Fim de Semana Cultural:
Poeminha de burburinho (poesia) – Por Di Ozzi Candido

Foto: APublica.org

Laranjas é um real!
Olha a pipoca: tem salgada e doce!
Vamos levar tia, os morangos são do dia
uma trouxa é três se levar duas faço por cinco!

Joãozinho toca a bola pra mim!
Joãozinho, cuidado com o Tiago logo atrás d’ôce!

Corre, menino! Vai te lavar que o angu
já tá na mesa: pra não esfriar.
Lava somente o focinho e os pés pra não gastar muita água

Será que sou castigado ou bendito?
(Pensa o poeta, atormentado, ouvindo a voz do mundo)
E em seguida verte uma lágrima
Perplexa, humana, compadecida
Uma lágrima para a altura que é viver
Parece até Deus

A vida, como se fosse o mundo inteiro, ladra em seu peito
em sussurros que são gritos mansos.
– A poesia não me deixa em Paz!
(Conclui sorrindo interiormente: para não parecer mesquinho).

Di Ozzi Candido é escritor e poeta,

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
RIO ITAPACURÁ (poesia) – Por Marcone Melo

Vitória do rio Itapacurá
Só de pensar em ti faz chorar
Nas águas de tuas Lágrimas
Olhar tuas margens degradadas

Será que não dói na consciência
Não dilacera a alma,o coração
Esse descaso público,calamidade
Omissão das autoridades

O povo de braços cruzados
Olhos fechados,nem que precisasse
Outra hecatombe do rosário
Pra despertar essa gente parada

Nele brilhar,gotejar água cristalina
Seria revitalizar, renascer outra vez
Peixes voltassem à viver
Mergulhar, o prazer de nadar

Oh! meu querido Itapacurá
Tanta tristeza me dá
ao vê-lo chegar o fim
Secar tuas imensas riquezas

Nas águas que banhavam-se
Homens,crianças,aquela juventude
Que hoje faz Lembrar
Da infância no rio Itapacurá

Quantas Lembranças boas,lavadeiras viam-se lá
Naquele rio gostoso
Alívio das tardes quentes
Saudades do antigo rio Itapacurá

Onde as mães diziam
Meninos cuidado com o rio
Não sabiam elas
Que faziam profecias

Aquelas palavras que proferiram
A morte do Itapacurá
Lentamente, excrementos
Caldas nele jogaram

Olha meu povo,ele merece viver
Deixar à vida florescer
Esperança de nossa força
Esse sonho com vontade realizar

Vê o Itapacurá de novo
Ser o gigante da terra das tabocas
Nele pescar e brincar
Saciar a sede do povo

Sede de justiça
Vê o rio Itapacurá ser orgulho vitoriense
Na terra de gente brava é covardia
Não lutar pelo Itapcurá

É o que toda gente sente a falta de mergulhar
No rio Itapacurá nele abrirá
Inconsciente coletivo à clarear
As pedras falantes de seu leito

A beira do Itapacurá
Em noite de luz da lua cheia
Quantos casais foram namorar
Quantos beijos dados lá

Quantas histórias desse rio Itapacurá
Existe pra contar
Mas o que hoje importa
É o Itapacurá salvar.

Marcone Melo – É poeta vitoriense.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
A Poesia Natural – Por Sosigenes Bittencourt

Lembro-me de quando viajava para o Recife, de manhã,
e retornava à noitinha.
O cheirinho de mato, o vento assanhando o meu cabelo,
eu, com o rosto pálido, olhando para as serras.
As árvores pareciam mulheres nos cumprimentando.
Eu tinha cabelo naquela época, era desintoxicado naquela época, sentia frio.
Com a cabeça na janela do ônibus, ninguém sabia que eu fazia poesia.

