Fim de Semana Cultural:
Uma Poesia – por Rildo de Deus

Lembro-me daquele dia. Faz tempo.
Antão do Egito tinha ido me visitar.
Contou-me da estória de Dédalo fugindo pelo ar.
Chico. O velho Chico recitava: CHUÁ-CHUÁ!
Na fumaça do cachimbo
Sete vezes um barco pintava lá.

Terra seca, o sol a queimar
Gotas de cera pingavam do alto.
Caiam no rio como se o sol tivesse a chorar.
A água ficou azul cor de mar e
As telhas lá de casa começaram a estralar.

Caiam pedaços de cera, pena e papelão
E depois nunca mais nevou no sertão.
Logo menos era Ícaro caindo com a cabeça no chão.
Antão tinha água do Nilo.
Eu tirei cacimbão.
Jogamos na cara de Ícaro e começou-se a confusão.

Rildo de Deus é Escritor e Estudante de Filosofia da UFPE

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Fim de Semana Cultural:
Misturas (poema) – Por Egidio T. Correia

Misturamos e trocamos
As salivas em cada beijo.
Comemo-nos e saciamo-nos
No vil desejo.
Somos cúmplices caprichosos
Morrendo e renascendo em cada beijo.
Se é justo, sagrado ou profano,
Impróprio, imoral ou sacrilégio.
Atire a primeira pedra
O puritano.
Entre culpas, remorsos e desatinos,
Não sou homem adulto ou menino.
Julgamentos precisos ou imprecisos
Que se façam.
Se o sabor da vida é criminoso
Sou réu confesso e condenado,
Perante as correntes e amarras do destino
vivo acorrentado.

Egidio T. Correia é poeta,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Sobre o crime e a compreensão (poema) – por Darlan Derlage

Da profundidade do seu conjunto ósseo
Advinha a mais abissal compreensão.
Compreendia: coisa que no homem é fóssil,
A conjectura carecente da traição.

Quando numa noite quente ao chegar em casa,
mal saberia, a cólera que seu coração talha,
ao presenciar o desafio, que o levará a desgraça.
A mulher, leviana, a trocar caricias: – canalha!

E ao agarrar a mais próxima arma: um pau.
Desferiu-lhe, no crânio, um golpe mortal.
E como quem desperta de uma quimera absurda.

Viu na Amada, Epiléptica, a demasia do mal.
Foi a morte, que numa noite clara, empalideceu?
Foi deplorável, o que o homem, tarde, compreendeu.

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

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Fim de Semana Cultural:
Palavras (poema) – Por Elmo Freitas

Palavras…
Palavras não são aglomerados de letras.
Palavras são ataques e defesas, vozes e ouvidos.
Palavras transformam luzes em sombras;
Sombras em Luzes.
Palavras são venenos
palavras são antídotos.
Palavras encontram o que foram perdidos
e perdem o que foram encontrados
Palavras não valem nada
palavras valem tudo
Palavras…

Palavras buscam palavras

Palavras que enfurecem
Palavras que confortam
Palavras que envelhecem
Palavras que vivem
Palavras que matam

Palavras…

Elmo Freitas – Poeta do “Os Confundidos”

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Fim de Semana Cultural:
Maria da Penha (música) – por Aldenisio Tavares

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Maria da penha, Maria da penha
Quem a conhece é porque já leu
Maria da penha, Maria da penha
Quem a conhece porque já bateu
Numa Mulher
Pois eu faço é como Sr. Capiba
Que nem bate nem com uma flor
Depois lhe dou carinho, lhe encho de beijinho
Bem gostosinho eu lhe faço amor

Estando com ela não olho de lado
E lá em casa não compro vassoura
Não quebra cabo no meu espinhaço
Porque mulher é uma jóia boa
Mas a boa é a do meu vizinho
Com ela ele é quem vive
Pois lá em casa quem manda é a outra parte
Quem ama de verdade ama
Não mata e também não bate
Enche de carinho e leva pra cama.

