Momento Cultural: BOLSO DE MENINO – Por Albertina Lagos

Profª Albertina Maciel de Lagos

– Olá, meu petiz, peralta vadio
escute uma cousa, chegue-se a mim…

– por que está a enumerar
e, cuidadoso a guardar
tanta bugiganga
no seu bolso de “menino levado”,
que só faz diaburas
de ninguém poder mais suportar?
Esvazie o seu bolso.
Quero ver
o que, com tanto egoísmo
colecionou
e nele guardou!

Ó gente!…
o senhor é fiscal
para me “correr”?
não fiz nenhum mal
para assim proceder.

– Não, meu petiz,
apenas quis
que você mostrasse os brinquedos
que o seu bolso contém,
porque o fazendo,
recordo, agora,
o tempo de outrora
quando, como você
era eu menino, também.

– Não se zangue, por isso, amiguinho,
é, com ansiedade
que, movido pela Saudade,
quero ver, se os brinquedos seus
são iguaizinhos aos que foram meus.

– Pois bem, velho amigo do papai,
ser feita, agorinha, vai
a sua vontade…
e, aqui, em suas mãos,
o meu bolso de menino
tão traquino,
recheado de brinquedos
que, só pra você, vou contar
e enumerar

1º) Repare bem: um bonito pinhão
que jogo sem canseira,
com afiada ponteira (joga o pinhão)…
e que, de tanto rodar e zunir (apara-o),
fazendo: zum… um… um!…
parece até dormir,
e, como gente, sonhar, sonhar!

2º) A atiradeira!…
Chi!… com um seixinho
marco o alvo tão certinho
que nada escapa
num tremendo: “bateu, morreu”! (atira)

3º) brinquedo, meu velho
bolinhas de gude!…
ah! nem é bom falar
nas frequentes jogadas
nas calçadas (joga um instante)

4º) Agora vem o realejo!…
outro brinquedo não vejo,
mais divertido,
que faça sambar
e até rebolar
a meninada
desenfreada (toca e samba)

5º) tampinhas de garrafas!…
com elas faço rodas de carrinhos
que se põem a locomover
em disparada a correr (mostra e movimenta um)

6º) brinquedo: – caixa de fósforos para acender
(acende depressa um fósforo)
– Um perigo!… (grita a mamãe
Com fogo, menino, não se deve brincar
Porque um incêndio pode lavrar!)

7º) Agora é a vez do apito!…
Lá, em casa, fica tudo taciturno
quando, imitando o Guarda Noturno,
resolvo, então,
sem a devida licença esperar,
apitar, apitar, apitar, assim: (apita forte)
(continuando a esvaziar o bolso):
– “o restinho nada vale”
filme quebrado
ponta de lápis,
caixa vazia…
– Pronto! Eis, meu amigo,
um bolso recheadinho
de menino levadinho!
– Então, ficou satisfeito?…
– Mas… que vejo?… Que é isto?…
Por que, meu amigo está chorando…
e as lágrimas, assim, enxugando?!…

– É que, também, fui criança,
e, não me sai da lembrança
o tempo que,
como você,
meu petiz,
fui puro, bom,
alegre e feliz!

do livro SILENTE QUIETUDE.

Albertina Lagos

Momento Cultural: Velhice – por Aloísio Xavier

Aloísio de Melo Xavier - Jornal da Vitória ANO XXIII - Nº 153 - AGOSTO 2003 - pág 19

Aloísio de Melo Xavier – Jornal da Vitória ANO XXIII – Nº 153 – AGOSTO 2003 – pág 19

Desafiei o tempo e triunfei.
Há mais e meio século resisto.
Sofrendo, embora, por aqui fiquei,
da vida não me canso e não desisto.

Espectro de gente me tornei.
O padecer me faz quase outro Cristo.
Morreram-me os entes que amei.
Ao meu desmoronar eu mesmo assisto.

Doente está meu corpo alquebrado
E esgotada tenho a pobre mente.
É triste, muito triste hoje o meu fado.