Sosigenes Bittencourt – Escritor vitoriense.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
Misturas (poema) – Por Egidio T. Correia

Misturamos e trocamos
As salivas em cada beijo.
Comemo-nos e saciamo-nos
No vil desejo.
Somos cúmplices caprichosos
Morrendo e renascendo em cada beijo.
Se é justo, sagrado ou profano,
Impróprio, imoral ou sacrilégio.
Atire a primeira pedra
O puritano.
Entre culpas, remorsos e desatinos,
Não sou homem adulto ou menino.
Julgamentos precisos ou imprecisos
Que se façam.
Se o sabor da vida é criminoso
Sou réu confesso e condenado,
Perante as correntes e amarras do destino
vivo acorrentado.

Egidio T. Correia é poeta,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
Crepúsculo em Vitória (Fotografia)
Por Arquiles Petrus

Foto: Crepúsculo em Vitória (clique na foto para ampliar).
Clicada em 06 de Setembro de 2012 – 17h16 por Arquiles Petrus.
Ponto de visão: Praça Leão Coroado, em direção ao Livramento.
ISO 100 – Obturador: 1/1000 seg  – Diafragma: F42 – 34 mm

Foto: Crepúsculo em Vitória (2) (clique na foto para ampliar).
Clicada em 06 de Setembro de 2012 – 17h12 por Arquiles Petrus.
Ponto de visão: Praça Leão Coroado, em direção ao Livramento.
ISO 100 – Obturador: 1/500 seg  – Diafragma: F41 – 34 mm.

Arquiles Petrus – Escritor vitoriense, membro da
Academia Vitoriense de Letras.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
Adeus (poesia) – Por Valdinete Moura

Ai, essa ânsia que aperta
o coração
e faz tecer esperanças desavisadas.

Afagos antigos
lembranças. Partida.
Coração batendo forte
alma despedaçada.
Líquida cortina desfoca
o corpo
de quem cedo vai.

Último aviso.
Turbinas roncando.
Acenos. Adeus.

E uma ânsia tecendo
esperas desesperadas.

Valdinete Moura é escritora,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural: Aline aos 15 anos (Fotografia)
Por Arquiles Petrus

Foto: Aline aos 15 anos (clique na foto para ampliar).
Clicada em Agosto de 2012 – por Arquiles Petrus.
ISO 400 – Obturador: 1/30 seg – Diafragma: F4.5 – Distância Focal: 30mm
Make Up: Diane Rennes

Foto: Aline aos 15 anos (2) (clique na foto para ampliar).
Clicada em Agosto de 2012 – por Arquiles Petrus.
ISO 800 – Obturador: 1/60 seg – Diafragma: F4.7 – Distância Focal: 49mm
Make Up: Diane Rennes

Fim de Semana Cultural:
Entidade (poesia) – Por Di Ozzi Candido

Quero que a entidade que é o amor se aposse de mim.
Assim: o amor puramente amor.

Sem os olhos, sem as bocas a me comerem Sem os pés a me chutarem…
sem as mãos.

Quero que o amor seja uma pele que a entidade que sou: habite.
Quero esquecer do resto. Porque depois do amor, tudo é resto.

Serei eu para o amor, e o amor para mim.
Espelhos velhos: com os nervos entrevados, com as gargantas secas com os sexos extintos.

Mas o tempo é grave, às vezes, até, prepotente.
Eu quero que a entidade que é o amor se aposse de mim.
Quero ser possesso de amor, e d’ele, jamais exorcizado.

Porque eu quero amar o mundo: as folhas secas, o maturi do cajueiro, quero amar, voraz, meu inimigo.

Vem amor, eu te invoco, eu te prometo, eu te alisto…
Destrói a guerra que sou, pisa em meu dorso, ergue-te sobre minha face languida de Deus.

Eu quero que a entidade do amor me possua: eu que tenho o coro negro eu que já nasci predestinado a servir-te.

Di Ozzi Candido é escritor e poeta,

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
– Papai como é que eu nasci? – Por Sosigenes Bittencourt

– Papai como é que eu nasci?