Aldenisio Tavares é compositor,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Prazo de Validade (música) – Por Aldenisio Tavares

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A cada dia agente se conquista
Vivemos numa festa tão bonita
Seja no corpo, seja no gosto
No que pode se tocar com a mão
Quando se ama e se apaixona
Deixar falar a voz do coração

O sol nasce para nós
O mar calmo nos acalma
Pra que pressa, pra que guerra
Se a vida é uma bela farra
Viver contigo é um bombom
Recheado de sabores
Sem ter prazo de validade
Cumplicidade, luas de amores

Vem cá, vem cá
Por toda a vida eu vou te amar
Namorar, namorar
Quando se ama nada de fartar

Aldenisio Tavares é compositor,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Chão dos cabelos roxos (conto) – Por Arquiles Petrus

Corremos desembestados pela rua tentando se livrar do pegador. Como ele era rápido demais, a estratégia era procurar algum lugar que servisse como esconderijo. Dois deles, coitados, já haviam virado estátua, quando de uma hora pra outra alguém veio com a brilhante idéia: Vamos lá pra baixo, pro pé de jambo? Descemos correndo até o terreiro. Enquanto uns tentavam subir na árvore, eu preferia ficar sentado na sombra enquanto mastigava algumas daquelas deliciosas folhas, que caiam com o alvoroço dos meninos pendurados lá em cima. Ouvia a pancada dos frutos no chão dos cabelos roxos, deixando aquele cheiro de jambo pairando no ar. Adorava jambo. Ainda assim, preferia mastigar as folhas.

Arquiles Petrus Escritor membro da
Academia Vitoriense de Letras

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Fim de Semana Cultural:
Conto sem título – Por Rildo de Deus

Era fim de tarde e não importa que horas os relógios mostrassem. Pessoas caminhavam pela Rua de Dona Nina. Por baixo do arco chamado Sinal de Trânsito com a luz vermelha acesa um grande ônibus-sanfona obedecia ao sinal. Tudo tranquilo até que em meio ao mormaço da várzea e das buzinas dos carros, vem pela contramão uma carroça carregada de capim e dois rapazes negros com os cabelos amarelos (era época de carnaval). A mula vinha na frente. Charmosa e desajeitada (faltava-lhe sangue-azul). Galopava ao ritmo peculiar das mulas quando a ferradura lhe escapa da pata. Rola, pula pelo asfalto e soltando faísca faz um barulho parecido com uma das saudações a São Jorge “Ògún ieé!” Havia um rapaz participando dessa cena quando ela era viva. E não sei por qual motivo ele resolveu fazer o que fez. Esperou uma boa oportunidade, foi para o meio da estrada e pegou a ferradura. Jogou-a para cima estava morna recém-tirada do asfalto quente. Uma voz feminina perguntou: – Tu vai fazer o que com isso menino? – Por no meu pé. Respondeu o rapaz. – Você é delicadozinho né? Macumbeiro!

Continua…

Já era noite e havia um adolescente sujo, fedendo a grude sentando na calçada de um prédio enorme, batia com um martelo numa bigorna fazendo o clássico som de um ferreiro. Alguém o chama atenção: – Tenho um presente para você! – ¿Un regalo para mí? – Sim, é uma ferradura. – ¿Qué es una “Ferradura”? O rapaz abriu a mochila, tirou uma ferradura arranhada e brilhando como faca. O estrangeiro sorriu e pareceu muito contente por ter recebido um “regalo” como aquele. Tão inesperado e meio clichê. Recebeu grato e educadamente disse: – Lo haré con el arte.

Despediram-se e o ferreiro voltou a trabalhar.

Houve um sonho. Painel sonhou com um Orixá: Ogum! Pedindo que limpassem todas as ferramentas da casa. Pois iria a parecer em breve. O Pai de Santo falou com os Filhos da Casa mais presentes no outro dia logo cedo para que adiantassem tudo. Colherem pimenta, limparem os portões colocando óleo… Enfim, tudo foi feito e no meio de uma noite de sábado quando a Lua estava o mais próximo da terra que chegou nus últimos anos choveram Ferraduras iluminadas de prata e chocolate branco onde houvessem pessoas vendo a lua cheia.

Rildo de Deus é Escritor e Estudante de Filosofia da UFPE

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Fim de Semana Cultural:
Cântico ao Sol (poesia) – Por Luciene Freitas

Quando o sol desponta, nascendo para o dia, canto.
Dissipam-se desditas, enfileiradas sombras vão sumindo.
Apresento-me ao mundo de braços abertos. Rindo
ao ver desabrochar a inocência, sem rumor de pranto.

