Vida Passada… – Raimundo Correia – por Célio Meira.

A bordo do vapor “São Luiz”, que se balançava nas águas do Maranhão, na bacia da Mogúncia, nasceu Raimundo da Mota Azevedo Correia, a 13 de maio de 1860. Passou a meninice na terra fluminense do Cabo Frio, “onde, na informação do ilustrado Artur Mota, lêra Camões à beira0-mar, extasiando-se com as estofes dos “lusíadas”. Estudou no Colégio de D. Pedro II, e andando pela casa dos 19 anos de idade, estreou nas letras literárias, publicando, em São Paulo, os primeiros versos, que eram os “Primeiros Sonhos” de sua visa feliz e alvoroçada.

Matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, e em 1882, na companhia brilhante e honrosa de Silva Jardim, Valentim Magalhães, Pedro Lessa e de Assiz Brasil, recebeu a carta de bacharel. Teve, Raimundo Correia, vida alegre e dinâmica, na velha e gloriosa Faculdade bandeirante, conquistando aplausos, na imprensa e na tribuna.

Diplomado, ingressou na magistratura, exercendo a promotoria de justiça na comarca de São João da Barra, à margem do Paraíba. Nessa terra, conta-se, soube o chefe político que o jovem representante do ministério público era poeta, e aflito, o interrogou:

– Dr. Raimundo, o sr. É poeta?

-Não senhor, coronel.

-Ah! Graças a Deus. Não era possível que o promotor fosse poeta!

E exclamou, aliviado e contente:

– Era boato…..

Exerceu, também, esse cargo, na comarca de São Gonsalo de Sapucaí, e mais tarde, o juizado municipal em Vassouras e a pretoria, na capital da República. Serviu na secretaria do Governo do Estado do Rio, ao lado do Conselheiro Carlos Afonso. Professor de humanidades, dirigiu, em Petrópolis, o Ginásio Fluminense, e, em Minas, subiu à cátedra, na Escola de Direito de Ouro Preto. Jornalista, manteve, desde os tempos acadêmicos, colaboração assídua na Redação, no Constitucional, na famosa Gazetinha, de Artur de Azevedo, na Semana, a trincheira aguerrida de Valentim Magalhães, e na Revista do Brasil. Passou, na sua vida agitada, “como o mar que lhe serviu de berço”, pela carreira diplomática, ocupando um cargo na legação brasileira, em Portugal.

E aos 51 anos de idade, morreu, em Paris, o admirável cantor do “Sinfonias” e do “Aleluias”, e que fora, na pena de D. João Camara, “uma glória portuguesa”. Finou-se, tranquilamente, o bom Raimundo, juiz honrado e culto, amigo carinhoso das árvores, homem simples e de coração manso, o que era, sabem todos, o São Raimundo, aos olhos de Afranio Peixoto e  de Aluísio de Azevedo.

Célio Meira – escritor e jornalista. 

LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.

Setembro de 1939 – Célio Meira

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