Fim de Semana Cultural: O Casulo (Poesia)
Por Rosângela Martins

O meu casulo é como um ventre:
Lar, descanso, refúgio, parada.
Não há dor ou maldade que entre.
Tranqüilo, seguro, minha morada.

E, feito uma borboleta, sinto-me em formação.
Cada som, cada odor, parece me chamar
Aguça meus sentidos, minha imaginação…
Desperta em mim o desejo de voar.

Mas minhas asas são delicadas e pequenas
E meu vôo é rasante e bem curto
Mesmo sendo eu consciente e serena
A minha vontade é apenas um surto.

Porque os cordões ainda estão amarrados.
Nas teias emboladas e grudentas me prendo.
Meus planos e sonhos, abandonados
Levados pela correnteza a qual me rendo.

Rosângela Martins é Poeta vitoriense.
(do Supermercado Vitória.)

Fim de Semana Cultural:
O Garoto (conto) – por Arquiles Petrus

Foto: Shutterstock

Tivemos uma semana e tanto na redação. Marilia, como sempre, muito nervosa com aqueles seus editoriais malucos sobre economia que eu mal entendia; ficávamos meio desorientados quando ela nos vinha com aquelas loucuras de sobe-desce da inflação. E pior: bem na hora do bendito almoço. Era engraçado como Pedro, o editor de esportes, ironizava:

– Está bem. Mas me diz aí Marilia, você acha melhor quando o negocio sobe ou desce?

E todos riam da malicia do Pedro, inclusive Marilia, que parecia gostar das nossas brincadeiras.

Justamente nesse dia, Pedro nos disse que precisávamos relaxar, que nos achava sérios demais. E ele tinha razão, a loucura de um jornal tinha nos deixado “aloprados” como ele sempre dizia. Todos adoravam aquele seu jeito meninão.

– Nós? Aloprados? – disse eu tentando revidar.

– Sim, senhor editor de textos… aloprados!

Logo depois nos surpreendeu com sua proposta: “que tal um zoológico, no final da tarde?”.

Parecia algo meio maluco, mas depois de muita insistência todos aceitaram. E antes do final de expediente lá estavam todos entrando no gol-branco de Pedro.

Logo depois de uma longa subida que dava acesso ao zoológico, vimos vários garotos em direção ao carro balançando freneticamente suas flanelinhas que mais pareciam pedaços de camisa rasgada. Como era final de tarde, paramos logo perto da bilheteria que ficava debaixo de uma grande mangueira. Tocava alguma música que não consegui distinguir, talvez daquelas antigas canções que se ouvia muito em frente das casas no final da década de oitenta. Parecia que ali o tempo não havia passado. Enquanto Marilia e Pedro compravam nossas entradas, um garoto havia me chamado atenção.

Ele estava sentado no meio-fio, um pouco distante de nós. Deveria ter oito, nove anos no máximo. Vestia uma camiseta avermelhada e uma bermuda jeans. Sentado e triste, abraçava as pernas contra o peito, apoiando o queixo num dos joelhos enquanto parecia chorar.

Algo me fez aproximar.

– Onde estão seus amiguinhos? – perguntei, me agachando.

Ele chorava. Senti algo estranho quando ele me fitou. Fiquei tonto. Olhei em minha volta e tudo parecia que havia mudado; estava num parque, naquele mesmo parque que dava entrada ao zoológico; a voz de crianças se misturava ao som que saíam dos alto-falantes pendurados nos postes de madeira. Dezenas de crianças brincavam em gangorras, balanços de ferro ou subiam em casinhas de madeira para descer num escorrego. Eu suava, não entendia o que acontecia quando percebi um grupo de crianças. Sete talvez. Eu estava entre eles. Corriam todos para a bilheteria quando vi que eram amigos de infância, da minha infância; pareciam eufóricos por estar ali, prontos para entrar no zoológico recém-inaugurado, todos se remexiam afobados, menos eu. Pus a mão no bolso e não havia dinheiro, nem se quer uma moeda. Todos zombavam de mim, falavam coisas. Eu chorava, pedia algo, mas eles não me ouviam. Não queriam me ouvir. Quando entraram no zoológico sentei num meio-fio e chorei por saber que papai nunca me levaria pra ver o leão, muito menos me daria moedas. Fiquei ali chorando por quase duas horas esperando meus amiguinhos voltarem.

