Há exatos 88 anos, Martha de Hollanda tornava-se a primeira pernambucana com direito ao voto.

Em 15 de março de 1933, a escritora e ativista entrava para a história do Estado e plantava uma semente que outras mulheres viriam a colher no futuro

Março é conhecido, internacionalmente, como o Mês da Mulher. Diversas movimentações e reivindicações por direitos ecoam por todo o mundo, especialmente no período. Salários mais justos, garantias trabalhistas e melhores condições de vida são algumas das pautas que, ano a ano, são discutidas. Um marco decisivo para a história do empoderamento feminino, especificamente para as pernambucanas, aconteceu no dia 15 de março de 1933, quando Pernambuco assistia à primeira mulher a ganhar o direito ao voto no Estado: a escritora e ativista Martha de Hollanda Cavalcanti revolucionou as estruturas da sociedade e plantou a semente do ativismo político; hoje, 88 anos depois, outras mulheres colhem os frutos.

Nascida em Vitória de Santo Antão, em 1903, Martha de Hollanda é historicamente conhecida por sua luta em favor da causa feminina no início do século 20. Pesquisadores apontam que, entre os anos 1920 e 1930, período da juventude da ativista, a sociedade sofria intensas influências do patriarcalismo, em que jovens e senhoras eram condicionadas às vontades dos homens – principalmente nas cidades do interior de Pernambuco.


Martha não se deixava abalar. Luciene Freitas, pesquisadora e responsável pela biografia “Uma guerreira no tempo – Um resgate de uma época, Martha de Hollanda e Delírio do Nada” (2003), não poupa detalhes ao descrever a personalidade corajosa e determinada da ativista. “Ela era uma pessoa à frente do seu tempo. Contestava o ensino, contestava as roupas, usava vestidos sem manga e curtos, sem meia, fumava, bebia, tinha amizades com homens e fazia saraus com intelectuais. Eram coisas que chocavam naquela época. Tanto que essa liberdade rendeu um falatório sobre ela na cidade”, explica.

Os direitos, consequências diretas dos movimentos reivindicatórios femininos, apenas começam a ser absorvidos em larga escala a partir dos anos 1940, em todo o mundo. Até então, no contexto pernambucano, a mulher era preparada para ser mãe, esposa e, no máximo, as mais afortunadas aprendiam piano e francês, como pontua Luciene. A escritora comenta que Martha de Hollanda tocava um pouco o instrumento, mas não com destreza: “Ela não obedecia a esses ritos”.

História no ativismo

Ainda aos 28 anos, Martha fundou a Cruzada Feminista Brasileira, um movimento pernambucano de conscientização política feminista. Ele tinha o objetivo de instruir mulheres, de todas as camadas da sociedade, sobre os seus papéis. As integrantes do coletivo mantinham constante contato com outros grupos feministas de outros estados e com com nomes importantes para a história, a exemplo de Nísia Floresta (RN) e Bertha Lutz (SP), que lutavam pelo mesmo ideal.

Os discursos de Martha, líder da Cruzada Feminista, foram tão bem divulgados que, pensando em ampliar o número de simpatizantes, os pensamentos sufragistas do movimento foram impressos em diversos jornais da época e transmitidos pela Rádio Clube, que, no início dos anos 1930, era a única emissora do Norte-Nordeste.

Em relação aos direitos das mulheres, ela era pra frente”, afirmou Luciene Freitas. Martha chegou a se candidatar, sem partido, a deputada, porém não venceu. “Ela queria que as mulheres tivessem instrução, que tivessem direitos, como ao voto. Alguns até diziam que ela era tão articulada que ultrapassava o marido”, complementou a pesquisadora. A militante foi casada com o também escritor José Teixeira de Albuquerque, residente da cidade de Pombos, com o qual não teve filhos.

Direito ao voto
Foi a partir das movimentações da Cruzada Feminista que alcançou o título de primeira eleitora de Pernambuco. Inicialmente, ela solicitou, junto ao juiz Dr. Felinto Ferreira de Albuquerque, que seu nome fosse incorporado à relação de eleitores de Vitória de Santo Antão. O recurso foi aceito pelo juiz, porém o tribunal não acatou a sentença, indeferindo o processo. Mas, como a biógrafa bem discorre em seu livro, Martha era determinada.