– Muito bem, meu filho, um dia tínhamos de ter esta conversa. O que aconteceu foi o seguinte: eu e sua mãe nos conhecemos num desses chat’s da net. O papai marcou uma interface com a mamãe num cibercafé e acabamos conectados no banheiro. A seguir, a mamãe fez uns downloads utilizando o hardware do seu pai e, quando estava tudo pronto para a transferência de arquivos, descobrimos que não tínhamos firewal instalado. Como era tarde demais para fazer esc, o papai acabou por fazer umupload com a mamãe de qualquer modo. E aí, nove meses depois, o vírus apareceu!

Sosigenes Bittencourt – Escritor vitoriense.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
Soneto Sem Essência (Soneto) – Por Ubirajara Carneiro da Cunha

Ao ser que se oculta atrás da porta,
Jamais aberta a venda de passagem,
Da linguagem em que a verdade aborta,
Não busques se não estás na outra margem.

Do rio em cada curva detém o seu curso
Para embarcar os incautos candidatos ao ideal,
Que, não disponho nem de bússula e um recurso,
Desesperam com as absurdas respostas do real.

Pois o dia cruel e inclemente te espera
Com a luz bastarda e órfã da essência
Para fazer dos teus sonhos uma quimera.

Daí recolher-me a tudo que acena
Apenas com as rudes mãos da existência,
Pois, sem ser, o ser não vale a pena.

Ubirajara Carneiro da Cunha é Advogado, poeta e escritor vitoriense.

Fim de Semana Cultural:
Caminhada Fugaz (poesia) – por Luciene Freitas

Cortando o céu, num clarão, a vida fugaz,
tal Via-láctea incandescente, bela,
no compasso pulsa. Efêmera luz que apraz!
Expande-se, pelo universo se esfacela…

Passa entre os astros e laços de ternura
em suaves voltas une almas, paralelas.
O amor em esplendor navega… à ventura
entre anjos. Crianças riem, serenas, singelas.

Corre a vida, corre contra o tempo,
marcando faces, machucando almas
na jornada fugaz, tal qual o vento,
entre megalegorias de estrelas… vagas.

Meditável tempo: estradas, veredas, ruelas…
onde há coroas de louros ou de espinhos.
Auroras, ocasos, dão matizes a aquarela
que se desenvolve na dureza dos caminhos.

Passa o Sol, a Lua, passam nuvens de carmim,
noite, dia. Vertigem! Tudo se acaba!
Céu ou inferno? Guiados por um Serafim
passamos, rumo ao tudo ou rumo ao nada.

ltos 
Certificado da Academia Petropolitana de Poesia Raul Leoni. Petrópolis / RJ. 19-10-2002.
 

Luciene Freitas é Escritora vitoriense, autora de dezenas de livros,
entre adultos e infantis.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

 

Fim de Semana Cultural:
Bem-te-vi morre! Vi-viu-tetéu? (poesia) – por Rildo de Deus

Era uma vez um pássaro que nasceu nos tempos vindouros da humanidade
Quando ainda existia bicho desconfiado.

O pássaro cresceu e mostrou-se transformista
Teve cores de canário do império, galo de campina, patativa, craúna, azulão…
ROUXINOU, CABOCULINHO
Sabiá, joão-de-barro, periquita
Chegou a hora

Quis virar papagaio e capitão.

Levou uma pancada no juízo e desandou da evolução.
Bebeu veneno como elixir
O pássaro mítico girou no sol sem razão
Encontrou o mar Pânico
E não se tornou canCÃO

Agora é Bem-te-vi que maravilhas!
Tem a chave de onde mora
Também medo de arpão
Não sabe o caminho ao continente

Abre a janela pra luz entrar;
Fecha de noite
Assim tia coruja jamais chegará

Finalmente estufa o peito
jazigo perfeito
Pra morte murchar

Rildo de Deus é Escritor e Estudante de Filosofia da UFPE

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
Os Medos da Paixão (conto) – Por Valdinete Moura

Classificação: texto de ficção não indicado para menores de 14 anos.

