Vida Passada… – Ferreira Viana – por Célio Meira.

Pelotas registra, com orgulho, o nome de Antônio Ferreira Viana, na galeria de seus filhos ilustres. Nasceu, Ferreira Viana, em 1833, no dia 11 de maio, e aos 17 anos, no Colégio de Dom Pedro II, recebeu o grau de bacharel em letras, conquistando o de ciências jurídicas e sociais, em 1856, na Faculdade de São Paulo.

Diplomado, exerceu a promotoria de justiça, no Município Neutro. Nomeou-o Nabuco de Araújo, ministro da Justiça do gabinete da “Conciliação”, chefiado pelo futuro duque de Caxias, o substituto do marquês do Paraná. Esse ministério público foi a primeira etapa da fulgurante carreira pública desse preclaro pelotense. Ingressou na política representando aquele município e a província do Rio de Janeiro, na Câmara Provisória. Repetida vezes, sentou-se na cadeira de deputado vitorioso, sempre, na tribuna parlamentar. Orador eloquente, e elegante, foi, Ferreira Viana, no julgamento de Mucio Teixeira, “o político mais irônico do segundo reinado, e , talvez o estadista de mais espirito do seu tempo”.

Escritor primoroso, traçou, em 1867, a famosa “Conferência dos Divino”, em cujas páginas satirizou, impiedosamente, as figuras reinantes da Casa bragantina. Publicou em 78, os “Libelos políticos”. Jornalista de alta linhagem, batalhou, Ferreira Viana, no “Correio Mercantil”, no “Diário do Rio de Janeiro”, em a “Nação”,  e na “Gazeta de Notícias”, em cujas colunas refulgia sua pena vigorosa e temível, que trazia, no bico, o veneno suave da ironia.

Vestiu a casaca de ministro em 88, dirigindo, a princípio, no último gabinete conservador, organizado por João Alfredo, a pasta da Justiça, e depois, a do Império. Foi esse ministério o derradeiro marco da jornada política do eminente estadista brasileiro. Proclamada a República, Ferreira Viana, que morava, sendo ministro, informam historiadores, numa cela do convento de Santo Antônio, passou a viver integrado a vida do mosteiro, alheio ao mundo e distante das paixões dos novos dominadores.

Há, na vida desse homem, deliciosas anedotas. E pequenas histórias pitorescas que lhe assinalam o espirito mordaz e irreverente. Certa vez, conta Ernesto Sena, citado por Humberto de Campos, numa visita à Casa de Correção, indagou Ferreira Viana, de um sentenciado.

– “Então, qual o seu crime?”

– “Sr., eu abusei da honestidade de uma menor”

– “A quantos anos de prisão foi condenado?”

– “A quatro; já que estou há dois. Se V. excia, quiser proteger-me obterei indulto, e prometo casar com a ofendida”

– “Olhe, quer um conselho de amigo, disse, disse o ministro”.

E batendo no ombro, paternal:

– “Cumpra o resto da pena”.

Morreu aos 72 anos de idade. Desceu à sepultura, envolvido no burel de um frade.

Célio Meira – escritor e jornalista. 

LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.

Setembro de 1939 – Célio Meira

 

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