Dei-me conta que estava agachado na frente de um garoto que abraçava suas pernas chorando. Sentia meu coração apertado, como quem quisesse estar naquele mesmo jeito. Foi nesse momento que percebi o que na verdade os olhos daquele garoto refletiam.


Arquiles Petrus – 
Escritor membro da
Academia Vitoriense de Letras

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Fim de Semana Cultural:
Crença (poesia) – Por Egidio T. Correia

É preciso crer
Que o trabalho dignifica,
Que o amor constrói.
É preciso crer
Que cada obstáculo é apenas um teste
Para sua capacidade.
É preciso crer
Na sua força, na sua raça.
É preciso crer Que ser justo é justo.
É preciso crer
No que você crer
E siga em frente!

Egidio T. Correia é poeta,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
DIAS DE OUTRORA (poesia) – Por Valdinete Moura

Não “meninos carvoeiros”.
Eram homens que traziam
pequenas sacas de carvão
em lombos de burros
amarradas em cangalhas.

Isto foi em um tempo
em que a vida corria sem pressa –
nem corria –
andava devagar cumprimentando os vizinhos,
se inteirando da saúde dos doentes
e, quando um bebê nascia,
se anunciava “um criadinho às ordens”.

Valdinete Moura é escritora,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Como eu nasci – Por Sosigenes Bittencourt

– Papai como é que eu nasci?

– Muito bem, meu filho, um dia tínhamos de ter esta conversa. O que aconteceu foi o seguinte: eu e sua mãe nos conhecemos num desses chat’s da net. O papai marcou uma interface com a mamãe num cibercafé e acabamos conectados no banheiro. A seguir, a mamãe fez uns downloads utilizando o hardware do seu pai e, quando estava tudo pronto para a transferência de arquivos, descobrimos que não tínhamosfirewal instalado. Como era tarde demais para fazer esc, o papai acabou por fazer umupload com a mamãe de qualquer modo. E aí, nove meses depois, o vírus apareceu!

Sosigenes Bittencourt – Escritor vitoriense.

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Fim de Semana Cultural:
Adeus (poesia) – Por Valdinete Moura

Ai, essa ânsia que aperta
o coração
e faz tecer esperanças desavisadas.

Afagos antigos
lembranças. Partida.
Coração batendo forte
alma despedaçada.
Líquida cortina desfoca
o corpo
de quem cedo vai.

Último aviso.
Turbinas roncando.
Acenos. Adeus.

E uma ânsia tecendo
esperas desesperadas.

Valdinete Moura é escritora,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
E NÓS “VAMOS FAZER O QUÊ?”(poesia) – Por Egidio T. Correia

Esse nosso mundo velho
É um balaio sem cipó;
Têm apaixonados por novelas
Vivendo nos reinados dos ”Blogodós”.
Já no mundo da bola
Há quem brigue por futebol.
Quem gosta de bruxarias
São amantes de catimbó.
Têm outros porém – do “rala-rala”
Que se esbaldam no forró.
Pescadores que fantasiam
Mentem torto feito anzol.
Quem gosta de uma “birita”
Bebe de fazer dó.
Religiosos fanáticos
Sofrendo mais do que Jô.
Têm aqueles que usam droga
Mergulhados no loló.
Têm saudades de amores ruins
Amargando que nem jiló.
Dizem Que “CADA CABEÇA É UM MUNDO”
O certo é, QUE EXITEM MUITAS CABEÇAS
Pensando bem diferentes
INSERIDAS NUM MUNDO SÓ.

Egidio T. Correia é poeta,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Amnésia (poesia) – Luiz Reinaux (postumum)

Até que provem o contrário
Não estou aqui
Nunca estive
Acredito!
Acredito acreditar
E por fim afirmo
Aqui não devo estar
E não duvido
Pois não me lembro.

Luiz Reinaux (postumum) foi um jovem escritor vitoriense.

