VITÓRIA DE SANTO ANTÃO E A ESTÉTICA DO FEIO. OU: DA ACOSMIA DEMONÍACA. OU AINDA: A SÍNDROME DE PICASSO.

Guernica (1937) - Pablo Picasso

É próprio do sábio ordenar as coisas, já pontificava Aristóteles. Deus, o Logos divino, a Sabedoria em si, a Ordem suprema, fez isto ao criar tudo o que há e, nos “revelou” este processo pelo livro de Gêneses. Em lexicografia grega, Deus transformou caos em ordem. Daí, o vocábulo acosmia representar a desordem; desordem demoníaca.

Nesse diapasão é duro dizer a cidade de Vitória de Santo Antão dói nos olhos. Não há funcionalidade alguma na mesma. As coisas estão invertidas. São pessoas nas ruas e os carros nas calçadas. Animais nas ruas e nós enjaulados, em casa. A água potável jorrando pelas tubulações estouradas e o povo consumindo água com cor, odor e sabor, ruins. Que se danem as propriedades organolétpticas.

O próprio conceito de cidade trás, em seu bojo, a idéia de ordem, coerência e coesão. Aqui, por estas plagas, o termo parece existir somente para receber verbas do FPM.

Vitória de Santo Antão padece do que denomino, por falta de uma melhor e mais acurada alcunha,  da síndrome de Picasso. Esta tudo lá, boca, olhos, nariz… Porém, fora do lugar. Uma aberração.

O crescimento em Vitória é tumoral. É a replicação dos infernos. Tudo é grotesco. Tudo parece ser feito, não posso dizer se conscienciosamente, para dar errado. É uma cidade Gárgula. Espanta ao invés de acolher.

Mutatis mutandis dá-se como nas favelas; um puxadinho aqui, outro acolá. Porém, naquelas os moradores não tem mesmo o que fazer, é fator de sobrevivência, de acomodar mais um rebento que escapou da sanha abortista do PT, do descaso público; mas para com uma cidade isto não se sustenta.

Risível é ouvir-se falar “na capacidade turística da cidade”. Onde? Como? Isso é cocaína. É um argumento entorpecedor, nada mais. Vitória como ponto turístico é possível? Sim, é sim. Mas, primeiro deve-se fazer tabula rasa, começar do começo. Refundar a própria cidade nos seus mais comezinhos conceitos distintivos de cidade: ordem, coerência e mobilidade, no mínimo. A pergunta que não quer calar: quem vai querer assumir este ônus? Quem será o Atlas vitoriense a carregar nos ombros a nossa redenção urbica?

Por enquanto, turismo em Vitória só mesmo naquela modalidade trash, ou, turismo da miséria, que por puro exotismo faz “azélite” virem ver sujeira e violência, como que numa catarse abilolada, voltando para casa dizendo: “não tenho culpa, não tenho culpa, fiz minha parte, doei pro criança esperança”. Turismo em Vitória, no momento, só o do voyeurismo antropológico. Vitória serve como uma pós-graduação instantânea em como não gerir bem uma cidade e ainda ganhar bem, muito bem por isto. Porca miséria!

O exterior de algo, de alguém, de alguma coisa geralmente é um retrato do que há no seu interior. Nesse sentido é incrível ver como a decadência das nossas cidades, em especial Vitória, “Se queres ser universal, fala da tua aldeia, sábio Tolstoi, acompanha pari passu, nossa decadência espiritual. É cabível aqui, a analogia como a que o mestre Martin Lings faz com as vestes humanas e a dignidade espiritual: “Seus trajes, variando magnificamente de civilização para civilização, constituíam sempre um lembrete da dignidade do homem como representante de Deus na terra.” (Ancient Beliefs and Modern Superstitions)

Insensibilidade dos gestores? Não, o problema é que sua sensibilidade é a de uma Caterpillar. Já vi pessoas serem estéticas em desfavor da Ética, o que é reprovável, porém, uma atitude humana demasiado humana, diria um celerado poeta alemão. O que não é comum ver é o sacrifício destes dois valores divinos no altar de uma reles eleição, ou por alguns trocados simbolizados por uma cifra em forma de porcentagem. Em um cenário como este, só mesmo um Deus ex machina. Por isso imploramos: Consolatrix afflictorum, ora pro nobis. Amém

Marcos Paulo
Professor Universitário Federal e Filósofo

 

Esta entrada foi publicada em Editorial. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

5 respostas a VITÓRIA DE SANTO ANTÃO E A ESTÉTICA DO FEIO. OU: DA ACOSMIA DEMONÍACA. OU AINDA: A SÍNDROME DE PICASSO.

  1. aldenisio tavares disse:

    Valeu professor, admirável a sua visão filosófica e poética sobre a nossa desencontrada cidade.

  2. André disse:

    ”O exterior de algo, de alguém, de alguma coisa geralmente é um retrato do que há no seu interior. Nesse sentido é incrível ver como a decadência das nossas cidades, em especial Vitória, “Se queres ser universal, fala da tua aldeia, sábio Tolstoi, acompanha pari passu, nossa decadência espiritual. É cabível aqui, a analogia como a que o mestre Martin Lings faz com as vestes humanas e a dignidade espiritual: “Seus trajes, variando magnificamente de civilização para civilização, constituíam sempre um lembrete da dignidade do homem como representante de Deus na terra.” (Ancient Beliefs and Modern Superstitions)”

    Sábias palavras.

  3. J.S. Machado disse:

    Trocando em miúdos: Vitória está uma porcaria nos doia sentidos (literal e figurado) em pleno crescimento. O resultado já dá prá imaginar.

  4. anonimus de sempre disse:

    Intelectual é isso ai, esnoba todo mundo, fazendo “arrudeio” pra não dizer nada e achar que disse tudo.
    Ainda tem um “móio” de admiradores pra dizer que foi legal.
    Pura BAITOLAGEM.

    anonimus de sempre

  5. andre saulo disse:

    Como sempre, o Mestre Marcos Paulo da um show, infezlismente alguns não conseguem entender, e por isso comenta asneiras, anonimus de sempre se vc não entende não tem problama é só estudar, ler, o que não podemos é criticar alguem por ser intelectual, principalmente um da qualidade de Marcos paulo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>