Quando o sol brilha sobre o céu azul, tal qual um manto
de luz dourada, desdobrando em claridade o firmamento.
Corro em alamedas de flores multicores, ó encantamento
e o pensamento acompanha a aurora no manifesto santo.

Quando o sol esclarece as trevas me alegro tanto,
passo à limpo o caminhar, bendigo os dons que recebi,
de joelhos agradeço, enternecida, os dias que vivi
e novas estradas percorro em busca de encanto.

Quando o sol no horizonte desce, eu já não me espanto.
Sem o anoitecer não há o novo dia. Tudo é tão breve.
O amanhecer é abraço de esperança, beijo de brisa leve,
translação de almas caminhantes da luz, em canto.

Recife,18-06-2005
2.º lugar no Concurso Literário Josepha
Máximo Ferreira. UBE – PE. Recife, 07-06- 2006.

Luciene Freitas é escritora,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Balada de Uma Noite Escura – Por Valdinete Moura

Estava no limbo. Imprensada, imponderável, perdida no escondido de mim. QUERENDO ser feliz, dar risadas, correr pelos campos, amar. Só entendia de chorar, de errar, não encontrar. Ou, encontrando, achar errado. Sofrer. Entendia mais de perder do que de qualquer outra coisa. Foi o que aprendi. Mesmo quando me ensinavam rindo, dizendo é para o seu bem. Para o meu bem? guardar a boneca que era minha? da menina que eu era? pra não estragar. Cresci e a boneca ficou lá na sua caixa. Inteira, vestido limpinho, cabelo novinho. Também! Quem quer saber de bonecas se no mundo há meninos? Interessantes, eles. Eu queria. Queria dançar, passear de mãos dadas, correr pela praia, ir ao cinema, abraçar, beijar, ser beijada. Não. NÃO! Para seu bem. Uma mocinha precisa se recatar. Não, não e não. Onde estavam os sins deste mundo? Já era uma mocinha (todo mês, a certeza) e os sins não para mim. A boneca já não interessava mais; os meninos, sim. Antes, escondida, brincava com a boneca, com medo. Agora. Com os meninos, também com medo. Eu queria, Não sabia querer? Não me diziam o que precisava ouvir. Perguntas sem respostas. Milhares delas; tantas nem formuladas. Para que? Sempre o mesmo; para o seu bem. Existiam o bem e o mal. Eu sabia. Queria errado? O mal? Era assim, eu? Escondi meu querer diferente no fundo do coração e entrei na forma. Segui. SEGUI? Me levaram: a seguir, a fazer, a querer. E eu?Fui. No limbo, impensada, imponderável. Peso, só em mim, no fundo do coração.

Um dia, eu que não era encontrei alguém que era. Quer a mim como se quer a alguém que se quer. Tão diferente; em tudo. Eu, mulher, adulta, casada, filhos. Adulta? No peso do coração, a dúvida (mais o querer rejeitado); que fazer com casa, marido, filhos? Mas, deve ser assim! Eu, errada? Desvio da natureza? Deve mesmo ser assim? Agora é tarde: filhos. No coração, peso mais pesado, na alma, solidão; no rosto, a mensagem. Você leu, entendeu. Por que agora? Tão tarde. Você, tão diferente. Tudo: a juventude que não tenho mais (você não é velha), a liberdade (ser livre é conquista), o marido, os filhos (pense em você, viva). Amo você, escuto. Não quero. Amo você, não digo, proíbo pensar. Penso, amo você. Só penso você. Não devo, não quero. NÃO!!! Não aguento. Morro (não morra, quero você). Vegeto as horas de minha vida cotidiana. Vegeto e me dissolvo, verme pegajoso agarrado e pré- (conceitos, visões, estabelecimento). Me dissolvo entre nãos externa e internamente. Vou… (Não vá), mais um não! (um sim, a você). Também amo você, sinto, não quero, não digo, não posso, proíbo… e desobedeço. Amo você, grito aos quatro ventos nesta noite sem luar. Grito e ninguém ouve o grito morto na garganta. Amo você, soluço baixinho; só meus ouvidos escutam.

