PAIXÃO – por professor Pedro Ferrer.

Esclarecendo algumas passagens do artigo publicado no dia 24 no Blog do Pilako. Não conheço os escritos do teólogo Alberto Maggi.  

O cabeçalho do artigo reza: “Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema. Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres”.

Mais adiante o teólogo escreve:   “basta ler os Evangelhos para ver que as coisas são diferentes. Jesus foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas”.

No meu entender a falha está no cabeçalho que serviu como manchete chamariz, para chamar atenção do leitor ou curioso que anda em busca de negar a fé cristã. Leiam o que ele afirma adiante:

“A morte de Jesus não se deve apenas a um problema teológico, mas econômico. O Cristo não era um perigo para a teologia (no judaísmo havia muitas correntes espirituais que competiam entre si, mas que eram toleradas pelas autoridades), mas para a economia. O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos, um Pai que nunca pede a seus filhos, mas que sempre dá.

Já mudou o tom NÃO SE DEVE APENAS. Portanto Jesus morreu TAMBÉM pelos nossos pecados. Os sacerdotes e doutores da Lei não sabiam, não entendiam, a missão de Jesus. Tão pouco o aceitavam. Encarando por este lado Jesus foi morto por ser um opositor.

A explanação do teólogo não é nenhuma novidade. As igrejas cristãs sempre analisaram a morte de Jesus por estes prismas: razão econômica e teológica. As  Igrejas cristãs  sempre afirmaram que foram duas as razões que levaram Jesus Cristo à morte: o jogo de interesse dos poderosos de então e a missão salvacionista do  Mestre. São dois lados de uma mesma moeda: CRISTO. Jesus veio nos salvar . Sua doutrina e atitudes iam de encontro com os interesses dos poderosos. Só restava a eles: matá-lo. O artigo cita uma declaração de Caifás (Jo.11, 48). Leiam no mesmo João, um pouco antes, Jo. 11, 47 os pontífices tinham medo da influência de Jesus. No mesmo capítulo de João 11 lemos: ele, (Caifas) “profetizava que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos. E desde aquele momento resolveram tirar-lhe a vida”. Convido aos interessados lerem em Mateus: 26, 39: assim rezou: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia, não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” Jesus tremeu diante da morte  é tentado a fugir da sua missão, mas ora ….. Adiante ainda em Mateus (26, 63 a 65): Caifás indaga a Jesus, se Ele é o Cristo, o Filho de Deus. Jesus responde-lhe que sim. Caifás grita: Ele blasfema e usa isto como pretexto para condená-lo. Sei que por trás da sentença de morte proferida por Caifás estavam os interesses econômicos. Mas ao Cristão o que importa é que a principal missão do Cristo era nos salvar. Jesus diante de Pilatos volta a confirmar sua origem: Cristo filho de Deus. Em Marcos encontramos as mesmas passagens.

Para não ficar tão repetitivo e prolixo, ofereço aos mais interessados uma passagem do Evangelho de São João quando Jesus responde a Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo. Se meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu  não fosse entregue  aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo”

Faço lembrar que no momento em que Judas dá o beijo e entrega Jesus aos judeus, um dos apóstolos desembainhou a espada. Jesus o repreendeu e ordenou lhe que a guardasse.

Ofereço ainda dois trechos que tratam da missão e da morte de Jesus Cristo. .

1- Jesus é condenado, fundamentalmente, porque atingiu o centro da vida do Templo. A aristocracia do Templo exerce uma liderança sobressalente na condenação de Jesus. O sumo sacerdote que se destaca é Caifás. Os sumos sacerdotes mantinham-se no poder à medida que faziam a vontade de Roma e buscavam manter a ordem. Jesus, com seu gesto no Templo, tumultua a ordem estabelecida. Ele se torna um perigo. “Sua atuação contra o templo é uma ameaça à ordem pública suficientemente preocupante para entregá-lo ao prefeito romano”. Jesus atreveu-se a desafiar publicamente o sistema do Templo. A ordem pública está em perigo. Não há perigo ao poder do império romano, pois o Reino anunciado por Jesus não é de violência e não dispõe de legião alguma. E, por sua vez, a essência do Reino de Deus é o testemunho da verdade e não o poder. A verdade do Reino de Deus desmascara a promiscuidade entre poder e mentira, a busca de poder e prestígio em nome de Deus que havia na época. O Reino de Deus, pelo contrário, alicerça-se na verdade. Com Jesus, aparece a verdade como essência do Reino de Deus. “O mundo é ‘verdadeiro’ na medida em que reflete Deus, o sentido da criação, a Razão eterna donde brotou. E torna-se tanto mais verdadeiro quanto mais se aproxima de Deus. O homem torna-se verdadeiro, torna-se ele mesmo quando se conforma a Deus” (RATZINGER, 2011, p. 176). Para Jesus, “dar testemunho da verdade” significa realçar a vontade de Deus diante dos interesses do mundo e das potências do mundo:

2 – A razão de fundo é clara. O reino de Deus defendido por Jesus põe em questão ao mesmo tempo toda aquela armação de Roma e do sistema do templo. As autoridades judaicas, fiéis ao Deus do templo, veem-se obrigadas a reagir: Jesus estorva. Invoca Deus para defender a vida dos últimos. Caifás e os seus servos o invocam para defender os interesses do templo. Condenam Jesus em nome de seu Deus, mas, ao fazê-lo, estão condenando o Deus do reino, o único Deus vivo em quem Jesus crê. O mesmo acontece com o Império de Roma. Jesus não vê naquele sistema defendido por Pilatos um mundo organizado segundo o coração de Deus. Ele defende os mais esquecidos do Império; Pilatos protege os interesses de Roma. O DEUS DE JESUS PENSA NOS ÚLTIMOS; OS DEUSES DO IMPÉRIO PROTEGEM A PAX ROMANA. NÃO SE PODE, AO MESMO TEMPO, SER AMIGO DE JESUS E DE CÉSAR; NÃO SE PODE SERVIR A DEUS DO REINO E AOS DEUSES ESTATAIS DE ROMA. AS AUTORIDADES JUDAICAS E O PREFEITO ROMANO MOVIMENTARAM-SE PARA ASSEGURAR A ORDEM E A SEGURANÇA. NO ENTANTO, NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE POLÍTICA PRAGMÁTICA. NO FUNDO, JESUS É CRUCIFICADO PORQUE SUA ATUAÇÃO E SUA MENSAGEM SACODEM PELA RAIZ ESSE SISTEMA ORGANIZADO A SERVIÇO DOS PODEROSOS DO IMPÉRIO ROMANO E DA RELIGIÃO DO TEMPLO. É Pilatos quem pronuncia a sentença: “Irás para a cruz”. Mas essa pena de morte está assinada por todos aqueles que, por razões diversas, resistiram ao seu chamado de “entrar no reino de Deus”

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