De olho na história: Cunha e Os Sertões de Conselheiro – por Wedson Garcia.

A batalha mais inglória do Exército brasileiro tinha sido vencida. Canudos talvez estivesse destinado a ser enterrado em cova rasa na vala comum da história, não fosse o fato de a expedição de Arthur Oscar ter sido acompanhada por um repórter do jornal O Estado de S. Paulo, que transformou Canudos numa Troia sertaneja e imortalizou Antônio Conselheiro ao escrever Os sertões, talvez o maior clássico da literatura brasileira.

Engenheiro formado pela Escola Militar da Praia Vermelha, sob forte influência positivista, Euclides Pimenta da Cunha (1866-1909) era um republicano convicto que acreditava que uma literatura engajada e de combate, elaborada com paciência, meticulosidade e ciência, poderia ajudar a construir um país melhor. Nesse sentido, e em vários outros, a obra literária desse matemático formado em ciências físicas e naturais e que, paralelamente, decidira seguir também a carreira jornalística, nada tinha a ver com a “República das Letras” da rua do Ouvidor, caracterizada por seu preciosismo gramatical, seu dandismo, sua arrogância tipicamente belle époque. Talvez justamente por isso, Euclides tenha passado a noite anterior ao lançamento de seu primeiro livro, O Sertões, corrigindo, com um canivete de pena, um a um, nos mil exemplares da primeira edição, os 80 erros que encontrara na obra. Tamanha meticulosidade seria plenamente recompensada: ao ser lançado pela respeitada editora carioca Laemmert, em 11 de dezembro de 1902, Os Sertões tornou-se, literalmente da noite para o dia, um estrondoso sucesso.

Embora cinco anos já houvessem passado desde os sangrentos e amedrontadores acontecimentos de Canudos, o episódio tinha permanecido vivo na memória nacional. Além de possuir todos os ingredientes necessários para um grande romance: o caráter épico, as tensões dramáticas, as derrotas militares, uma insurreição de miseráveis; o livro fora escrito em estilo inovador e marcante. Recendia a terra e sangue, era agreste e desconhecido como o próprio sertão; era espantosamente real.

Além disso, apresentava aos brasileiros letrados um Brasil que eles jamais tinham visto, suposto ou tentado entender. A sinceridade, o tom quase homérico, as peculiaridades verbais de Euclides, “ele escreve como com um cipó”, diria Joaquim Nabuco, tornaram sua prosa uma febre nacional. A primeira edição logo se esgotou e muitas outras se seguiram. Um século depois, Os Sertões permanece tão admirável quanto no primeiro dia.

  Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro, em novembro de 1866. Impossibilitado de continuar pagando a Escola Politécnica, transferiu-se para a Escola Militar da Praia Vermelha, que era gratuita. Tornou-se aluno de Benjamim Constant e, como tantos de seus pupilos, “converteu-se” ao positivismo. Em 04 de novembro de 1888, quando o então ministro da Guerra, Tomás Coelho, visitava a escola, Euclides, abolicionista e republicano radical, saiu da formação e jogou o sabre no chão. Foi preso e expulso da escola, mas ficou tão famoso por causa da ousadia que acabou sendo contratado para escrever no jornal O Estado de S. Paulo.

Com a proclamação da República, seria lembrado como o intrépido “estudante da baioneta” e, por ordem do próprio Deodoro, voltou à Escola, onde se formou em engenharia militar, matemática e ciências físicas e naturais. Em agosto de 1896, Euclides já era capitão quando uma nova punição, provocada pelo radicalismo de seus artigos em O Estado, o levou a desistir de vez da carreira militar e a se reformar. Após um ano exato, Júlio Mesquita, diretor do jornal, decidiu enviá-lo como repórter para o front, em Canudos. No dia 14 de agosto, com a tropa do Marechal Carlos Bittencourt, Euclides partiu para Salvador. Chegou a Canudos em 16 de Setembro, apenas seis dias antes da morte de Conselheiro.

Os ideais românticos de Euclides morriam junto com os quatro derradeiros sertanejos de Canudos. De volta a São Paulo, decidiu escrever seu “livro vingador”. Ele o fez à margem do rio Pardo (São Paulo), onde passou três anos supervisionando a construção de uma ponte. Lá, numa cabana de teto de zinco, à sombra de uma paineira, nasceria um dos mais extraordinários livros da história da literatura brasileira: um texto primoroso capaz de decifrar os mistérios e os horrores brasileiros que, passado mais de um século, o Brasil, de certa forma, segue ignorando.

Euclides da Cunha morreu em agosto de 1909, assassinado com 4 tiros disparados por um revólver calibre 38. O assassino era Dilermando de Assis, amante de sua esposa que alegou legítima defesa e foi absolvido nos tribunais por duas vezes. Passados 108 anos, a morte de Euclides continua a despertar ódios e paixões. De um lado, os que pregam que ele foi assassinado covardemente no jardim. De outro, os que defendem que Dilermando agiu em legítima defesa ao disparar contra o escritor, quando ele ainda estava dentro de sua casa. Euclides se foi, sua obra, porém, é imortal.

Wedson Garcia é Ator, diretor, produtor cultural, professor e fundador do Núcleo de Pesquisa Cênica de Pernambuco. Bacharel em administração pela Faculdade Metropolitana do Recife e atualmente estudante do curso de Licenciatura plena em história da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)

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