
Todo estudante de Direito já ouviu falar desse caso.
O país vivia a ditadura do Estado Novo (1937).
Em 29 de novembro de 1937, Benedito Pereira Caetano (foto) desapareceu após uma festa em Araguari/MG, carregando consigo 90 contos de réis.
Ele devia a familiares e ninguém o viu partir.
Os últimos a serem vistos com Benedito foram os seus primos Sebastião José Naves e Joaquim Rosa Naves, ambos lavradores, analfabetos, casados e pais de família, que moravam com a mãe viúva, dona Ana, de 66 anos.
O tenente Francisco Vieira dos Santos, conhecido como “Chico Vieira”, assumiu o caso e passou a sustentar que os irmãos Naves haviam matado Benedito para roubá-lo.
Faltava apenas uma confissão.
Presos, Sebastião e Joaquim foram levados a um matagal.
Amarrados nus em um pau de arara, tiveram os corpos untados com mel para atrair abelhas e formigas.
Foram espancados e privados de água e comida.
Sebastião teve dentes arrancados com alicate.
Nada foi suficiente para a desejada confissão.
Diante da resistência, o tenente prendeu a mãe dos irmãos.
Dona Ana foi despida, espancada e violentada sexualmente na presença dos filhos.
Mesmo sob tortura, ela suplicou:
“Não confessem o que não fizeram”.
Após dois meses de suplício, os irmãos cederam.
Joaquim “confessou” em 12 de janeiro e Sebastião em 3 de fevereiro de 1938.
Foram obrigados a encenar uma reconstituição do crime, cavando buracos onde teriam escondido o dinheiro.
Nada foi encontrado.
Não havia arma, corpo, nem dinheiro.
Apenas a falsa confissão.
O caso foi a júri popular e, por duas vezes, os jurados absolveram os dois irmãos.
No entanto, sob a égide da Constituição autoritária de 1937, não se reconhecia a soberania dos veredictos.
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Abusando do autoritarismo, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais anulou as absolvições e condenou os dois irmãos a 25 anos de prisão por latrocínio.
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Em 1946, após 8 anos e 3 meses de cárcere, Joaquim e Sebastião obtiveram livramento condicional.
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Joaquim, destruído pelas sequelas das torturas, foi para um asilo, morrendo dois anos depois, aos 41 anos, como indigente.
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Sebastião continuou lutando para provar a sua inocência.
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Recebeu um telegrama com uma pista e viajou até Nova Ponte/MG, acompanhado de um repórter e um policial, encontrando o “morto” dormindo tranquilamente na fazenda do pai.
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Benedito estava vivo.
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Havia fugido das dívidas e vivido 15 anos sob um nome falso.
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Em 1960, o STF reconheceu o direito à indenização por erro judiciário, garantindo reparação a Sebastião e aos herdeiros de Joaquim.
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Isso é o que ocorre quando a tortura vira método de investigação, marca própria das ditaduras.
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A quem interessar, recomendo o filme “O caso dos irmãos Naves”, de Luiz Sérgio Person.
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