Vida Passada… – Tavares Bastos – por Célio Meira.

Há cem anos, no dia 20 de abril 1839, nasceu Aureliano Cândido Tavares Bastos, na cidade das Alagoas, a velha e sobranceira rainha das águas da Manguaba. Faz um século que se anunciou, na capital da província alagoana, o nascimento de uma criança, que trazia, na peregrinação apressada pela terra, o destino de um gênio.

Iniciou-se, Aureliano, no estudo das primeiras letras, ouvindo as lições do pai, José Tavares Bastos, e na cidade pernambucana de Olinda, terminou o curso dos preparatórios. Não fizera, ainda, quinze anos de idade, quando autorizado pelo governo, se matriculou, em 1854, na Faculdade de Direito do Recife, partindo, um ano depois, para a de São Paulo, onde, em 58, com uma vida acadêmica fascinante de vitórias, obteve a carta de bacharel. Defendeu tese, em 59, e conquistou o grau de doutor, aos 20 anos de idade.

Ingressou no funcionalismo público, na Secretaria da Marinha. Em 1862, pleiteou, na província natal, uma cadeira de deputado. Apoiado pelo partido dos “lisos”, a que pertencera o pai, e prestigiado, nobremente, pelo jovem Sinimbú, chefe liberal dos “cabeludos”, conseguiu o trinfo desejado. E logo nas primeiras refregas parlamentares, revelou-se Tavares Bastos, lidador corajoso. Enfrentou, a esse tempo, Joaquim José Inácio, ministro da Marinha, e, combatendo sua administração, mereceu, por esse “crime”, severo castigo. Demitiu-o da Secretária, aquele titular.

Voltou à bancada alagoana, em 64,  e nesse mesmo ano acompanhou Saraiva, no Rio da Prata, no alto posto de secretário. Fascinava-o extremo norte, e correu ao Amazonas, estudando os grandes problemas que se relacionam, ainda hoje, com o homem e a terra. Em 66, até os primeiros dias de Agosto, contam biógrafos, apoiou, ardorosamente, o gabinete do marquês de Olinda. Não conheceu o repouso, nesses 14 anos de luminosos combates espirituais, esse home de pequena estatura, e gigantesco pelas ideias, cuja “obra, no julgamento de Costa Rêgo, é como a dos pintores que toma valor intrínseco depois de iluminada pela passagem dos anos”.

Jornalista vigoroso, escritor erudito, traçou, no “Correio Mercantil”, as famosíssimas “Cartas do Solitário”, publicando, “ O Vale do Amazonas” e “ A Província”, livros admiráveis pela riqueza dos conceitos, que o colocaram na galeria reduzida, àquele tempo, dos pensadores brasileiros. E de sua passagem pelo mundo, diz bem alto, eloquente, e comovido, o historiador Carlos Pontes, abençoado espirito de beneditino, numa biografia impressionante.

Finou-se Tavares Bastos, longe da Pátria, aos 36 anos de idade. Morreu em Nice. E quando seu cadáver chegou ao Brasil, informa Carlos Pontes, o jornalista Ferreira de Menezes traçou, no “Jornal do Comércio”, entre outras, estas palavras:

“Os pensadores desaparecem, mas não morrem; a tribuna fica, muita vezes, vazia, mas os grandes oradores que a ocuparam, deixam-na assombrada com os seus vultos”.

Tavares Bastos é, no mundo da ciência das letras, o maior alagoano daqueles que foram arrebatados pela morte.

Célio Meira – escritor e jornalista. 

LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.

Setembro de 1939 – Célio 

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