Vida Passada… – Figueira de Melo – por Célio Meira.

Na terra de Sobral, banhada pelo rio Acaraú, onde o romancista Domingos Olímpio e o arcebispo D. Jerônimo Tomé viram a luz do sol , nasceu, a 19 de abril de 1809, Jerônimo Martiniano Figueira de Melo, cearence preclaro, e de acentuada projeção no mundo político brasileiro.

Bacharelou-se em direito, no ano de 1832, pertencendo à primeira turma do Curso Jurídico de Olinda, figurando ao lado de Euzébio de Queiroz, de Nunes Machado, do sobralense José Antônio Pereira de Macedo, um dos vultos de relevo da política pernambucana, no 2º império bragantino.

Promotor público, na Côrte, aceitou, mais tarde, informa o barão de Studart, um juizado de direito, em Fortaleza. E depois, o cargo de secretário do barão da Bôa Vista, presidente da província de Pernambuco. Mereceu a honra de governar, aos 34 anos de idade, a província do Piauí.

Quando se desencadeou, em Pernambuco, no ano 48, a rebelião praieira, Figueira de Melo estava na chefia de polícia. Não se pode julgar, ainda, com serenidade, a ação dessa autoridade. Os jornais da época estão cheios de injúrias e de ódios recíprocos, e não podem conduzir o espirito a um julgamento imparcial. Louvando essa revolução política, escreveu Urbano Sabino Pessoa de Melo, liberal exaltado, e romântico, a “Apreciação da Revolta Praieira”, em cujas páginas fervilhava, o que é natural, a paixão partidária. Condenando-a, em nome da lei, publicou Figueira de Melo a “Cônica da Revolução Praieira”, em que defende, com ardor, sua intervenção nessa luta armada, e inglória. Os historiadores devem ocupar-se dêsse episódio sangrento da política de Pernambuco, afim de que se faça justiça àqueles que recorreram às  armas, na defesa de uma ideologia.

Três anos depois, em 1851, ingressou, Figueira de Melo, no Tribunal de Relação de Pernambuco. Exerceu, mais tarde, na Côrte, o cargo de chefe de polícia. Deputado à Câmara Geral por Pernambuco e pelo Ceará, obteve, em 1870, a cadeira de Senador do Império, pela província natal. E no ano seguinte dirigiu os destinos da terra gaúcha. Sentou-se, em 1873, na cadeira de ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Atingiu o mais alto posto, na sua agitada e honesta carreira de magistrado.

Jornalista vigoroso, e orador eloquente, defendeu os bispos D. Vital e D. Antônio da Costa, informa Studart, na famosa Questão Religiosa. Morreu, aos 69 anos de idade. Vinculado à vida politica, administrativa e jurídica de Pernambuco, bem merece as homenagens dos homens de pensamento.

Nunes Machado e Figueira de Melo, juntos, no dia da formatura, em 1832, tiveram, 16 anos decorridos, destinos opostos, na jornada áspera da vida. Este sustentou a lei, e aquele dirigiu a revolta. A história os julgará.

Célio Meira – escritor e jornalista. 

LIVRO VIDA PASSADA…, secção diária, de notas biográficas, iniciada no dia 14 de julho de 1938, na “Folha da Manhã”, do Recife, edição das 16 horas. Reúno, neste 1º volume, as notas publicadas, no período de Janeiro a Junho deste ano. Escrevi-as, usando o pseudônimo – Lio – em estilo simples, destinada ao povo. Representam, antes de tudo, trabalho modesto de divulgação histórica.

Setembro de 1939 – Célio 

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