** Conto integrante do livro “Mulheres na Chuva” pela Ilumine Editorial.


Valdinete Moura
é escritora,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
E lá estava ele (poesia) – Por Elmo Freitas

Impedido de mergulhar nas suas próprias dores
Sufocado com suas próprias palavras
Febril com seus próprios medos
Sórdido com seu próprio eu
Perdido nas sombras dos dias
Acalentado pelo silêncio da noite
Aprisionado no tempo
Contemplado com a ilusão
Embriagado com a lua
Soterrado com a solidão
Entorpecido com o silêncio
Mergulhado na aflição.

Elmo Freitas – Poeta do “Os Confundidos”

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Fim de Semana Cultural:
Circulando (música) por Aldenisio Tavares

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É a força da robótica, é a força da eólica
É a luz do sol, o pingo da chuva
A energia dos astros, o pasto do boi
Fermento – alimento de uma geração

Circulando, circulando, circulando a vida
Somos palhaços, somos trapezistas
Somos ginásticos, somos artistas
Circulando, circulando, circulando a vida
Somos idéias, idealistas, Somos percussão, percussionistas

É a força, é a força da mulher presidente
É a força, é a força da molecada
Sem estética, sem forma, sem forma, sem nada
É a força do ser humano, é o Mano Meneses
Em catorze ou quatorze é a seleção
E o Brasil vai ser campeão
É a força, é a força da internet
No exato momento do acontecimento e tal
Essa é pra Carlinhos Brown

Aldenisio Tavares é compositor,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
O Jovem Guerreiro (conto) por Arquiles Petrus

Durante o solstício, os membros do vilarejo se reuniam ao redor de uma grande árvore para festejar ao som de flautas e liras, e como já era esperado, fez-se silêncio quando o Sacerdote se aproximou.

Ele vestiu uma túnica de cor escarlate, levou os braços aos presentes e ao pé da grande árvore riscou alguns símbolos na terra branca, dando por iniciados os ensinamentos daquela noite.

Olhou para todos como quem procura alguém, e, ao avistar o jovem guerreiro Guy, filho de Gna, fez-lhe o gesto com as mãos fazendo-o aproximar. Tomou-lhe as armas e roupas, e, em seus olhos disse: Escuta o que te digo, chamarei o velho Mig’s e lutarás com ele aqui, ao pé da sagrada árvore.

Guy era o mais forte, maior e o mais valente entre os homens do vilarejo. Sentiu-se, então, confuso ao ouví-lo. Como lutarei com o velho Mig’s? Ele não agüentará um sopro sequer e logo cairá morto! – falou com tom seco ao Mestre; porém com outro sinal, o sapiente fez alguém se aproximar.

O velho Mig’s aparentava ter mais de duzentos anos, era coxo e não enxergava de um dos olhos. Aproximou-se com certa dificuldade, fazendo o Sacerdote riscar algo no chão dando início à luta.

O jovem se movimentava com alvoroço: ia de um lado para outro, talvez pensando de qual forma ia fazer cair o velho indefeso; fez gestos com a boca e logo correu em direção a ele, como quem ataca um lobo em noite de caça. O velho esquivou-se. Bateu-lhe com uma das mãos e fez cair o jovem ao chão. Levantou-se furioso. Determinado. Rápido.

Pegou-lhe pelas pernas e quis derrubá-lo. Nada. E o velho Mig’s se esquivava, mal demonstrava cansaço e com poucos gestos, fazia cair o valente guerreiro.

Quando o jovem Guy já não agüentava mais estando estirado na terra branca, o Sacerdote interveio e todos os presentes sussurravam atônitos; Yag, o ferreiro, logo questionou: Como poderia o maior entre os guerreiros se esbandalhar para um velho coxo e cego?

O Sacerdote apenas sorriu ao indagá-los:
– Quem entre vós, mais cedo ou mais tarde, não acaba sendo vencido pela Velhice?

Arquiles Petrus – Escritor membro da
Academia Vitoriense de Letras

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Fim de Semana Cultural: Augusta Ladainha (poesia) – Por Darlan Delarge

À Augusto dos Anjos.
Cantou ao tamarindo de sua vida,
sonetos da putrefação do homem
no âmago intestinal que o consolida
dizia coisas que por dentro consomem.
Me vi junto a vermes, corvos, carneiros…
seguindo um fantástico caixão,
Celebrando a chegada do poeta coveiro
que cavava dos sepulcros a bela Canção:
“Foi assim como na sua profecia:
morreu aos trinta de pneumonia.
Enfermo, então veio a perecer.

