
Novembro de 1972.
Naquele mês e ano, a ditadura conseguiu prender Foedes dos Santos, o principal líder do PCdoB no Espírito Santo.
A prisão deste militante significou o desmantelamento do partido no estado. Isto porque Foedes não aguentou as sessões de tortura e passou a negociar com os militares a entrega dos seus companheiros de partido.
Após as suas delações, prisões e mortes ocorreram em série no ES.
Foi neste contexto de traições e emboscadas que a jovem Míriam Leitão, grávida, de apenas 19 anos, caiu nas mãos do horror.
Míriam e o ex-marido Marcelo Netto seguiam para a Praia do Canto, em Vitória/ES, em uma manhã de domingo.
Inesperadamente, foram abordados por uma Veraneio, sem identificação, sendo conduzidos na mira de metralhadoras para o quartel do Exército de Vila Velha/ES.
Ali, a jornalista viveria os piores dias de sua vida.
Tapas, chutes, golpes que abriram a sua cabeça, deixando o sangue coagulado na nuca, o constrangimento de ficar nua na frente de dez soldados, a obrigação de deitar com um militar, as horas intermináveis de interrogatórios aos gritos, na presença de cães, simulações de fuzilamento e a ameaça permanente da morte.
A atitude mais sórdida, covarde e sádica, porém, foi quando a deixaram trancada em uma sala completamente escura, sozinha, nua, com uma jiboia.
Míriam não conseguia ver nada.
Lembrou, então, que a cobra é atraída pelo movimento, passando a ficar estática, mal respirando, tremendo naqueles momentos de pavor.
A ditadura tentou aniquilar Míriam Leitão, mas não conseguiu.
O seu filho nasceu saudável e, 42 anos depois, ela deu a seguinte declaração:
“Minha vingança foi sobreviver e vencer”.
Obviamente que a ditadura foi implacável com os homens.
Mas a repressão foi mais cruel com as mulheres, já que as torturas sempre incluíam sevícias sexuais.
No próximo dia 31 de março, pelo quarto ano consecutivo, estaremos realizando um ato, desta vez, na Faculdade de Direito, em rechaço ao golpe de 1964 e neste ano com foco na violência sofrida pelas mulheres.
Todos vocês estão convidados.
A quem interessar, recomendo o livro “A Misoginia na Ditadura”, de Renata Santa Cruz.
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