Meu ser, enfim, se encontra aniquilado.
Porém de todas essas aflições
mais me afligem as recordações.

Aloísio de Melo Xavier, vitoriense nascido aos 6 de junho de 1918. Professor da Faculdade de Direito de Caruaru, da Universidade Católica e da Faculdade de Direito da Universidade Federal. Juiz de Direito aposentado. Reside no Recife, porém mantém casa na Vitória, onde passa os fins de semana. Eterno enamorado, ele e a esposa, Profª Eunice de Vasconcelos Xavier, da Vitória de Santo Antão.

Momento Cultural: Caminhada Fugaz (poesia) – por Luciene Freitas

Cortando o céu, num clarão, a vida fugaz,
tal Via-láctea incandescente, bela,
no compasso pulsa. Efêmera luz que apraz!
Expande-se, pelo universo se esfacela…

Passa entre os astros e laços de ternura
em suaves voltas une almas, paralelas.
O amor em esplendor navega… à ventura
entre anjos. Crianças riem, serenas, singelas.

Corre a vida, corre contra o tempo,
marcando faces, machucando almas
na jornada fugaz, tal qual o vento,
entre megalegorias de estrelas… vagas.

Meditável tempo: estradas, veredas, ruelas…
onde há coroas de louros ou de espinhos.
Auroras, ocasos, dão matizes a aquarela
que se desenvolve na dureza dos caminhos.

Passa o Sol, a Lua, passam nuvens de carmim,
noite, dia. Vertigem! Tudo se acaba!
Céu ou inferno? Guiados por um Serafim
passamos, rumo ao tudo ou rumo ao nada.

ltos 
Certificado da Academia Petropolitana de Poesia Raul Leoni. Petrópolis / RJ. 19-10-2002.
 
Luciene Freitas é Escritora vitoriense, autora de dezenas de livros,
entre adultos e infantis.

 

Momento Cultural: TUA PARTIDA – Por Dilson Lira

Dilson Lira - Jornal da Vitoria

À Cléa, adorada esposa.

Ave que parte, gorjeiante e amiga,
por estes céus de lívidos luares,
aonde hei de ouvir os teus cantares?
Aonde tu’alma lírica se abriga?

Aonde ouvirei a rústica cantiga,
que outrora ouvi aos sórdidos pesares,
aonde tu vás, tu queres que eu te siga,
por outras piagas, em estranhos ares?

Não parte, ave, aqui é doce a vida!
A brisa é fresca e é mais quente o ninho,
A mataria é verde e mais florida!

Mas, se partires, aonde quer que fores,
saibas que em mim atravessou-se um espinho,
porque contigo foram os meus amores!

Manoel Dilson Lira da Silva, vitoriense nascido aos 30 de novembro de 1925. Filho de João Manoel da Silva e Maria Lira da Silva. Fez seus estudos no “Ginásio da Vitória”. Poeta nato, tem publicados três livros de poemas. Inteligência lúcida, muito ainda temos de esperar de suas produções poéticas.

Momento Cultural: INTERROGAÇÃO – por Aloísio Xavier

Aloísio de Melo Xavier - Jornal da Vitória ANO XXIII - Nº 153 - AGOSTO 2003 - pág 19

Aloísio de Melo Xavier – Jornal da Vitória ANO XXIII – Nº 153 – AGOSTO 2003 – pág 19

O quadro aqui está em minha frente:
– Tem a Madona meiga e recolhida,
demonstração humilde e reverente
de por amor de Deus ser escolhida.

Para entregar ao mundo eterno ente.
É a Mãe de Jesus, alma querida,
que trouxe à vida um ser tão diferente,
modificante até da humana vida.

Rememoro, Senhora, teu retrato,
quando eu o vi em hora dolorosa,
de que nem ouso fazer-lhe o relato.

A vida de um meu filho, preciosa,
graças a Ti pudemos preservar.
Nossa Senhora, como te pagar?

