
Administrava Pernambuco, ao tempo do governo brasileiro de D. João Lencastre, o capitão-general Caitano de Melo de Castro, quando nasceu Rita Joana de Sousa, a 12 de maio de 1696, na olindense. Veio ao mundo, escreve Joaquim Norberto de Sousa, “quando Gregório de Matos expirava com a poesia do arrependimento da república africana dos Palmares”.
Filha de família rica, cresceu a menina Rita na abastança, e, muito cedo, traçou os primeiros versos líricos cantando a natureza do berço nativo, plantado à beira-mar, povoado de coqueiro, e feliz na sua ressureição, sobre os escombros e as cinzas do incêndio, lançado à população indefesa, pela mão malvada do holandês.
Dedicou-se à pintura. Foram louvados os quadros de seu pincel, e a pintura venceu, na realidade, a poetisa, a primeira nas terras do Brasil. Os poemas eram bons. As telas eram ótimas. E versejando e pintando, Rita de Sousa, de educação aprimorada, começou a estudar geografia, história e filosofia, deixando, afirmam biógrafos do Brasil e de Portugal, o “Memórias Históricas” e o “Tratado de Filosofia Natural”. Inéditas, desapareceram, infelizmente, essas obras preciosas, escritas pela moça olindense, que assistiu, contando 14 anos de idade, ao movimento, rebelde, e republicano, travado entre a fidalguia de Olinda e a “portuguesada” do Recife. Versariam, essas “Memórias” sobre a Revolução de 1710? É possível. Rita morreu aos 22 anos de idade, e era natural que deixasse escrita a história da famosa rebelião democrática, partidária de um governo “sem rei”, nas terras da América. Na história, e em virtude de certos indícios, a conjuntura é admissível. E, às vezes, a conjuntura é tão poderosa, que se transforma em própria verdade.
Versos, quadros, história, filosofia, tudo se perdeu. Finou-se, Rita de Sousa, a princesa olindense, em plena mocidade. E é justo que, evocando essa figura iluminada, repitamos, no dia de hoje, as velhas palavras Macedo:
“Os frutos se perderam. Fique, ao menos, no altar da pátria, por ornamento, o seu nome – nome de flor”.
Célio Meira – escritor e jornalista.
LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.
Setembro de 1939 – Célio Meira
