxedos

Atrás da porta
há golpes e risos
e mãos impossíveis

Atrás da porta
o pequeno espaço
estreita os desejos

Atrás da porta
há olhos perquiridores
mas, cegos, de confundem

Atrás da porta
há outra porta
abrindo lembranças

Atrás da porta
há o gelo e o fogo
de tua volta

Atrás da porta
“tem o aspecto
de um corpo”

Atrás da porta
os mortos estudam os vivos
mais mortos que os mortos

Sosígenes Bittencourt
Janeiro/1978

A poesia está na natureza – por Sosígenes Bittencourt.

A poesia está na natureza, o poeta é que fuxica a beleza.
A poesia é o que o poema conta.
Certa vez, andando pela varanda, eu vi duas meninas bonitinhas passando.
Não eram meras meninas, era a poesia passando, o que me fez fuxicar, varandando.

VARANDANDO
Da varanda, vejo duas meninas bonitinhas passando.
De tão bonitinhas, nem parecem passar, fica sempre alguma coisa bonitinha no ar.

Sosígenes Bittencourt

São João e São João – por Sosígenes Bittencourt.

Das três maiores festas anuais, o São João é a mais singela e tradicional. O Ano Novo nos trespassa de tristeza, porque sugere a contagem do tempo e amontoa os mortos. Abrimos álbum de retrato e botamos pra chorar. O Carnaval é uma festa perigosa, de extravasar frustrações. O pessoal só falta correr nu pela rua.

O São João é uma festa mais pacata, que relembra nossas tradições mais atávicas, nossas raízes culturais. Lembro-me do São João das ruas sem calçamento. O mundo parecia um terreiro só. As mulheres cruzavam as pernas, enfiavam as saias entre as coxas, para ralar o milho e o coco, enquanto os homens plantavam o machado nos toros de madeira para fazer as fogueiras. À tardinha, a panela virava uma lagoa de caldo amarelo onde fervia o maná das comezainas juninas. A meninada ensaiava o jeito de ser homem e mulher. De chapéu de palha, bigode a carvão e camisa quadriculada, era quando podíamos chegar mais perto das meninas sem levar carão nem experimentar a sensação de pecado. O coração se alegrava quando sonhávamos com a liberdade de adultos que teríamos um dia. Batia uma gostosíssima impressão de que estávamos bem próximos de fazer o que não podíamos fazer. Os ensaios de quadrilha relembravam a tristeza do último dia. Pois um ano durava uma eternidade, as horas eram calmas, podíamos acompanhar a réstia do sol e contar estrelas. Pamonha, canjica e pé-de-moleque eram tarefas de dona de casa prendada, de quem o marido se gabava. Tudo era simples e barato, ninguém enricava com a festa. A novidade era a radiola portátil, e os conjuntos eram pobres de tecnologia, mas os instrumentos ricos de som e harmonia, manuseados com habilidade e gosto, na execução do repertório da festa do milho. Quando São Pedro se ia, ficava um aroma de saudade na fumaça das derradeiras fogueiras e no espocar dos últimos fogos.

Sosígenes Bittencourt