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Fim de Semana Cultural:
Outros Tempos (poesia) – Por Marconi Melo

Quando te vi
Apressada estavas
Nem te lembravas
De voltar a um tempo

Olha meu rosto
Os campos
As flores
Doces eram os teus amores

O medo,a vondade
O desejo que unia
A minha e a tua
Vida em uma

Fala. canta
Faz soar aquelas
Melodias
Que pra mim fazias

Em noites escondidas
Nos dias de passeios
Encostado a teu seio
Teu coração avistou

Outros tempos
Outra roupa
Mas no fundo, o cheiro
O mesmo perfume

Faz sentir, faz se ver
0 mesmo amor
Escondido em uma dor
Doido para renascer

Não aborta
Deixai viver
É um sentimento
Que viaja com o tempo

Lembranças, saudades
Em mim a vontade
Em ti a timidez
De ser minha outra vez

Marcone Melo – É poeta vitoriense.

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Fim de Semana Cultural:
DIMENSIONAMENTO (poesia) – Por Egidio T. Correia

Uso o metro
Para medir uma área quadrada.
Uso quilômetros
Para medir extensão das estradas.
Com pluviômetro eu sei
Qual intensa foi – a enxurrada.
São os altímetros os medidores
De uma montanha escalada.
Paquímetros eu uso
Para medir as polegadas.
Durômetros medem dureza
De uma peça fundida ou forjada.
Relógios de vários modelos
Dão-me conta das horas passadas.
Tacômetros e velocímetros
Diz-nos sobre a velocidade adequada.
Tantos aparelhos são feitos
Para as medições determinadas.
Só não encontro com que medir
Quanto amo ou estou sendo amado
Pela pessoa amada.

Egidio T. Correia é poeta,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
Uma Poesia – por Rildo de Deus

Lembro-me daquele dia. Faz tempo.
Antão do Egito tinha ido me visitar.
Contou-me da estória de Dédalo fugindo pelo ar.
Chico. O velho Chico recitava: CHUÁ-CHUÁ!
Na fumaça do cachimbo
Sete vezes um barco pintava lá.

Terra seca, o sol a queimar
Gotas de cera pingavam do alto.
Caiam no rio como se o sol tivesse a chorar.
A água ficou azul cor de mar e
As telhas lá de casa começaram a estralar.

Caiam pedaços de cera, pena e papelão
E depois nunca mais nevou no sertão.
Logo menos era Ícaro caindo com a cabeça no chão.
Antão tinha água do Nilo.
Eu tirei cacimbão.
Jogamos na cara de Ícaro e começou-se a confusão.

Rildo de Deus é Escritor e Estudante de Filosofia da UFPE

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Fim de Semana Cultural:
Dois Pássaros (poesia) – Por Rosângela Martins / Foto por Marcus Prado

Foto: Marcus Prado

Ocultos pela escuridão da noite, amantes e amados se encontram.
Num ritual de conquistas, frases bonitas, presentes que compram…

Para distrair o cansaço, uma boa garrafa de vinho.
E assim, detalhe a detalhe, constroem o seu ninho.

Nada ou ninguém para testemunhar.
É hora de sorrir, de sentir, de sonhar…

E tendo a lua como abajur e a brisa como manto,
O amor se faz, rompendo o silêncio, num doce canto.

O dia logo amanhece com seu pudor recomposto.
Na pele, o cheiro; na boca, o gosto.

Livres outra vez, se despedem abraçados.
Prontos para voar por seus caminhos já traçados.

Poesia: Rosângela Martins é Poeta.
Foto: Marcus Prado é Jornalista e Fotógrafo.

Fim de Semana Cultural:
A Minha insatisfação e sorte (poesia) – Por Darlan Delarge

A incompletidão dos desterros
É o vácuo na imensidão dos meus erros.
Tenho a parideira injustiça no peito
Completada por um destino mal feito.

É a sorte que me invade a alma
Sorte, e que incompleta sorte!
Tenho vida e o outro Eu tem morte,
Tenho amor e o outro Eu quer amar.

Faço do meu destino brando, claustro,
Uma figura máxima do desagrado
Por querer um Sol inalcançante.

