
Em 1972, na antiga vila paulista de Cotia, Manuel Batista Cepêlos veio ao mundo, e não tinha vivido ainda dois meses, quando um padre o fez cristão, na matriz de Nossa Senhora do Monte Serrat, na mesma vila onde nasceu. Não encontrou, Batista Cepêlos, na jornada pela terra, a alegria de viver. Foram os anjos maus que traçou o destino, muitas vezes desgraçados, desse poeta famoso, que procurou a morte, atirando-se, desesperado, e sem fé, no fundo de uma pedreira.
Melo Nóbrega, escritor brilhante, realizou, há dois anos, obre notável, traçando a biografia de Cepêlos. Julga-o, Melo Nobrega, com justiça e nobreza, dando-lhe posição destacada, e ele bem merece, na galeria dos grandes poetas nacionais. Lendo-se essa biografia vê-se como foi dolorosa a vida desse homem, “triste e arredio”, que assentou praça, quando era rapaz, na polícia de São Paulo. E sabe-se que, ostentando, já, as divisas de sargento, saudou, uma noite, em Santa Rita de Passa-Quatro, uma cantora italiana, alcançando palmas da plateia.
Bateu-se, em 94, na Campanha do Paraná, servindo à causado governo. Publicou, em 96, “A Derrubada”, versos da mocidade. Chegou, na caserna, ao posto de capitão. Não lhe roubou o gosto pelo estudo, a vida trabalhosa de soldado. Preparou-se nas matérias do curso de humanidades, e , em 98, aos 26 anos de idade, afeito às asperezas do destino, obteve matricula na faculdade de Direito de São Paulo, onde conquistou, em 1902, a carta de bacharel.
Diplomado, aceitou, dois anos mais tarde, a promotoria de justiça de Apiaí, e em 1908, era o representante do magistério público, na comarca de Itapetininga. Nesse ano, sofreu, Cepêlos, golpe doloroso. Noivo, viu a noiva assassinada. Matou-a o próprio pai. Suicidou-se o assassino da filha. Essa tragédia anoiteceu a vida do poeta do “Cisne Encantado”, do patriota cantor dos “Bandeirantes”.
Jornalista vigoroso, redigiu, em 1909, na capital paulista, o “Diário da Manhã”, escrevendo para diversos jornais e inúmeras revistas literárias e políticas.
Fixou-se, anos depois, no Rio de Janeiro. Assistiu à representação do “Maria Madalena”, drama e versos, recebendo aplausos, no Trianon, à luz da ribalta. Nilo Peçanha o nomeara, em abril de 1915, a pedido de Martin Francisco, conta Melo Nóbrega, promotor de Cantagalo. Não assumiu a cadeira da justiça. Não viu o rio Negro e as passagens da terra nativa do jornalista José Carlos Rodrigues e do luminoso Euclides da Cunha. Era, a esse tempo, Cepêlos, erivado de desgostos, um desgraçado, sem sossego.
Doente e pobre, suicidou-se no dia 8 de maio de 1915. Tinha 43 anos o desventurado poeta que escrevera certa vez: “para quem sofre, a própria compaixão é uma ironia”.
Os homens de pensamento não se esquecerão, doravante, da memória de Batista Cepêlos. Tem , agora, uma estátua. O escultor foi Melo Nóbrega.
Célio Meira – escritor e jornalista.
LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.
Setembro de 1939 – Célio Meira