Aloísio de Melo Xavier, vitoriense nascido aos 6 de junho de 1918. Professor da Faculdade de Direito de Caruaru, da Universidade Católica e da Faculdade de Direito da Universidade Federal. Juiz de Direito aposentado. Reside no Recife, porém mantém casa na Vitória, onde passa os fins de semana. Eterno enamorado, ele e a esposa, Profª Eunice de Vasconcelos Xavier, da Vitória de Santo Antão.

MOMENTO CULTURAL: SERRITA RANCHEIRA – Por Adjane Dultra

Adjane Dutra

Serra o pranto dessa Serra.
Vara o espaço serrador.
Serra das Russas,
Morte dos ruminantes.
Serra o peito dessa terra,
Pra não mais noite matar.
Serra a flor que se encantou na divisa do amor.
Serra a estrela que reluz teu brilho na cor da luz.
Serrita, serra a minha divisa estrela,
A noite que vem soluçar,
A lâmpada acesa no deserto,
Clareia a serra,
Serrita rancheira.
Serra o peito dessa terra,
Pra não mais noite matar.
Sem a flor que se encantou na divisa do amor.

Adjane Dutra

MOMENTO CULTURAL: CORDEL DO CONTRADITÓRIO NÚMERO DEZ – Por Egidio Temótio Correia

egidio-poeta

Esse filme eu já vi
Não precisa me contar
Vem governo e vai governo
E a forma de governar
Também mudam os protestos
E forma de protestar.

Nasci em quarenta e três
E nesses anos que vivi
Assisti a muitas coisas
Sobre outras eu já li
Mas todo mundo contente
É coisa eu nunca vi.

Governos que agradam pobres
Deixam ricos descontentes.
Ricos querem ser mais ricos
A custa de toda gente
E pobres querem ser ricos
Mesmo sem ser competente.

“Nem Jesus agradou todos”
Já diz o velho ditado.
Tem homem que até consigo
Estar sempre inconformado
Querem que governos mudem
Mas não querem ser mudados.

O governante é um homem
Que sai da sociedade.
As virtudes e defeitos
Benevolência ou maldade
Ele aprende quando vive
Na sua comunidade.

Se povo não percebe
Ou se deixa enganar.
Troca o voto por favores
Na hora que vai votar.
Só ensina ao governante
Esse modo de governar.

As reclamações são sempre
O roubo a corrupção,
O desvio de dinheiro,
Má administração.
Vai um governo e vem outro
E a mesma reclamação.

Se não tem eleitor perfeito
Não tem governo também.
Se um povo é mal-educado
Governo educado não tem
Se o povo for desonesto
A honestidade não vem.

Li muito sobre Getúlio
E o famoso JK.
Jânio quadros e a vassourinha
Que tudo ia limpar.
O roubo, a corrupção,
Tudo ia se acabar.

João Goulart assumiu.
E logo foi acusado.
De ser quase um comunista.
Fraco e desequilibrado.
Passeatas, greves e protestos.
Surgiram por todo lado.

Veio golpe militar,
Que comandou a nação.
Foram quase vinte anos
De censuras e cassação.
Muita gente foi exilada
Outros foram pra prisão.

Eu vi nos anos sessenta
Estudantes revoltados
Lutando por liberdade
Confusão pra todo lado
E políticos sendo preso
Ou tendo cargos cassados.

No próximo cordel eu volto
Fazendo a comparação.
Do que hoje acontece
Com aquela época de então
Pra não perder o embalo
No no mesmo cordel eu falo
Da presente situação.

 Egidio Temótio Correia

MOMENTO CULTURAL: QUADRAS – Por Célio Meira

celio-meira

Vejo, de minhas janelas,
três coqueiros, que beleza!
parecem três sentinelas,
no Templo da Natureza.

Bençãos de Deus! Ano Novo!
Sossego, Luz e Bonança;
– Não perca, amigo, na vida,
a semente da esperança.