Insatisfeito sou, por que sigo um rastro,
D’um ser luminoso e acetinado,
Detrás de um astro chamejante.

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

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Fim de Semana Cultural:
Anoiteceres – (crônica) – Por Sosigenes Bittencourt

Anoitece em Vitória. Anoiteço em Vitória. Sou figura noturnal, viajante do ocaso, sonhador como o crepúsculo vespertino, morto de saudade como o final. De olhos vendados, conheço o cheiro dos bairros, dos becos, do meio do mato de minha cidade natal. O cheiro de fumaça, de migau, de chuva. Sou todo olfato e lembrança. Conheço os trejeitos do meu lugar, os cabelos perfumados, os enxerimentos, o flerte e o gozo. Minha cidade é todinha uma mulher. Chamar-se-ia Vitória das Marias, Maria das Vitórias, tal como é.

Anoitece em Vitória. Anoiteço em Vitória. Saio para passear, impregnado dos prazeres noturnos, das eras do meu tempo, que me viciam e me saciam. Minha cidade muda todo dia, mas não muda o meu sentimento, o fascínio elaborado pela memória, como quem ama o que odeia e odeia o que ama, num jogo de perde e ganha.

Anoitece em Vitória. Sobretudo, anoiteço em Vitória. Enlouqueço em Vitória. Porque ninguém entende o que em nós nem conseguimos explicar. Vitória, meu berço e minha tumba. Minha alma noctívaga vai enredando sua história. O acaso me espreita, a surpresa me seduz, sua bruma, sua luz. Alucinações e desejos, rimas em ‘ina’, adrenalina, serotonina, dopamina. Ah! Vitória, dos meus idos e vindas de menino, minha menina!

Sosigenes Bittencourt – Escritor vitoriense.

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Tempo Voa Documento: 1º Edição de “O Grito”

Recebemos da professora Valdinete Moura, internauta assídua de nosso blog, a primeira edição do boletim literário “O Grito“, editado no final dos anos 80.

Apoiadas pela Professora Valdinete, as então alunas Cristina Francelino e Marize José da Silva do curso de Letras, da Faculdade de Formação de Professores da Vitória, atual FAINTVISA, editaram o boletim, que circulou em vários números, pelos corredores daquela faculdade.

Disponibilizaremos, no Fim de Semana Cultural, algumas de suas edições, para o deleite dos apreciadores da literatura. Fique ligado.

Fim de Semana Cultural:
O Zé e seu amigo Mauro (conto) – por Arquiles Petrus

Caminhando pela pracinha, e seu amigo Mauro conversavam:

– Oh Zé… até tento, mai num intendo essas coisa que ocê diz…

– Tai falando de que coisa, rapai? – Retrucou Zé.

– Essa coisa, Zé, de não existir certo ou errado… como pode?

– Mai, Mauro, tudo é as duas coisa… – responde dando um sorriso.

– Tudo?! Tai ficando doido, homi de Deus?

– Mai, é sim, seu condenado, tudo pode ser certo e errado.

– Zé! Come que uma coisa pode ser duas, Zé? Tu tá é doido…!

Logo à frente, uma árvore atrapalhava o caminho. Dela, Zé pega uma folha e mostra ao seu velho amigo:

– Tai vendo essa fôia?

– Sim… tô…

– Qualé a cor?

– É verde, ué?! (…)

– E se eu ti dizer que é azul?

– Mai, tai ficando zureta é, Zé? Ou tu tá cego, homi?

– Mai, é de verdade, Mauro. Expia só.

Zé levanta os braços e chama o seu neto de apenas quatro anos:

– Zezinho, achegue…

O moleque, de cueca e barriga d’água de fora, chega nas carreiras:

– Vôinho!!! – disse ele agoniado – Baleia qué me morder oía! Bate nele, vôinho, bate!!!.

– Se achegue… – pegou-o e pôs no colo. – Expia essa fôia, fio… Diga pro Tio Mauro a cor dela.

– Mai, vôinho… – parou o choro, passando o braço de um canto a outro, limpando o nariz – né azul? Vóinha me insinô que as fóia de mato é azul, alembra?