Não era assim que queria. Não assim: estômago embrulhado, boca amargando, cabeça rodando. Não assim. Bêbada. Difícil acreditar. Sempre tão certinha, comportada e agora, bêbada. Bêbada como uma qualquer. Qualquer Fulana dos becos e ruas da lama que existem por aí. Sou bêbada chique, conseqüência do uísque escocês do mais puro, moro em um apartamento luxuoso em Copacabana. Nem por isso menos bêbada, menos enjoada… Enjoada de mim, da vida, do mundo… Esse mundo é uma porra! Pronto, disse. Uma bêbada é o que você é e, além de bêbada, pornográfica. Não se envergonha? Jamais pensei que um dia, minha filha… Meu Deus, só falta me chamar de puta. Não, mamãe, não diga assim… Se soubesse, chamaria, talvez até não quisesse mais me ver. Não fale assim, mamãe, eu estou sofrendo. A verdade é que estou bêbada. Nunca fiquei assim antes… só uma pequena dose, socialmente. Pro diabo com o social, estou bêbada e sozinha, ninguém viu quando roubei a garrafa. Quando meu irmão descobrir… na sua festa. Ora, que se fodam todos: meu irmão, minha mãe, todo mundo, o mundo também. E eu de quebra. Que está acontecendo comigo? Nunca usei essas palavras. Mentirosa! Usar, usou, só não falou. Se peca por pensamentos, palavras e ações. Se pensou, pecou. Porra para vocês também. Todos os que enfiaram essas coisas na minha cabeça. Não quero chorar; não, meu Deus, que papel ridículo estou fazendo: bêbada e toda desalinhada. A roupa nova que custou os olhos da cara naquela butique nova, como é mesmo que se chama? A tal butique? Sei lá, qualquer uma chique da Zona Sul. Que se dana a tal butique junto com todo o bairro. O Rio de Janeiro todo. A maquiagem deve estar toda borrada. Não quero… não quero chorar, ficar horrível: bêbada… chorona… bobona… meu Deus, que coisa feia. Feia, coisa nenhuma, feio é o que fiz. Como fui fazer aquilo? Deve-se fugir da ocasião de pecado. Como, se o pecado é tão atraente. O diabo toma formas atraentes para tentar. Para o inferno com o demônio… não acredito em demônio, nem em inferno… inferno é agora… o meu. Merda, estou chorando, estou horrível, não quero, felizmente ninguém me vê. Como pode ver, se fugi, enganei todo mundo, queria ficar só, roubei o uísque. Mentira, não quero ficar só, quero colo, alguém para me consolar, quero meu irmão, ele pode. Quero esquecer, foi tão bom e durou pouco, tão pouco… parecia tanto, tão bom, divino. Por que digo assim? Não devia. É sacrilégio usar o nome de Deus em vão. Ainda mais se tratando de coisa assim. Foi divino, sim. Divino ser puta?  Assim que me chamava, sua putinha. Que vergonha, meu Deus. Era tão bom, tão bonito, ficava tão feliz! Menos quando me chamava de putinha, mesmo assim, com carinho, fiquei não sei como, humilhada, ofendida, não sei. Não disse nada, sentia vergonha. Igual às mulheres da rua da Lama  que passavam em frente à casa de vovó, lá no interior. Mamãe não falava com elas, nem vovó, nem as senhoras de respeito, se falavam, usavam um tom de superioridade para mostrar o lugar de cada uma. E agora eu me sinto tão mal, tonta. Tonta e chorando, não consigo parar de chorar. Deus, queria gritar, preciso. Queria morrer. Aí, acabava tudo. Mamãe não ia saber de nada e o povo ia dizer coitadinha! Morreu tão nova! Bebeu demais, não tinha costume. Ninguém, ia ficar sabendo de nada. Ninguém sabe; só eu e ele. Ela, será que sabe? Sabe nada! Ele não ia dizer a mulher que ele… que nós… ai, que vergonha! Vergonha, você nesse estado. Não conhece seu lugar? Uma moça de família, mamãe, não mudou nada… quer dizer, quase nada. Ai, meu Deus, não quero pensar, não quero lembrar; ele com ela como se não me conhecesse, tão seguro, como se nós não… Não posso esquecer os dois daquele jeito. Tão apaixonados e eu… pensei que ia morrer, cair ali mesmo e ele tão seguro. Não quero lembrar, não quero. Se ao menos eu dormisse antes que alguém chegasse aqui, era como se morresse. Mamãe ia ficar assustada. Que me importa, só me importa eu agora, o resto que se dane, se foda, se qualquer-coisa-de-horroroso, qualquer coisa. Eu quero dormir, esquecer, passar a ressaca. Não quero morrer, ninguém morre disso, tão bom… apesar… sua putinha. Ninguém ficou sabendo, isso passa. E se souber? Merda pra todo mundo, merda pra elite carioca. Bom falar assim. Pensar. Livre. Vou dormir… respiro fundo, isso passa, amanhã é outro dia, respiro fundo, durmo, não estou mais chorando, só com a cabeça doendo… respiro fundo, passa, durmo, respiro… durmo… passa… merda pra…  ZZZZZZZZzzzzzzzzzz…………….