Mas o contrario de teu corpo, poeta,

aquém dedico minha Litania,

os teus versos hão de nunca apodrecer.”

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

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Fim de Semana Cultural:
Maria Martha (conto) – por Arquiles Petrus

São quase onze horas e ele ainda não ligou. Ele nunca deixa de ligar quando está atrasado, o que será que aconteceu? Vou me deitar na sala, ali perto do telefone talvez ele ligue, aí já atendo logo não é? Nossa como o teto está nojento, preciso passar uma vassoura ali, está cheio de poeira. Espere aí, hoje é sábado. É isso! Esse sacana deve ter ido pra algum bar com aquelazinha. Será? Não. Ele não faria isso comigo. Ou faria? Não, não, acho que não. É… ele deve estar no futebol com os amigos lá naquele campinho perto do apartamento. Será? Mas noite de sábado… é, deve ser isso mesmo. E depois do futebol deve ter ido para algum barzinho com os amigos. Espere aí. Barzinho com amigos? Não gosto de Alberto e aqueles outros amigos dele, são todos uns galinhas e ainda mais, colocando ele pra beber! Minha nossa, eles devem ter ido de lá pra algum daqueles bares de beira de estrada.

Odeio quando ele chega aqui todo sujo com aquele bafo de cachaça. Me chamando de amor, de anjinho. Meu bem pra cá. Meu bem pra lá. Todo doce. Da última vez que ele chegou assim quase que lhe dei uma surra. Estava totalmente bêbado. Hum… as vezes gosto quando ele bebe, na hora do vamo-ver ele sempre dá conta do recado. Mas só quando toma uma. Minha nossa, e como dá conta do recado. Espere aí, da última vez que ele apareceu assim, tava todo-todo com cheiro daqueles perfumes baratos, tipo Gabriele Sabatine da pior qualidade. Argh! Se ele me aparecer com esse cheiro de novo, juro, mas juro mesmo, que dessa vez ele me apanha. Se eu descobrir que aquele filho-da-mãe tá saindo com aquela raputenga, ah, ele me paga. Minha nossa, são quase onze e oito, e ele não chega e nem sequer dá um telefonema. Sim, tudo bem que todo homem é atrapalhado pra se arrumar, mas já faz muito tempo que tô aqui esperando. Aquela piranha deve tá com ele. Ele deve tá me traindo… Mas, será? Quer me trair? Que me traia, mas com ela não, ela não! Minha nossa, estou chorando, não acredito que ele fez isso comigo. Espelho. Preciso de um espelho. Ahhh chorar não! Seja forte mulher, aquele galinha não merece você. Olhe, você é linda. Claro. Você é uma gata. Pronto. Sem chorar. Mas, se aquele galinha estiver com a raputenga… espere, espere, sem chorar, vamos. Pronto. Ahh, ele não faria isso comigo. O telefone. Corre. Tá tocando. Pronto. Alô, Eduardo? Quê? Não, aqui não mora nenhuma Lorena, não. Ah, minha senhora, num tem nenhuma Lorena. Mas. Não. Não sou Lorena. Minha senhora… Mas era só o que me faltava. Será que ele ligou e deu ocupado? Minha nossa. Que droga, tudo culpa daquela maluca procurando a puta da Lorena. E eu sei lá quem é Lorena! Esqueci de tirar as teias do teto! A vassoura, cadê a vassoura? Pronto. Ainda falta ali. Não alcanço. Só se for com aquela cadeira. Ah, ele vai me escutar sim. Isso lá são horas? Pronto. Teto sem poeira. Espelho. Cadê o espelho. Pronto, continuo linda, você é uma gata. Ele sabe que odeio esperar. O DE IO. Ah, ele vai se ver comigo, a vai, a regra agora é um mês sem sexo, quero só ver. Vou deixá-lo maluco, mas nananinanão! Nada de sexo. Tô com fome. Aquele galinha disse que queria jantar comigo para comemorar o nosso aniversário. Mas é muito filho-da-mãe. Deixa-me ver: pão, maionese, picles, mortadela. Isso, isso e isso. Pronto. Onde coloquei a maionese? O telefone. Corre. Minha nossa. Espera, já tô indo. Pronto, alô? Oi mãe… tudo bem mãe. É mãe. Não mãe. Já mãe. Tá mãe. Humrum vou tentar mãe. Tchau mãe… Eu não agüento mais, vou chorar de novo, ele não me ama mais, tenho certeza. Ele tá com outra. Eu sabia, aqueles telefonemas todos, sabia que era outra. E é ela, eu sei, tenho certeza que é ela! Devem tá saindo de algum barzinho, indo pra algum motel. Motel? Ele nunca me levou num motel… ele não me ama… vou ligar. Mãe? Acho que ele tá me traindo mãe… Choro, choro sim, e a senhora queria que eu ficasse como mãe? Não mãe, eu tenho certeza, ele ta me traindo com ela mãe! Não me peça pra parar de chorar mãe, dói muito. É mãe, com aquelazinha, lembra? Minha nossa, a campainha. Corre, corre, corre. É ele. Espelho. Cadê o espelho. Pano, pano, preciso enxugar isso. Pronto. Linda. Perfeita.”