Zé apenas dá sorriso para seu amigo.

– Tai vendo tu, Mauro? É tudo mode a gente vê… depende de como nosso ôio vê.

Mauro demonstra ainda estar confuso.

– Tai vendo aqueles doi de mão dada? – Continua Zé.

– Tô, Zé, quê que tem os namorado? – Pergunta Mauro intrigado…

Zé continua a caminhada, e, dando um sorriso, põe uma das mãos no ombro do amigo, dizendo:

– Tai vendo tu, di novo?  É tudo mode a gente vê, homi… num tô dizendo!

Mauro se sente confuso…

– Ali, Homi, são irmão do mermo sangue… – Continuou Zé. – Achega aqui pega Zezinho, que vô mijar.

Arquiles Petrus – Escritor vitoriense, membro da
Academia Vitoriense de Letras.

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Fim de Semana Cultural:
Rodopio (poesia) – Por Valdinete Moura

Na roda da vida
eu danço gigante
querendo encontrar.

Quem dera ser ave
com ossos e asas
podendo voar.

Quem sabe sereia
pele e escamas
pra te namorar?

Ou então pensamento
de luz ou saudade
e muito sonhar.

Melhor ser eu mesma
com nervos e alma
tentando acertar.

Valdinete Moura é escritora,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

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Fim de Semana Cultural:
O Sentido da Dor (poema) – por Elmo Freitas

O Sentido da Dor

Hoje eu tive a leve sensação de flutuar…

Tranquei-me em meu quarto e quando pensei
Que não suportaria a dor
que sobre caía em minha cabeça:
Adormeci…

Depois, não lembro muita coisa,
apenas um entorpecimento possuindo
minhas entranhas e elevando-se pela alma.
Eu não sabia que estava acontecendo, mas tinha a certeza de que
não estava morto, pelo contrário, sentia como se uma semente
de energia e vida brotasse dentro de mim.

Jamais havia sentido tamanho êxtase…

Contudo, o período de dor e inferno que vivi,
me levou a compreender uma coisa:
O sentido da dor.
Sim! Agora eu posso entendê-la. Sei qual a sua essência,
sua primazia e o seu…. O seu tormento.

Sei que ela virá novamente, mas antes…
Quero viver,
Porque é pelo peso da montanha que se mede o tamanho do inferno.

Elmo Freitas – Poeta do “Os Confundidos”

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Fim de Semana Cultural:
Águas da Vida (poesia) – Por Marconi Melo

Cristalina e límpida
suave como a brisa do mar
seu valor é um esplendor
Profundo é  mergulhar

No cantar das chuvas
melodias de todos os tempos
Sinfonia das cachoeiras
Nas quedas ligeiras

Bem perto da beira
Um riacho
Rio e suas corredeiras
Percorre a vida inteira

Nas curvas do destino
Escreve em versos e hinos
Aos abraços dos ventos
uma experiência, uma existência

Nas Águas tranquilas
que no ventre materno
Alimenta, protege é vida
esperança de todos

Recomeçar de novo
Nas Águas da vida
É aprendizado, conhecimento
em cima no firmamento

Embaixo no rio corrente
É dá o melhor da gente
sempre agradecer
a oportunidade de renascer.

Marconi Melo – É poeta vitoriense.

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Fim de Semana Cultural:
Poética – Por Marcelo De Marco

Passeio por dentro do sono
provo dos pomos
negaceio sonhos
ando por fora da ala-
meda
e de vez em quando erro
invertendo os elos
das lexias tônicas
dizendo: ala-meta!
Aparo arestas e recomponho
a letra
pulo
e ponho palavras sem
alcance
deliro ao lance
perfume extenso da orquídea.

Oh, por favor me digam
qual foi o anjo-esperma suicida
que agradou tanto um óvulo-olfato
e foi para um mesmo alvéolo
potássio, fosfato, curva e linha;
sobrevoou tipo… abelha-rainha
polinizando lua-de-mel no deserto
e em pleno sol fotossintético
fez vôos léxicos no prosaico ar.

Marcelo de Marco é escritor, poeta e professor.
Poesia extraída de seu blog.