O RAPAZ DO KARMAN GUIA – por Lucivanio Jatobá.

Lembro bem do carro, mas confesso-lhes que não da cor do mesmo. Era o carro dos meus sonhos ingênuos infantis: um Karmann Ghia, talvez modelo 1965. Parecia mais um carrinho de brinquedo que ganhávamos na véspera de Natal, presente de um velhinho que deixava sobre os nossos chinelos, mas que nunca aparecia para agradecermos emocionados. Lembrava o Porche 550, do nosso ídolo James Dean.
Vitória de Santo Antão tinha também o seu “James Dean”, que fora meu colega de escola, na década de 1960. Toinho Ferrer , naqueles anos 1960, começou a circular pelas ruas da cidade, montado no seu Karmann Ghia, em alta velocidade para aquela época. Dizia-se que ele corria da Praça da Matriz, passando pela rua Rui Barbosa, até o bairro do Cemitério desenvolvendo 60km/hora!!!! Aquelas histórias introjetavam em nós fantasias impressionantes. ( Como eu queria um dia ter um Karman Ghia para ir até a Serra das Russas , sentindo o atrito do vento sobre a minha face, fazendo meus cabelos perderem o penteado com a brilhantina Glostora. Sentir-me- ia, também, como o James Dean das tardes do Cinema Braga e teria mil garotas a me paquerar…)
Toinho, quase sempre chegava à “toda velocidade”, dava um freada barulhenta e parava na Cascatinha da Praça do Livramento… Quando ele me via, dizia algo como: “Tudo legal?” A nossa diferença de idade acabava impedindo um diálogo. A minha admiração pela irreverência dele e pela maravilha de carro que possuía era indescritível. Aproximava-me do carro e observava a marcha , o painel com o indicador de velocidade, as cadeiras reclinadas e a capota móvel. Um carro mágico, bem diferente do Jeep pé duro que meu pai possuía.


Toinho tomava uma “lapada de Pitu”, dizia uma gracinha com o dono do bar e saía em disparada, em companhia de um amigo, do qual não lembro o nome. Eu olhava o carro descendo a ladeira da praça do Anjo, em direção à “Estação do Trem”. Acompanhava atento o carro “diminuindo” de dimensões até sumir da minha perspectiva.
Mudei-me para o Recife, naquele ano de 1965. Guardei sempre na memória o Karmann Ghia e o rapaz que o pilotava. Passei muitos anos, décadas, sem notícia deste. Há uns três anos, num paroxismo de saudade, fui visitar o Instituto Histórico. Ao descer pela rua Imperial em direção a Feira, vi o Rapaz do Karmann Ghia, sentado numa calçada com uns amigos. Não resisti à tentação: perdi a vergonha e me aproximei dele. Dei boa tarde, perguntei-lhe como ía e ainda disse-lhe que havíamos sido colegas de escola na década de 1960.
Não houve diálogo… Não fui reconhecido. O tempo havia metamorfoseado a minha face. Já não era mais o adolescente que venerava o Karmann Ghia. Continuei a caminhada para comprar algo de camelô… Na verdade, digerir uma crise de melancolia.

Lucivanio Jatobá.

 

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