Ela abriu a porta.

“Ai amor, você é fofo sabia? São lindas, adorei. Ai amor, você nunca esquece do aniversário da gente não é? Te amo muito sabia?”

“Alô, mãe? Ele chegou, depois te ligo tá? Mãe, to tão feliz… você acredita que ele parou no caminho pra me comprar rosas? Muito fofinho ele, não é, mãe? Beijos…”

“Amor? Vamos?”

Arquiles Petrus – Escritor membro da
Academia Vitoriense de Letras

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Fim de Semana Cultural:
Deixando o passado e roupas no varal (poesia) – por Elmo Freitas

Deixando o passado e roupas no varal

Naquele dia ele acordou, não pensou duas vezes e decidiu ir ser feliz.
Não quis mais saber de lamentações, lamúrias ou sentimentos inconstantes.
Olhou para o céu e viu apenas uma nuvem, resolveu então ir buscá-la.
Sentiu a direção do vento e seguiu.
Não olhou para trás.
Deixou tudo: o passado e roupas no varal.
Abraçou a vida, o tempo e o espaço.
Mergulhou em lagos e buscou a paz.
Respirou verdades puras e dias intempestuosos.
Seu espírito transcendia qualquer medo; qualquer fraqueza.
A partir daquele dia, ele não foi mais o mesmo, porque deixou tudo:
O passado e roupas no varal.

Elmo Freitas – Poeta do “Os Confundidos”

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Fim de Semana Cultural:
Soneto ao meu avô Severino (poesia) – por Darlan Delage

Soneto ao meu avô Severino

Caiu em tuas dores uma mortalha preta.
Caiu e te levantou em noite sexta.
O alivio de tuas dores sobre a solidão
Te fez liberto de um tortuoso colchão.

Caiu contigo a ponte do meu destino
Mas tua base rígida manteve-se erguida.
Foi boa, ao teu lado, minha infância vivida.
Hoje, em dia triste te vejo Severino.

Foi seguido em cortejo, por familiares e amigos
E eu a carregar meus pesados dissabores.
No caminho ao São Sebastião

E hoje sigo teu caixão, num cortejo sem flores.
Na infância me carregaste no colo como filho
Hoje fui eu seu neto-coveiro, um dos que te carregaram.

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

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Fim de Semana Cultural:
O Garoto (conto) – por Arquiles Petrus

Foto: Shutterstock

Tivemos uma semana e tanto na redação. Marilia, como sempre, muito nervosa com aqueles seus editoriais malucos sobre economia que eu mal entendia; ficávamos meio desorientados quando ela nos vinha com aquelas loucuras de sobe-desce da inflação. E pior: bem na hora do bendito almoço. Era engraçado como Pedro, o editor de esportes, ironizava:

– Está bem. Mas me diz aí Marilia, você acha melhor quando o negocio sobe ou desce?

E todos riam da malicia do Pedro, inclusive Marilia, que parecia gostar das nossas brincadeiras.

Justamente nesse dia, Pedro nos disse que precisávamos relaxar, que nos achava sérios demais. E ele tinha razão, a loucura de um jornal tinha nos deixado “aloprados” como ele sempre dizia. Todos adoravam aquele seu jeito meninão.

– Nós? Aloprados? – disse eu tentando revidar.

– Sim, senhor editor de textos… aloprados!

