
A antiga povoação da Santa-Cruz, encravada no município de Garanhuns, foi invadida, meses a fio, contam historiadores, por cobras venenosas. Vieram esses réptis das matas virgens que rodeavam e protegiam esse risonho lugarejo, nascido sob as benções de um padre missionário. Travou-se entre os habitantes da Santa Cruz e as cobras, lutar feroz e perigosa. Brandindo cacetes, e aos gritos de – “Valha-me São Bento” – “ Acida-me Senhor São Bento”, os homens venceram os ofídios, desalojados de seus domínios, a ferro e fogo.
E, agradecendo aos santo, fundador da ordem beneditina, o amparo e proteção, naquele transe, deram, povoadores santacruszenses, àquela terra, o nome augusto de São Bento.
Nessa vila, na casa grande da fazenda “Ingá, nasceu Zeferino Candido Galvão Filho, o dia 9 de maio 1864. Estudou as primeiras letras, na cidade de Pesqueira, onde se fixara, iniciando, mais tarde, no Recife, o curso de preparatórios. Perseguido pela pobreza, interrompeu as lutas escolares, e regressou à terra pesqueirense. Fez-se professor primário, ensinou algumas disciplinas do curso secundário, e exerceu funções públicas, na administração pública.
Jornalista de pulso, e polemista, dirigiu a “Gazeta de Pesqueira”, a poderosa tribuna da imprensa matuta, que representou o sonho de sua mocidade, e o apostolado de sua velhice. Batalhamos, na primavera, nessa oficina, ouvindo-lhe a palavra mansa e acolhedora, e agora, no outono, recordando sua figura sertaneja de filósofo, louvemos sua memória.
Traçou o “MIrza”, “Inconfidente”, “Cadete Bonifácio”, “Eulâmpio Corvo” e “Heloisa d’Arlemont”, em cujas páginas se agiganta o grande romancista e o historiador ilustrado.
Poeta, cinzelou o “Epicombos”, e na “Voragem dos “Séculos” e no “Coração e Cérebro” deixou traçadas as diretrizes seguras do pensador.
A grande obra de Zeferino Galvão foi “Dicionário Biográfico Universal”, em muitos volumes, escrito, durante trinta anos, com o espirito beneditino, na solidão da serra do Ororubá. Infelizmente, desse monumento histórico, foi publicado apenas, o 1º volume. Os outros estão condenados, talvez, à poeira e ao esquecimento.
Pertenceu à Academia Pernambucana de Letras, sentando-se na cadeira de Bento Teixeira. Honrou e sodalício. Zeferino Galvão, na terra semi-árida, foi um sábio. Não o esqueçamos
Célio Meira – escritor e jornalista.
LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.
Setembro de 1939 – Célio Meira