Um dia, vi uma estrada
algumas rosas de luz…
ouvindo, do Alto, esta voz:
– por aqui passou Jesus.

O avarento, sem bondade,
vive pobre na riqueza,
e quando chega o seu fim
morre rico na pobreza.

Os que passam pelo mundo,
sem amor, sem alegria,
são fugitivos da Fé,
numa triste romaria.

Célio Meira

De “Migalhas de Poesia”

(do livro: ANTOLOGIA DA POESIA VITORIENSE – Júlio Siqueira – 1843-1993  ANO DO SESQUICENTENÁRIO DA VITÓRIA – PÁG 55)

MOMENTO CULTURAL: Entre a Cruz e a Espada – por Severina Andrade de Moura

severina moura

Eu sofro porque sou balança
equilíbrio entre o cheio e o vazio.
Paredão onde acham confiança
homens de bem, mulheres de brio.

Ouço de lá e de cá os desabafos.
Fico no meio, entre a cruz e a espada.
Não quero destruir jamais, os laços
que se criaram em longas caminhadas.

Às vezes sou mal interpretada.
Que importa! Jesus também o foi
Quero ser útil em toda minha estrada

E quando eu me for, quero que digam
nela eu tive uma grande aliada
e se esquecer de mim jamais consigam.

Profª Severina Andrade de Moura, nasceu em Vitória de Santo Antão. Foram seus pais: José Elias dos Santos e Doralice Andrade dos Santos. Viúva de Severino Gonçalves de Moura, com quem se casou em 1962. Fez o curso Pedagógico no Colégio N. S. da Graça. Lecionou em Glória do Goitá e Carpina. Concluiu Licenciatura Plena em Letras em Caruaru (1976). Pós-graduação em Língua Portuguesa na Univ. Católica (1982). Ensinou em várias escolas estaduais e municipais na Vitória e ensina atualmente na Escola Agrotécnica e na Faculdade de Formação da Vitória de Santo Antão. Poetisa por vocação. Colabora na imprensa loca.

MOMENTO CULTURAL: CONTRADIÇÃO – por Aluísio José de Vasconcelos Xavier

Aluízio José

Na cidade, a iluminação frenética
do Salvador, a chegada anunciava
e contrastando com tal paisagem estética
na calçada um pobre negro agonizava.

Era a figura doente de uma criança
filha de um erro, fruto de um pecado
e nos olhos tristes de seu corpo nu, gelado
não se via nenhum fio de esperança.

Aproxima-se dele um maltrapilho.
Toma-o nos braços como a um filho
retirando-o daquele leito de cimento.

Meia-noite, então, anuncia o sino.
E nesta hora exata do Nascimento
morreu, à míngua, mais um Jesus-Menino.

Aluísio José de Vasconcelos Xavier, filho de Aloísio de Melo Xavier e de Eunice de Vasconcelos Xavier, nasceu no dia 7 de agosto de 1948. Formado em Direito, exerce sua profissão no Foro do Recife onde reside. Foi Secretário para Assuntos Jurídicos da Prefeitura do Recife. Professor universitário. Poeta de grandes méritos

Momento Cultural: QUANDO A VITÓRIA SORRI – por Antonieta Varela

antonieta

Caminhei por estradas
de auroras e de ocasos.
Dissipei trevas e fiz
brilhar a luz.
Colhi o meu passado
gota a gota, sem travo de amargor.
E agora, se junto o hoje meu
com o meu outrora,
e, se há cantos de amor em meu viver
no acontecer de minha octogésima data,
pressinto,
nesse passar dos anos,
a vitória sorri nos dias meus.

