Apesar do “status” de uma sociedade depender obviamente do caráter comunitário de sua composição e consequentemente do comportamento coletivo de seus integrantes, não se pode desprezar a influência que alguns dos seus membros isoladamente desempenham na evolução à meta do bem estar social. Nesta percepção é que evoco, com o objetivo de registro histórico, a figura elegante, inteligente e aristocrática da Professora FRANCISCA RODRIGUES LOPES DE SENA (Dona Francisquinha), educadora que muito contribuiu à formação do caráter de muitos vitorienses que tiveram o privilégio de estudar no Externato São Luis Gonzaga, no período compreendido entre 1945 e 1958.
A trajetória daquilo que costumamos rotular como destino, colocou-me também na condição de educador, integrando o elenco dos professores do Magistério Superior da Universidade Federal de Pernambuco. Suspeito, porém, que nessa condição minha tarefa tem sido mais de informar, instruir, transferir conhecimentos do que aquela de forjar condutas, de mostrar caminhos, de modelar comportamentos, enfim de educar. Esta tarefa é melhor desempenhada pela professora do pré-escolar e do primeiro grau menor. Assim é que quando bem realizada fica a marca indelével nos indivíduos. Ataulfo Alves já evocou poeticamente esta constatação ao se referir da saudade que tinha de sua professorinha em Miraí. Quando do meu discurso como paraninfo dos biomédicos da UFPE em 1979, dividi a honraria com aquela que me ensinou as primeiras letras e que tantas boas influências me deixou com a sua personalidade marcante.
Filha de Antônio Rodrigues Pereira e Efigênia Rodrigues Pereira, nasceu na Paraíba em 03 de dezembro de 1897 e faleceu aos 87 anos em 24 de março de 1985. Esposa de Honório Lopes de Sena, um dos fundadores do tradicional Clube Abanadores “O Leão”, mãe de Marly Sena de Oliveira Régis, Luiz Gonzaga Rodrigues Lopes de Sena e Geraldo de Magela Rodrigues Lopes de Sena, fundou em Vitória de Santo Antão uma escola na Rua Imperial, 70. Religiosa, denominou-a de Externato São Luiz de Gonzaga, santo do qual era devota. Na árdua tarefa de educar as crianças, contou com a ajuda da também notável sobrinha e filha de criação, Yvonne Ângela Rodrigues Costa.
Trajando calças curtas marrom escuro e com suspensórios da mesma cor e camisas brancas da mangas curtas, frequentei o Externato São Luiz de Gonzaga, quando iniciei os meus primeiros contato a leitura e a escrita do português, quando travei os meus primeiros embates com a tabuada, quando comecei a ser um social, aprendendo, com os companheiros de classe e sob a supervisão das minhas novas mães afetivas a ser um colega. Ah bons tempos! “Eu era feliz e não sabia”. Recordações, muitas: a palmatória – nunca a experimentei pois parece-me que eu fui um daqueles garotos quietinhos; o suicídio de Getúlio Vargas com a suspensão das aulas; a vergonha de dizer a D. Yvonne o feminino de rapaz; os exercícios de caligrafia – as caligrafias de D. Francisquinha e D. Yvonne eram lindas; as provas finais em belos encartes de cartolina – verdadeiras obras de arte.
A Primeira Comunhão e os seus preparativos ainda estão fortemente vivos em minha memória: as aulas de catecismo; os encantos da rica e mística liturgia da Religião Católica; a leveza sentida após a confissão. Mas que pecados tínhamos? Não importava, mais valia a sublime e doce experiência do perdão dado por Deus, via confessor. Seu filho, recém-ordenado, Padre Luiz Gonzaga, celebrou a nossa Primeira Comunhão. Dia Feliz!
Recordações pessoais que aparentemente interessariam apenas a mim, mas elas têm o valor de mostrar a importância daqueles que têm a nobre missão de, ao lado dos pais, mostrar os primeiros caminhos da cidadania. Ademais, têm o valor de registrar o quanto competentemente D. Francisquinha exerceu tal tarefa, ao lado da inesquecível D. Yvonne.
Várias personalidades de destaque nas diferentes áreas da atividade humana em nossa sociedade foram seus alunos, a quem ela relembrava com tanto amor, e que não esqueceram sua figura extraordinária.
Sirva este despretensioso artigo de estimulo a quem de competência devotar trabalho de maior fôlego à Professora Francisca Sena, sua obra e sua influência naqueles que tivera a fortuna de com ela estudar. Finalmente, preste-se esta recordação de incentivo a quem de direito conferir a um logradouro em Vitória de Santo Antão o nome da Professora Francisca Rodrigues Lopes de Sena.
Por Luís Carvalho
Texto originalmente publicado na Revista do Instituto Histórico – VOL. XI – 1991.