* Conto integrante do livro “Mulheres na Chuva” pela Ilumine Editorial.

** Ilustração de Jack SoulFly, artista vitoriense.


Valdinete Moura
 é escritora e poetisa,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural: Quem Ti Guiará Victoria? (poesia)
Por Eliomar Vasconcelos

Do orebe…do sinai,
No mais oculto cimo do imaginário,
Estarás sempre tú, Victoria.
E o histórico orgulho de teu povo victoriense,
Tão sofrido e tão guerreiro,
Se erguerá de novo!
Tal qual a fênix!

Quem ti guiará Victoria?

Em frenesi, toda a multidão às praças se aglomeram.
Seria o renascimento da ágora grega?
Teu líder não se desespera.
Em seu porte nobre,
Descobre indícios de dúvida e receio.
O povo amedronta-se! Tem medo!
Chora e grita!
Seu líder, não.
Impávido, ostenta sua serenidade usual.
E, em frase altiva e de brio,
Afugenta seus inimigos.
O povo vai ao delírio!
Em meio a ruidosos clarins,
Ergue seu velho estandarte medieval.
O povo ajoelha – se solenemente
E,
Reza.

Quem ti guiará Victoria?

Mais além, na alta câmara,
A vereança, loquaz, verbaliza o ilógico.
Os pares infernais,
Sobem em seus tronos,
Adornados de utópias inelutáveis.
Ali, se assentam em cadeiras de ouro,
Os girodinos que tramam contra os sans – culottes.
Os párias contemporâneos,
Observando os vultos de tamanha grandeza,
Silenciam e sofrem.
Estão à margem da história…

Quem ti guiará Victoria?

Em meio à turba, surge um servo…
O povo fica atento ao que vai acontecer.
Eloquente, fala ao povo, em sentido metafórico…
“ o populismo político (lembra de teus coronéis?)
Reside na deficiência intelectual de seu povo.
E, este povo, victoria, sonha com dia de sua independência.”

Porque – “… El sueño de la razon produce monstruos.”

Quem ti guiará Victoria?

Quem?

Eliomar Vasconcelos é Professor e Escritor vitoriense.

.Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
NO AUGE DA MINHA DOR (Conto)
Por Rosângela Martins

Foto ilustrativa – autor desconhecido

O vento começou a sacudir janelas e a espantar paredes. Um vaso, presente de uma velha tia, fez-se em pedaços. Antes que os estragos aumentassem, fechei as janelas de cortinas curvadas, como bandeiras abandonadas à sorte e ao vento.

No chão, cacos dos desenhos de uma porcelana antiga pediam-me atenção. Enquanto cuidava silenciosamente do destruído, ELE permanecia estendido no sofá da sala como um lençol recém retirado do varal. Foi confortável aproximar-me DELE.