Antonieta Varela
(dedicado ao Prof. José Aragão, na celebração dos seus 80 anos).
Extraido do livro JOSÉ ARAGÃO – PERFIL DE UM EDUCADOR

MOMENTO CULTURAL: A TARDE PERMANECE EM MIM – por Adjane Dutra

Adjane Dutra

A Tarde permanece em mim, este riso que não tem riso.
Este grito que soa bem no íntimo, o grito que aos
poucos me leva a pureza. As folhas caem: tão verdes,
tão mansas, tão leves. As folhas verdes que levam as
entranhas de um verde puro.
Ao longe está um rio que leva suas águas na turbulência
De uma e simplesmente uma corrente de turbulação.
É o vento que sopra, para Norte e para Sul, sempre em
paralelo.
É a constância em que o homem pára por momentos em
apoio com o seu “ser”, raciocínio lento que só a simples vida
de quem realmente vê com clareza a simples vida.
É ver um equino, suíno, a ingerir essa tão cristalina
água. É o poente do sol, as águas do mar, o verde, amarelo, o azul a clarear.
Esta sim é a tarde de prodígios em que o homem inquietante
de amor, ou de dor, leva sua constância, ou inconstância,
aos passos de exatidão ou não, a tarde permanece em mim.

Adjane Dutra

MOMENTO CULTURAL: O MORRER DO SOL – por Albertina Lagos

Profª Albertina Maciel de Lagos

– Chega a Tarde!… e o Sol?…
parece um Rei que fora destronado
e, humilhado se exila
da pátria sua… e longe, desprezado,
de Dor se aniquila!

– Vem o Arrebol…
No seu rubor, o qeu faz?!!!
– De Febo anuncia o instante final
enquanto, nuvens amarguradas,
afogueadas,
recitam, silentes, o “descansa em paz”
numa prece vesperal!

Ouve-se um soluço gemente,
bem triste, lento, plangente…
– E o Sino a dobrar a Ave-Maria
anunciando o expirar do dia!

A Lua que é do Sol esposa amada,
pálida aparece,
da Noite, no véu negro eslutada,
de Dor se esmaece!

Assistem-na, as Estrelas, suas Damas
que lhe fazem companhia…
do seu Amor, nas prateadas chamas,
a Terra erma alumia!

Quanto mistério no Crespúsculo,
no instante épico do Sol pôr!
O Homem sente-se um ser minúsculo,
ante a grandeza do Senhor!

E, do Poeta, a alma sonhadora,
feliz, crente, extasiada…
de Luz sentindo a Sede abrasadora,
para o além é transportada!

Do livro “Silente Quietude”