Logo depois nos surpreendeu com sua proposta: “que tal um zoológico, no final da tarde?”.

Parecia algo meio maluco, mas depois de muita insistência todos aceitaram. E antes do final de expediente lá estavam todos entrando no gol-branco de Pedro.

Logo depois de uma longa subida que dava acesso ao zoológico, vimos vários garotos em direção ao carro balançando freneticamente suas flanelinhas que mais pareciam pedaços de camisa rasgada. Como era final de tarde, paramos logo perto da bilheteria que ficava debaixo de uma grande mangueira. Tocava alguma música que não consegui distinguir, talvez daquelas antigas canções que se ouvia muito em frente das casas no final da década de oitenta. Parecia que ali o tempo não havia passado. Enquanto Marilia e Pedro compravam nossas entradas, um garoto havia me chamado atenção.

Ele estava sentado no meio-fio, um pouco distante de nós. Deveria ter oito, nove anos no máximo. Vestia uma camiseta avermelhada e uma bermuda jeans. Sentado e triste, abraçava as pernas contra o peito, apoiando o queixo num dos joelhos enquanto parecia chorar.

Algo me fez aproximar.

– Onde estão seus amiguinhos? – perguntei, me agachando.

Ele chorava. Senti algo estranho quando ele me fitou. Fiquei tonto. Olhei em minha volta e tudo parecia que havia mudado; estava num parque, naquele mesmo parque que dava entrada ao zoológico; a voz de crianças se misturava ao som que saíam dos alto-falantes pendurados nos postes de madeira. Dezenas de crianças brincavam em gangorras, balanços de ferro ou subiam em casinhas de madeira para descer num escorrego. Eu suava, não entendia o que acontecia quando percebi um grupo de crianças. Sete talvez. Eu estava entre eles. Corriam todos para a bilheteria quando vi que eram amigos de infância, da minha infância; pareciam eufóricos por estar ali, prontos para entrar no zoológico recém-inaugurado, todos se remexiam afobados, menos eu. Pus a mão no bolso e não havia dinheiro, nem se quer uma moeda. Todos zombavam de mim, falavam coisas. Eu chorava, pedia algo, mas eles não me ouviam. Não queriam me ouvir. Quando entraram no zoológico sentei num meio-fio e chorei por saber que papai nunca me levaria pra ver o leão, muito menos me daria moedas. Fiquei ali chorando por quase duas horas esperando meus amiguinhos voltarem.

Dei-me conta que estava agachado na frente de um garoto que abraçava suas pernas chorando. Sentia meu coração apertado, como quem quisesse estar naquele mesmo jeito. Foi nesse momento que percebi o que na verdade os olhos daquele garoto refletiam.


Arquiles Petrus
Escritor membro da
Academia Vitoriense de Letras

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Fim de Semana Cultural:
Viagrando (letra/música) – por Aldenisio Tavares e Rivonaldo Tavares

Viagrando

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Hoje não tem condição
De pular mais um muro por causa de um coração
É a cara, é a criatura
A idade na aventura não se mistura com a razão
É melhor comer com os olhos e ofegar a respiração
E mostrar que foi se um tempo
O momento é outro momento de brilhar na imensidão
Mas é mesmo assim
A força química da natureza
Enaltece a beleza fazendo a paixão brilhar
Mas há remédio que ameniza o fim do tédio
Agora VIAGRANDO a sério
O importante é o coração agüentar.

Se você me der uma chance
Eu vou me apaixonar por você
Eu vou me apaixonar por você
Eu vou me apaixonar…

Aldenisio Tavares – Compositor – membro da
Academia Vitoriense de Letras

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Fim de Semana Cultural:
Pedreiro de Sonetos (poesia) – por Darlan Delage

Pedreiro de Sonetos

N’ânsia de um poeta ermo,
Da mágica fagulha de inspiração,
Surge a cede que passa nos termos
Em quartetos e tercetos na emanação.

É aquele inseto maldito que atazana
Os nervos fracos e mutilados.
Que troca versus enamorados
Pela a agonia da sinapse craniana.

Nessa ânsia me sinto exausto
É essa concreta estrutura
Concebida pelo petrariu Augusto.

Dos Anjos, de ti vem meu fausto
Por essa fidelíssima conjuntura, que
Em sonetos hei de edificar meus causos.

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

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