O DEVER DE ESCREVER.

Tudo que se faz por absoluta obrigação termina ficando absolutamente chato. Até a inspiração ameaça fugir, quando somos obrigados a nos inspirar. E a pressa de nosso mundo fast nos aniquila. Como aquele menino sonolento, detido na sala de aula, mirando o papel sobre o qual tem de escrever uma redação sobre o futuro do mundo. Como é tão jovem que não tem passado, e o futuro é cada vez mais incerto, o texto não passa de uma letra maiúscula, oscilando no início da folha, em busca da primeira oração e sonhando com um ponto final. O que escrever, e ainda rápido, nesta manhã fria de setembro, para chamar a atenção, prender o leitor, gerar comentários e ibope, captar aplausos e patrocinadores? Política, por exemplo, em tempo de Campanha? Não, isso reiniciaria a discussão, já enfadonha, sobre mensalão e propina, insultos, desculpas, amnésias, e nisso há pouca inspiração. Dá uma sensação de vazio, de que estamos perdendo tempo. Falar da poluição, da ganância rapace do progresso, dos universos étnicos, sem ética e sem paz, da arenga das religiões, de aviões trespassando edifícios, da aids e do medo, não resolve, já se foram rumas de papel. Até escrever sobre essa falta de vontade de realizar tão sublime ofício, talvez aborreça. Jorge Luis Borges sugeria que “talvez, seja uma imprudência escrever”. Ficamos à mercê dos olhares e pensamentos alheios. Não estamos juntos de nossos leitores, não nos telefonam – como podemos nos defender? Ademais, digitar para um mundo audiovisual, orientado para ouvir e ver, é arriscar-se a nos petrificar em indecifrável incógnita. Contudo, devo ter cumprido minha tarefa, defendido minha classe. Mesmo sem inspiração, a página já termina e – que pena! – ainda teria tanto o que dizer.

Sosígenes Bittencourt

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