A chuva caiu fazendo-me voltar aos tempos alegres. Conhecemo-nos desde crianças e nunca brigamos. Foi amor à primeira vista. Até o momento, estávamos sendo muito felizes.
ELE, agora, mal falava. Não precisávamos de palavras para compreendermos um ao outro. Apenas me olhava com seus olhos ultimamente cansados e cheios d’agua. Era da doença que tinha tomado conta do seu corpo. “É só um resfriado que logo logo vai embora”, dizia-lhe tentando acalmá-lo com minhas palavras de consolo.

ELE tossiu juntamente com um relâmpado que despontou lá fora, parecendo uma faísca saída do estalar de duas poderosas espadas, lutando pela vida. Senti medo, pensando que a hora tinha chegado. Senti um nó na garganta e uma lágrima foi rejeitada por meus olhos, descendo pela minha face pálida de menina abandonada no mundo. Depois outra, outra e mais outra, até que o nó se desfez e a cachoeira parou de jorrar. Lá fora, a chuva continuava.

Por um momento, achei que alguém bateu à porta. Ao abrí-la, o vento entrou pela casa varrendo a tranquilidade e ELE tossiu outra vez. Desta vez, mais forte. Parecia a morte em cobrança. Fechei desesperadamente a porta e a tosse parou. Imaginava estar trancando lá fora a inimiga e não deixaria que ela entrasse e me arrancasse o que tinha de mais precioso na vida.

ELE  dormiu. Eu, não. Fiquei pensando em como Deus estava sendo injusto comigo. ELE não podia morrer.

O dia estava anoitecendo. A chuva havia parado e já se podia ouvir o canto longínquo de pássaros que se preparavam para fechar a tarde. Aqui dentro, ELE ainda dormia. Lá fora, ela esperava, impiedosa, sem ao menos levar em consideração a nossa vida de casal jovem feliz e apaixonado. Mas, apesar de relutar tanto, eu sentia que a hora estava próxima.

A respiração DELE aumentou, até que abriu os olhos. Beijei, então, seus lábios com tanta  ternura, implorando por um milagre. Desconhecendo a realidade, aceitou-o. Com um leve sorriso, seus olhos fecharam-se para que nunca mais eu os fosse ver brilhar.

Levantei e abri  a porta. Ela finalmente entrou, o levando de mim.

Minha dor aumentava cada vez mais, como se uma faca estivesse cravada em meu peito. A vida fora curta mas cheia de alegrias.

Veio-me outra vez o nó, mas não deixei que este se apertasse. Expeli com rancor todo o meu sofrimento. Tinha que deixá-lo, tinha que ter coragem. Quando ELE acordasse, se acordasse, ELE  iria entender que a sua hora final chegara.

Já podia imaginar-me à frente de um caixão: o vento arrastando as folhas secas e soltas pelo chão que, depois do enterro, seriam suas únicas companheiras. Insuportável era vê-lo morto. Nunca a vulnerabilidade da vida passou pela minha cabeça.

Em mim, os sentimentos se confundem e a realidade ainda não se definiu em forma ou extensão facilmente compreensíveis.

Não vivo sem ELE. Morro com ELE.

Rosângela Martins é escritora e poetisa.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br

Fim de Semana Cultural:
Soneto ao meu avô Severino (poesia) – por Darlan Delage

Soneto ao meu avô Severino

Caiu em tuas dores uma mortalha preta.
Caiu e te levantou em noite sexta.
O alivio de tuas dores sobre a solidão
Te fez liberto de um tortuoso colchão.

Caiu contigo a ponte do meu destino
Mas tua base rígida manteve-se erguida.
Foi boa, ao teu lado, minha infância vivida.
Hoje, em dia triste te vejo Severino.

Foi seguido em cortejo, por familiares e amigos
E eu a carregar meus pesados dissabores.
No caminho ao São Sebastião

E hoje sigo teu caixão, num cortejo sem flores.
Na infância me carregaste no colo como filho
Hoje fui eu seu neto-coveiro, um dos que te carregaram.

Darlan Delage – Poeta “Os Confundidos”.

Você também é escritor, poeta ou compositor vitoriense? Envie o seu texto para ser publicado no fim de semana cultural. E-mail: contato@blogdopilako.com.br