Albertina Lagos

MOMENTO CULTURAL: Os Medos da Paixão (conto) – Por Valdinete Moura


Não era assim que queria. Não assim: estômago embrulhado, boca amargando, cabeça rodando. Não assim. Bêbada. Difícil acreditar. Sempre tão certinha, comportada e agora, bêbada. Bêbada como uma qualquer. Qualquer Fulana dos becos e ruas da lama que existem por aí. Sou bêbada chique, conseqüência do uísque escocês do mais puro, moro em um apartamento luxuoso em Copacabana. Nem por isso menos bêbada, menos enjoada… Enjoada de mim, da vida, do mundo… Esse mundo é uma porra! Pronto, disse. Uma bêbada é o que você é e, além de bêbada, pornográfica. Não se envergonha? Jamais pensei que um dia, minha filha… Meu Deus, só falta me chamar de puta. Não, mamãe, não diga assim… Se soubesse, chamaria, talvez até não quisesse mais me ver. Não fale assim, mamãe, eu estou sofrendo. A verdade é que estou bêbada. Nunca fiquei assim antes… só uma pequena dose, socialmente. Pro diabo com o social, estou bêbada e sozinha, ninguém viu quando roubei a garrafa. Quando meu irmão descobrir… na sua festa. Ora, que se fodam todos: meu irmão, minha mãe, todo mundo, o mundo também. E eu de quebra. Que está acontecendo comigo? Nunca usei essas palavras. Mentirosa! Usar, usou, só não falou. Se peca por pensamentos, palavras e ações. Se pensou, pecou. Porra para vocês também. Todos os que enfiaram essas coisas na minha cabeça. Não quero chorar; não, meu Deus, que papel ridículo estou fazendo: bêbada e toda desalinhada. A roupa nova que custou os olhos da cara naquela butique nova, como é mesmo que se chama? A tal butique? Sei lá, qualquer uma chique da Zona Sul. Que se dana a tal butique junto com todo o bairro. O Rio de Janeiro todo. A maquiagem deve estar toda borrada. Não quero… não quero chorar, ficar horrível: bêbada… chorona… bobona… meu Deus, que coisa feia. Feia, coisa nenhuma, feio é o que fiz. Como fui fazer aquilo? Deve-se fugir da ocasião de pecado. Como, se o pecado é tão atraente. O diabo toma formas atraentes para tentar. Para o inferno com o demônio… não acredito em demônio, nem em inferno… inferno é agora… o meu. Merda, estou chorando, estou horrível, não quero, felizmente ninguém me vê. Como pode ver, se fugi, enganei todo mundo, queria ficar só, roubei o uísque. Mentira, não quero ficar só, quero colo, alguém para me consolar, quero meu irmão, ele pode. Quero esquecer, foi tão bom e durou pouco, tão pouco… parecia tanto, tão bom, divino. Por que digo assim? Não devia. É sacrilégio usar o nome de Deus em vão. Ainda mais se tratando de coisa assim. Foi divino, sim. Divino ser puta?  Assim que me chamava, sua putinha. Que vergonha, meu Deus. Era tão bom, tão bonito, ficava tão feliz! Menos quando me chamava de putinha, mesmo assim, com carinho, fiquei não sei como, humilhada, ofendida, não sei. Não disse nada, sentia vergonha. Igual às mulheres da rua da Lama  que passavam em frente à casa de vovó, lá no interior. Mamãe não falava com elas, nem vovó, nem as senhoras de respeito, se falavam, usavam um tom de superioridade para mostrar o lugar de cada uma. E agora eu me sinto tão mal, tonta. Tonta e chorando, não consigo parar de chorar. Deus, queria gritar, preciso. Queria morrer. Aí, acabava tudo. Mamãe não ia saber de nada e o povo ia dizer coitadinha! Morreu tão nova! Bebeu demais, não tinha costume. Ninguém, ia ficar sabendo de nada. Ninguém sabe; só eu e ele. Ela, será que sabe? Sabe nada! Ele não ia dizer a mulher que ele… que nós… ai, que vergonha! Vergonha, você nesse estado. Não conhece seu lugar? Uma moça de família, mamãe, não mudou nada… quer dizer, quase nada. Ai, meu Deus, não quero pensar, não quero lembrar; ele com ela como se não me conhecesse, tão seguro, como se nós não… Não posso esquecer os dois daquele jeito. Tão apaixonados e eu… pensei que ia morrer, cair ali mesmo e ele tão seguro. Não quero lembrar, não quero. Se ao menos eu dormisse antes que alguém chegasse aqui, era como se morresse. Mamãe ia ficar assustada. Que me importa, só me importa eu agora, o resto que se dane, se foda, se qualquer-coisa-de-horroroso, qualquer coisa. Eu quero dormir, esquecer, passar a ressaca. Não quero morrer, ninguém morre disso, tão bom… apesar… sua putinha. Ninguém ficou sabendo, isso passa. E se souber? Merda pra todo mundo, merda pra elite carioca. Bom falar assim. Pensar. Livre. Vou dormir… respiro fundo, isso passa, amanhã é outro dia, respiro fundo, durmo, não estou mais chorando, só com a cabeça doendo… respiro fundo, passa, durmo, respiro… durmo… passa… merda pra…  ZZZZZZZZzzzzzzzzzz…………….

* Conto integrante do livro “Mulheres na Chuva” pela Ilumine Editorial.
** Ilustração de Jack SoulFly, artista vitoriense.


Valdinete Moura
 é escritora e poetisa,
membro da Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciência.