Em nome da Cruzada, foram enviadas várias cartas às autoridades do tempo, inclusive ao então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, a fim de que a decisão de Felinto Ferreira fosse mantida. Ela se apoiava no fato de que as mulheres já podiam votar em 40 países e um estado brasileiro – Rio Grande do Norte. Luciene Freitas comenta que ninguém soube ao certo como e quem autorizou a inclusão de Martha à lista de eleitoras da sua cidade, mas assim aconteceu: em 15 de março de 1933, aos 30 anos, Martha de Hollanda Cavalcanti tornou-se a primeira mulher com direito ao voto em Pernambuco. Para Luciene, nós devemos muito a mulheres como Martha. “Elas ficaram com estigma na sociedade porque ousaram romper com as regras do tempo”. 

Além de articuladora política, Martha foi uma escritora e agitadora cultural. Em 1930, aos 27 anos, ela publicou a primeira e única obra, “O Delírio do Nada”. Logo no início, Martha de Hollanda escreve: “O Meu livro é o cartaz do meu eu na esquina da geração que passa”. Para Luciene Freitas, o livro de ensaios é “uma caminhada frenética de uma pessoa que está buscando o amor”, que também conta com reflexões geradas a partir da morte precoce do seu irmão. Tal trabalho rendeu-lhe comentários e críticas nacionais e internacionais. Ela também costumava escrever poemas, alguns, aliás, eróticos. Alguns desses escritos estão disponíveis na biografia.

Além disso, a escritora sempre teve participação ativa nos movimentos culturais de sua cidade, organizando saraus. Inclusive, recebeu, em sua casa, figuras nacionalmente notórias na época, como a poetisa Adalgisa Neri, as irmãs e atrizes Linda e Dircinha Batista e grandes cantoras da Era de Ouro do rádio brasileiro.

Orgulho da família

Para Diva Hollanda, de 33 anos, é um orgulho carregar um pouco dessa história no seu sangue. Ela é prima de 4º grau de Martha de Holanda. “Ter uma mulher tão importante na minha família, que foi exemplo de determinação, revolução e coragem, para mim, é uma grata satisfação”, comenta a cirurgiã-dentista.

“Em casa, sempre me falaram dela como sendo uma pessoa muito à frente do seu tempo, tanto no agir como no pensar, e isso até chocava a família na época”, comenta Diva. Sua avó sempre falava de Martha como sendo uma pessoa que se destacava por sua inteligência e por não seguir as regras da época. “Não era recatada, jamais foi do lar e não se inibia em conversar com homens, o que era moralmente errado”, pontua.

Diva acredita que sua parente mostrou que as mulheres devem ter vez e voz, além de serem valorizadas e inseridas na esfera pública. “Com as atitudes dela, ela mostrou a importância de ser uma mulher inovadora e que vai atrás dos seus direitos. Acho que temos que ser assim, não aceitar submissão de quem quer que seja. Ela é muito presente para mim”.

Outros frutos

Hoje em dia, as sementes plantadas pela ousadia de Martha de Hollanda floresceram. Outras vitorienses veem na atividade política um mote para suas existências. Para Herika Araújo, ativista e produtora cultural, Martha quebrou paradigmas culturais, inspirou e fortaleceu as lutas por igualdade  de gênero em todo o País.

Herika e a amiga Bruna Morais, que é bacharel em Direito, formam a Vitoriosas, uma chapa coletiva 100% que concorreu à prefeitura de Vitória de Santo Antão em 2020. Agora, juntas, atuam como plataforma nas redes sociais de educação política e empoderamento feminino.

É motivo de orgulho dizer que somos da mesma cidade que a primeira mulher que lutou e exerceu esse direito de voto em Pernambuco. Nossa cidade tem figuras e histórias incríveis, que infelizmente são pouco conhecidas”, aponta Bruna.

A lei 9.504, conhecida como Lei das Eleições, criada em 1997, prevê uma cota eleitoral de gênero mínima de 30% para mulheres, com o objetivo de diminuir a disparidade entre homens e mulheres na política. Mas foi apenas em 2018 que a recomendação se tornou obrigatória.

Apesar disso, Bruna se sente esperançosa quando pensa no lugar da mulher na política. “Me parece que, atualmente, o eleitor vê uma candidata mulher de forma positiva, passa maior credibilidade, eficiência. E isso é visto na prática. No âmbito federal, por exemplo, na última legislatura, tínhamos 9% de mulheres na Câmara dos Deputados e, nesta, temos 15%. Estamos vendo que os países governados por mulheres estão sendo mais eficientes no combate à pandemia”, comenta.

Matéria –  Jornal Folha de Pernambuco. 

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