Vida Passada… – Raul Pompéia – por Célio Meira.

Ao sudeste do Estado do Rio de Janeiro, em Angra dos Reis, terra formosa do Brasil “à beira-mar plantada”, nasceu Raul dAvila Pompéia, no dia 12 de abril do ano de 1863. Aos 12 anos, mais ou menos, matriculou-se no Colégio Pedro II, e na casa dos 17, era bacharel em letras e romancista. “Uma tragédia no Amazonas” foi o romance que o vinculou à família dos jovens escritores brasileiros. Frequentou a Faculdade de Direito da terra de bandeirante, recebendo, porém, a láurea de bacharel na do Recife, em 1885, pertencente à turma de Alberto Torres, o sábio sociólogo, de Borges Medeiros, Faelante da Câmara, Virgínio Marques e de Ciridião Durval, inspirado poeta de Alagoas.

Exerceu, Raul, no Rio, o cargo de secretário da Escola de Belas Artes, e, mais tarde, o de diretor de Estatística e do Diário Oficial. Jornalista, cronista cintilante, romancista admirável, dedicava ainda, esse fluminense ilustrado, e honesto, as horas amáveis da vida, contam biógrafos, ao desenho, à caricatura, e ao estudo da escultura.

“Talento Fugurante”, no julgamento de Eugênio Werneck, “talento imenso”, no dizer de Alfredo Gomes, “nevrótico e impulsivo”, no pensar de Agripino Grieco, publicou, Raul, em 1888, na Gazeta de Notícias, do Rio, o “Ateneu”, o grande romance, o maior , no gênero, e que sagrou, definitivamente, entre os escritores realistas. Pertence ao “Ateneu” à pequenina lista dos livros famosos da literatura brasileira. Esse livro, na verdade, imortalizou o gênio de 25 anos, de vida faiscante e breve, que, um dia, desapareceu numa tragédia.

Rodrigo Otávio cursou, em 1863 ou 64, convém relembrar a Faculdade do Recife. Foi, nessa época, amigo íntimo de Raul. Morou, e ele quem conta no “Coração Aberto”, “num 2º andar de um sobrado da rua do Livramento, depois da Capunga, e mais tarde na Caxangá, “nas pitorescas bordas do Capibaribe”. Fixa o eminente jurisconsulto, nesse “livro de saudades”, joia de fino lavor literário, um aspecto do tempo de estudante.

Uma tarde, ele e Raul saíram a passeio, em Caxangá, onde residiam, num hotel. Desabou violento temporal. E os dois regressaram molhados, da cabeça aos pés. Pediram Cognac. Veio uma garrafa. Havia moças e rapazes no salão. Alguém, entre os dois, lembrou uma batalha: – Quem beberá mais?

Apareceram os partidários. E a garrafa, em poucos minutos, ficou vazia. E o resultado desse combate era previsto. Informa Rodrigo Otávio, graciosamente:

“E não vivi até a manhã seguinte, em que, preso de um mal-estar, indizível, despertei do meu leito, tendo o travesseiro alteado com Magnum Lexicon e mais o Corpus Juris. Não encontrei, no primeiro momento explicação para o caso, nem para a presença de uns frascos de toucador , com água de Colônia e outras essências, em minha desguarnecida mesa de estudante.

Findava o ano de 1985. Era dia de Natal. Raul neurastênico, recolheu-se ao banheiro. Ouvia-se um tiro. Parara, Raul, com uma bala de revolver, o coração generoso. Tinha 32 anos de idade , o genial escritor que traçou as páginas eternas d “O Ateneu”.

Célio Meira – escritor e jornalista. 

LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.

Setembro de 1939 – Célio Meira

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