MOMENTO CULTURAL: Minha mãe – Por Júlio Siqueira

O TEMPO VOA - Júlio discursa na praça Diogo de Braga, por ocasião de uma solenidade comemorativa à fundação da cidade - do livro Júlio Siqueira Sinopse biográfica - Pedro Ferrer

Júlio discursa na praça Diogo de Braga, por ocasião de uma solenidade comemorativa à fundação da cidade – do livro Júlio Siqueira Sinopse biográfica – Pedro Ferrer

– nos seus 86 anos –

Que feliz eu sou em poder contemplar,
num êxtase de terno amor e de carinho,
o rosto tão querido, todo arminho,
dessa criatura boa, sem par!

Amar-te? Amo-te muito. E sou vaidoso
por seres minha mãe… E tanto é assim
que é um gozo, uma alegria sem fim
que proclamo a toda gente, orgulhoso!

Quero beijar-te as mãos que me abençoam,
ouvir-te a voz, cujas palavras ecoam
num doce misto de ternura e de amor,

porque és a mais bela das criaturas,
daquelas que enchem o mundo de venturas
amando e sorrindo em meio a própria dor!

Júlio Siqueira

(do livro: ANTOLOGIA DA POESIA VITORIENSE – Júlio Siqueira – 1843-1993 ANO DO SESQUICENTENÁRIO DA VITÓRIA – PÁG 111)

MOMENTO CULTURAL: CORDEL DO CONTRADITÓRIO NÚMERO ONZE – Por Egidio Temótio Correia

egidio-poeta

Continuando o cordel
Que eu mesmo prometi
Comparando o tempo atual
Com momentos que já vivi
As idas e vindas do tempo
E mudanças que assisti.

Nos chamados anos de chumbo
Militares queriam mudar.
Achavam que a força bruta
Era a forma de governar.
Prendiam, acusavam, matavam
Quem ousasse discordar.

O Lindbergh Farias
Que é senador do PT
Já foi presidente da UNE
Antes de muitos nascer
Também liderou estudantes
Que não sabe é bom saber.

Estudantes sempre acham
Que o mundo deve mudar.
Fazem manifestos e protestos
E vão pra rua gritar.
A coisa mais fácil que tem
É a outros condenar.

Já vi muitos e muitos ser presos
Querendo a democracia
Querendo um país melhor
Como se faz hoje em dia.
O que se pede nas ruas
Na época já se pedia.

José Jenoino e José Dirceu
Também foram perseguidos.
Zé Dirceu foi exilado
Antes do PT ter nascido
O ex-presidente Lula
Passou trinta dias detido.

A Dilma também foi presa
De comunista foi acusada.
Nos porões da ditadura
Dilma foi torturada
Lutando por liberdade
E essa democracia sonhada.

Mas quando se chega ao poder
E tem o comando na mão
Percebe-se que tudo aquilo
Não passou de ilusão
Querer mudanças é fácil
Mudar é outra questão.

Quem é estudante hoje
Pode governar algum dia.
De corrupto será acusado
Como ele mesmo fazia
Acusando quem governava
E achando que tudo sabia.

Antes de Jesus nascer
Já havia corrupção.
Judas foi traidor
Dimas era ladrão.
Jesus queria mudar
E acabou na prisão.

Jesus Cristo e Maomé
A bíblia e o alcorão.
Buda, Confúcio, Demóstenes,
Sêneca, Sócrates, Platão.
Sábios, filósofo profetas,
Política e religião.

Todos querem mudar por fora
Mas poucos mudam por dentro.
Esse é motivos de guerra
Que existe de tempo em tempo.
Ninguém muda outro homem
Sem o seu consentimento.

Sempre haverá governados,
Sempre haverá governantes.
Sempre haverá protestados,
Sempre haverá protestantes.
Veem pessoas vão pessoas,
Tudo fica como antes.

Não me julgue pessimista,
Não me julgue acomodado.
Também já fui protestante,
Também já fui protestado.
Só estou dizendo que o mundo
É um velho moribundo
Trazendo muitos recados.

