E se 1808 não tivesse existido? – Por Wedson Garcia.

Os primeiros anos do século XIX foram um terror para vários países europeus. Napoleão Bonaparte, temido e ambicioso, pretendia invadir a Inglaterra, e não queria que países aliados fizessem trocas comerciais com os ingleses. Em busca de glória, ele e as suas tropas percorreram quase sempre com êxito vários territórios, cometendo verdadeiras atrocidades contra as populações locais. Portugal também não escapou e a solução foi abandonar o país de origem, junto de sua família em direção às terras tupiniquins.

Quando a corte portuguesa se transferiu para o Brasil, em 1808, a cidade do Rio de Janeiro era pobre e nada urbanizada. O rei D. João VI ordenou que se procurassem as melhores construções da cidade, que seriam desocupadas para residência dos nobres. Em cada casa, ordenou que pintassem as letras P.R, que significavam “Príncipe Regente”. Mas, para o espírito gaiato do povo brasileiro, as iniciais passaram a significar “Ponha-se na Rua”. A verdade é que não só o Rio de Janeiro, mas o Brasil sofreu transformação sem igual com a chegada da corte.

Esse governo efetuou transformações importantes para a vida econômica e cultural da colônia, como a abertura dos portos, a implantação do livre comércio e a criação de instituições públicas e culturais. A cidade do Rio de Janeiro também conheceu um surto de urbanização e assistiu à introdução de hábitos e costumes cosmopolitas. Em 1816, com a morte de D. Maria I, dom João subiu ao trono português sendo aclamado, em 1818, rei de Portugal, do Brasil e Algarves. A revolução liberal de 1820, que eclodiu na cidade do Porto, obrigou a família real a regressar a Portugal. Em 1821, deixou o Brasil, seguindo para Portugal.

  1. Pedro I assumiu o trono brasileiro como príncipe regente. Já em Portugal, D. João VI foi obrigado a assinar a constituição, que vigorou apenas alguns meses. Seu filho Miguel organizou um movimento absolutista e Dom João foi reposto como rei. Ele governou Portugal até seu falecimento, em 1826, aos 58 anos.

Nascido em Lisboa a 13 de maio de 1767, onde também faleceu em março de 1826. Era o segundo filho da rainha D. Maria I, e de seu marido e tio D. Pedro III. Em 8 de maio de 1785, casou-se com a princesa espanhola, D. Carlota Joaquina de Bourbon, filha de Carlos IV e da rainha D. Maria Luísa Teresa de Bourbon. Em 1788 foi declarado herdeiro do trono, em virtude do falecimento de seu irmão. Quando sua mãe ficou doente, passou a governar em 1792, porém só se tornou príncipe regente a partir de 1799. Dom João só foi coroado em 1818, dois anos após a morte da sua mãe. A partir da coroação, seu título ficou sendo Dom João VI, Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Estava habituado a entregar-se à caça, despreocupado com os deveres públicos, que lhe tornavam indiferentes, bem longe de pensar que seria nomeado regente do reino, e mais tarde aclamado rei. Além disso, o país encontrava-se numa situação deplorável. Em 1789 explodiu a Revolução Francesa que espalhou pela Europa seu ideal liberal, e alguns anos mais tarde, o terror da ocupação pelos exércitos napoleônicos.  

E se 1808 não tivesse existido?

É possível supor que enveredaríamos pelo mesmo caminho da América Espanhola: com o fim das guerras Napoleônicas, Portugal tentaria reaver o controle da colônia; as elites locais, todavia, orientar-se-iam no sentido da independência, porém de forma mais difusa e não centralizada. É provável que constituíssemos diversas pequenas repúblicas, em Pernambuco, Minas Gerais, no antigo Grão-Pará e Maranhão. “É sempre arriscado fazer história hipotética. No entanto, podemos imaginar que se D. João tivesse cedido à pressão francesa, o Brasil teria perdido mais cedo seus vínculos com Portugal, e o Rio de Janeiro não teria se constituído tão fortemente como centro cultural e de poder”, Sintetiza Caetano Sordi.

Wedson Garcia é ator e diretor de teatro com bacharel em Administração pela Faculdade Metropolitana do Recife. Estudante do curso de licenciatura plena em história da Universidade Estácio.  Contribui para o desenvolvimento teatral da cidade de Vitória de Santo Antão, estando a frente do Núcleo de Pesquisa Cênica de Pernambuco.
Contato: wedsongarcia@hotmail.com

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2 respostas a E se 1808 não tivesse existido? – Por Wedson Garcia.

  1. manoel carlos disse:

    A federação era possível com a monarquia, como é na Inglaterra, na Alemanha, na Suécia-Noruega, na Áustria-Hungria, – nem a monarquia moderna foi outra coisa em longos séculos senão a forma da federação, – e era possível porque o chefe do Estado não tinha interesse, como têm os Presidentes na República, em anular a autonomia dos Estados em favor da eleição do seu sucessor ou da permanência do seu partido.
    Joaquim Nabuco. O dever dos monarquistas: carta ao almirante Jaceguai; Leuzinger; Rio de Janeiro, 1895, pág. 29.

  2. Excelente texto Wedson Garcia, e também uma excelente pergunta: e se 1808 não tivesse existido? Pernambuco seria uma república com certeza, não tenho nenhuma dúvida disso, a exemplo da América espanhola que se esfarelou depois de explorada, dando margem para revoltas descentralizadas e originalizando a existência de várias pequenas repúblicas. É preciso pensar nesse assunto com as lentes voltadas para o século 19 e evitar o anacronismo que observamos em certos comentários por aí. Sua pontuação é bastante pertinente. Abraço.

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