Egidio Temótio Correia

MOMENTO CULTURAL: O MAR E A FONTE – Por Célio Meira

celio-meira

O MAR:
Disse o Mar à Fonte amiga:
– sou forte, belo e profundo,
as minhas águas dominam
quase três partes do mundo.

Garanto a vida, o progresso
as dezenas de nações;
nestas águas, faz-se a guerra
ao ribombar dos canhões.

A FONTE:
Sei de tudo, Mar bravio,
por toda parte fulguras,
mas estas águas não matam
a sede das criaturas.

Célio Meira

(Do livro: ANTOLOGIA DA POESIA VITORIENSE – Júlio Siqueira – 1843-1993 ANO DO SESQUICENTENÁRIO DA VITÓRIA – PÁG 53)

Fim de Semana Cultural:
Vitória de Santo Antão (poema) – Por Stephem Beltrão

Só e esperançoso, sonhei com minha cidade.

Fiquei pensativo e saudoso.

No sonho, encontrei as mesmas lojas,

as mesmas casas, as mesmas igrejas,

os mesmos amigos, os mesmos granfinos,

os mesmos mendigos.

As crianças continuavam crianças,

os idosos continuavam idosos,

ninguém chorava, ninguém sofria,

ninguém morria.

No Rio Tapacurá, no campo de futebol,

na Rua Amarela, na Rua do Dique, No Rio do Cajá,

no Bairro do Livramento, na Igreja do Rosário,

na Praça da Matriz, no Bairro do Cuscuz…

Na maternidade onde nasci,

tudo estava exatamente como na minha infância.

Sem saber o certo, consegui realizar um milagre

Num piscar de olhos, eu estava na minha cidade!

Tudo estava como antes, nada havia mudado,

tudo era só da gente (meu e de meus amigos de infância),

tudo igual a quando eu era criança!

Visitei a fábrica da Pitú, encontrei o Professor Mário Bezerra

na porta do Colégio Municipal 3 de Agosto e

passei na frente do Colégio Nossa Senhora das Graças.

Conversei com o professor José Amâncio,

pedi a bênção a padre Pita, revi os amigos:

crianças, adultos, jovens, barbudos, alegres, tristes, sadios, doentes;

andei pelas ruas do comércio, escutei o canto do ferreiro

da Casa de Ferragem de Domingos Beltrão;

corri nas praças, assisti novamente a matinê no Cine Iracema,

no Diogo Braga;

brinquei no reservatório, e entrei, mais uma vez,

em uma Maria Fumaça na Estação Ferroviária.

Como um super-homem, voltei o tempo

e senti o gostinho de regressar para minha cidade.

–Matar a saudade que há anos me consume.

Vitória de Santo Antão, que bom voltar a ti!

Brincar carnaval na Cebola Quente, na Girafa,

no Clube dos Motoristas, “O Cisne”, no Urso Branco,

no Clube Taboquinha, no Camelo, no Leão.

Visitar minha antiga escola na Mortuária…

Reconhecer que errei, que te esqueci

e te deixei nesse mundo de Deus.

Assumir que te usei. Implorar perdão,

pela minha ousadia, pela minha ambição.

Vitória de Santo Antão, eu e meus amigos de infância

zombamos de tudo que fazias sério nas tuas ruas,

nos teus rios, nas feiras, nas escolas, nas igrejas,

no comércio, nos comícios, nos teus cinemas,

na Praça da Matriz, no cemitério.

Ah, Vitória! No teu cemitério, em Cruz das Almas,

já está gravada esta história, em cruzes e mármores.

E eu, pela falta de paciência, certamente, não estarei lá,

ao lado dos meus amigos de infância.

Mas todos os dias as crianças estarão pulando,

correndo e brincando nas tuas calçadas.

 

Stephem Beltrão

Escrito em 1984, no Rio de Janeiro e que faz parte do livro de poesias “Retratos do Tempo” do autor, editado  pela Editora Elogica.